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  • 24/06/2011
  • 16:09
  • Atualização: 00:53

Família Andreatta preserva patrimônio histórico do automobilismo

Pilotos gaúchos dominavam pistas do Brasil enquanto Fangio reinava no mundo

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  • Bernardo Bercht / Correio do Povo

A era romântica do automobilismo, dominada por Fangio, também marcou época no Brasil. No País, o domínio das provas era da família gaúcha Andreatta, de origem italiana como o pentacampeão argentino, que completaria seu centenário nesta sexta-feira. A história do mito internacional se cruzou muitas vezes com o grupo liderado por Catarino e Julio Andreatta e formou laços fortes de respeito e admiração entre o multicampeão da Fórmula 1 e os "donos das pistas" brasileiras nas décadas de 1940 e 1950. Pioneiro dos anos em que corridas de automóvel faziam mais sucesso que o futebol, Catarino também faria 100 anos em 2011.

Os irmãos Andreatta se lançaram às corridas de estrada na mesma época em que Fangio dominava os circuitos argentinos, no final de década de 1930. Quem conta um pouco desta história é o herdeiro do clã, Julio Andreatta, que cuida da herança de taças e recordações. Ele abriu na Capital o Café Galgos Brancos, que homenageia a Scuderia Galgos Brancos, formada ainda na década de 30 e que marcou época no Rio Grande do Sul e no Brasil. Fundada em 1935, foi a primeira equipe oficial do Brasil, com oficina no bairro Navegantes, onde hoje existe a revenda Ford Ribeiro Jung. Em 1944, passou para os fundos do posto de gasolina dos Andreatta, na avenida Cairu, esquina com a Benjamin Constant, zona Norte da Capital.

No estabelecimento, é possível mergulhar em uma parte dessa história, rodeado por taças e retratos dos feitos da família. Além disso, todos o finais de semana os carros campeões são estacionados em frente ao café, em perfeitas condições de rodagem. Em breve, a coleção terá mais espaço, no café museu que está sendo construído na rua Dinarte Ribeiro, bairro Moinhos de Vento.

"Era um período em que as corridas de carro eram até mais populares que o futebol. O automobilismo era um evento de massa, em que milhares de pessoas iam para a beira das estrada verem seus ídolos passar", explica Julio, batizado em homenagem ao avô campeão. "E nesse ambiente os pilotos corriam com o perigo em mente e eram até mais responsáveis para não machucar ninguém. Tanto que o vô e o Catarino nunca se acidentaram em corridas, nunca se machucaram e ainda assim ganhavam", destaca.

 História do automobilismo gaúcho é preservada no Café Galgos Brancos | Foto: Bernardo Bercht / Especial CP

Os Andreatta corriam com as carreteiras - carros de fábrica extremamente modificados para a pista, mas de forma artesanal - Ford, similares ao bólido Chevrolet que Fangio usava na Argentina. "Eram veículos pesados com pneus estreitos, tinham os paralamas cortados para melhorar a aerodinâmica e o capô cerrado para melhorar a refrigeração. Dentro, colocavam o tanque de gasolina, no lugar dos passageiros, logo atrás do piloto", detalha Julio. "Então era muito perigoso, imagina numa batida o incêndio? E não tinha gaiola de proteção, cintos de segurança. Era tudo rudimentar."

E foi numa dessas carreteiras que Fangio estreou para o automobilismo internacional, em 1941. A primeria vitória em Grande Prêmio veio na prova Getúlio Vargas, criada pelo presidente gaúcho e vencida pelo argentino em 29 de junho daquele ano (Leia o relato do Correio do Povo, na ocasião da corrida). Os Andreatta viriam a enfrentar aquele Chevrolet em provas no Uruguai, ainda na década de 1940, e os Irmãos Galvés, argentinos que muitos consideravam  melhores que Fangio, o que não se comprovou com o tempo. Nesse ambiente de corridas é que os brasileiros acabaram conhecendo e trocando experiências com o mito da F-1.

Julio explica que, na época, a categoria era um evento muito distante da realidade brasileira e que Fangio não chegava a ser um mentor, ou referência para os brasileiros. "Como rival, contudo, tinha muito daquela competição Brasil/Argentina, mas no caso dos gaúchos de forma saudável e meu avô e meu pai (Luis Fernando) mais tarde iriam ter reverência pelo Fangio", salienta.

Em 1951, Fangio era convidado especial da II edição do Grande Prêmio Getúlio Vargas (mapa ao lado), e o vencedor foi Julio Andreatta, com sua carreteira Ford. "Essa foto aqui no café é o Fangio com o Catarino, meu bisavô, nos bastidores antes da prova", esclarece o herdeiro. No café, a imagem está em destaque, em meio a três taças de vitórias no Brasil, cuja história é possível conferir no vídeo abaixo. "Em 1992, meu pai viajou para a Argentina e foi para Balcarce, foi visitar o memorial e acabou convidado para encontrar o Fangio, onde conversaram sobre as corridas antigas", lembra Julio. Essa foto também está na parede do café.

Pela tradição no cenário nacional, os Andreatta pediram autorização ao presidente Getúlio Vargas para usar as cores verde e amarelo, do Brasil, nas carreteiras (veja a explicação no vídeo abaixo). Aquela pintura, com o galgo branco estampado na porta, inspirava temor nos adversários paulistas e cariocas. Conforme Julio, o famoso Chico Landi (primeiro brasileiro a correr na F-1), jamais ganhou uma prova nacional dos Andreatta. "Eles costumam contar a história do automobilismo nacional apenas a partir da década de 1960 por causa disso. Ficou muita mágoa deste domínio e rivalidade. O Catarino e o Júlio iam lá disputar as Mil Milhas e se revezavam nas vitórias", garante.

Julio lamenta que, até hoje, este "engasgo" do centro do País prejudica o crédito que os pioneiros gaúchos merecem. "Na comemoração dos 50 anos da primeira Mil Milhas, levamos a Interlagos a carreteira em estado original, pronta para rodar. Foi o primeiro carro a vencer a prova, mas ficou nos boxes. Quem conduziu a volta de apresentação foi um Copersucar Fittipaldi, de F-1, que nunca disputou Mil Milhas e não ganhou nada!", reclama.

Confira o vídeo da entrevista com Julio Andreatta Neto:

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