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  • 21/05/2011
  • 19:24
  • Atualização: 19:26

Depois do glamour, o abandono do 4º Distrito em Porto Alegre

Prefeitura promete revitalizar a área antes da Copa do Mundo de 2014

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  • Luciamem Winck / Correio do Povo

Um dos principais polos de desenvolvimento econômico de Porto Alegre, o 4º Distrito - formado pelos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Anchieta, São João, IAPI, Passo D''Areia, Humaitá e Farrapos - vem, ao longo dos anos, perdendo o seu glamour. No passado, o comércio da região era o principal destino de moradores da cidade e de outros municípios da região Metropolitana, em busca de produtos e serviços.

O ápice do desenvolvimento ocorreu entre o final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, com grandes redes comerciais instaladas especialmente nas avenidas Eduardo (atual Presidente Franklin Roosevelt), Farrapos, Benjamin Constant, São Pedro e Cristóvão Colombo e a centralização de indústrias Neugebauer, Coca-Cola, Fiateci, Brahma e Moinhos Guaíba. No entanto, a falta de planejamento urbano, que manteria o crescimento do polo comercial e de serviços, provocou o esvaziamento em alguns bairros. Condenado, há até bem pouco tempo, a abrigar depósitos, algumas pequenas e médias indústrias e uma infinidade de prédios em precárias condições ou completamente abandonados, o 4º Distrito caiu no esquecimento do poder público e, por consequência, dos investimentos. O abandono fez com que antigos moradores fossem embora em razão do surgimento de áreas de prostituição e tráfico de entorpecentes.

Na tentativa de alterar este perfil, a Prefeitura de Porto Alegre vem realizando melhorias, e promete devolver a vida ao 4º Distrito antes da Copa do Mundo de 2014, para a alegria do serralheiro Dirceu Ribas, 42, estabelecido na esquina das ruas Rio Grande e Ernesto da Fontoura. "Estamos esquecidos. Quando chove, os alagamentos são frequentes e o lixo acumulado sobre as calçadas acaba obstruindo as bocas de lobo", lamenta. Ribas afirma que sempre encerra o expediente da serralheria antes das 18h. "Quando o sol se põe, a região se transforma em cidade-fantasma", compara.

O microempresário Paulo Ricardo Wiebbeling, 49 anos, recorda do passado pujante com saudosismo. "O 4 Distrito era o point do comércio. Abrigava dos pequenos comércios às grandes indústrias", lembra. Segundo o serralheiro, basta percorrer algumas ruas dos bairros Floresta e São Geraldo, como a São Paulo, por exemplo, para encontrar prédios que estão em completo abandono, e, por isso, acabam atraindo desocupados, profissionais do sexo e usuários de entorpecentes, que costumam igualmente frequentar a praça Pinheiro Machado. "Não há como levar as crianças para brincar, devido à presença de pessoas embriagadas no local", relata a dona de casa Marília Barreto, 32 anos.

Moradores são reféns do medo

O virtual abandono é mais visível nos bairros Floresta e São Geraldo, onde há maior número de prédios residenciais e comerciais em precária situação. A deterioração dos imóveis - muitos deles desabitados - transformou o 4º Distrito em "zona velha" da cidade. E são esses prédios que servem de abrigo, durante as madrugadas, para autores de pequenos delitos e usuários de drogas. Os moradores não hesitam em afirmar que a Rua do Parque se transforma em "cracolândia" quando a noite chega.

Morador do bairro Floresta, um comerciante de 42 anos, tornou-se refém do medo. Em apenas dois anos, sua residência, na rua Álvaro Chaves, foi alvo de três arrombamentos e de um assalto. "Para proteger minha família e meu patrimônio, transformei a casa em uma prisão. Há grades em todas as aberturas e no entorno do terreno, além de trincheiras de arame farpado que dificultam a ação dos criminosos", relata. Ele teme que, na hipótese de ocorrer um incêndio, enfrente dificuldades para deixar a moradia. "São muitas trancas e grades para abrir", constata ele que, por temer represálias, pediu para não ser identificado.

Na Rua do Parque, no bairro São Geraldo, onde é dono de uma pequena distribuidora de alimentos, é praticamente impossível manter o estabelecimento aberto após as 17h30min. "Por ser uma região basicamente comercial, se torna perigoso manter as portas abertas ao entardecer", observa. Nos dias em que começa o expediente às 5h, para recebimento de mercadorias, o comerciante costuma "pagar pedágio" para que profissionais do sexo e usuários de drogas não importunem. "Pago para não ter problema", admite. Ele aponta a existência de focos de lixo em vários pontos da região, sobretudo nas ruas Moura Azevedo, Santos Dumont e do Parque.

O presidente da Comissão de Urbanização, Transporte e Habitação (Cuthab), da Câmara Municipal de Porto Alegre, Pedro Ruas, mostra-se preocupado com o 4º Distrito e promete verificar a situação in loco. "Vamos buscar a origem dessa infinidade de problemas e tentar encaminhar soluções, mesmo que não estejam ao nosso alcance", observa.

O vereador lamenta que, por muitos anos, o 4º Distrito tenha sido esquecido. "Felizmente, já existe um planejamento estratégico que vai revitalizar e, consequentemente, reurbanizar a região", destaca. Ruas afirma que o 4º Distrito precisa reconquistar o glamour do século passado, justamente por estar estrategicamente localizado e ter vocação para o comércio. "Por ser estratégico para a cidade, como tal deve ser tratado", enfatiza.

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