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21/06/2014 01:26 - Atualizado em 21/06/2014 14:30

Morte de Leonel Brizola completa dez anos neste sábado

Ex-parceiros políticos e neta do líder trabalhista lembram legado

Morte de Leonel Brizola completa dez anos neste sábado
Crédito: Jurandir Silveira / CP Memória

Há 10 anos, em 21 de junho de 2004, morreu aos 82 anos no Rio de Janeiro, Leonel de Moura Brizola. Vítima de um enfarte depois do agravamento de uma forte gripe, o gaúcho do interior de Carazinho, que foi um dos grandes pilares do trabalhismo brasileiro, deixou sua marca firme e entusiasmada na história da política nacional. Duas vezes governador do Rio de Janeiro e uma do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre e deputado estadual e federal, Brizola construiu, com a oratória carismática e improvisada dos líderes, uma maneira particular de falar ao povo, de arrebatá-lo e fazê-lo ter na memória os seus jargões, frases e discursos, mesmo uma década depois de sua morte.

Brizola é sempre lembrado pelo discurso apaixonado e eloquente. “Esse tipo de comunicação que ele tinha se aninhava na alma coletiva. E isso fica. Ele foi, do ponto de vista doutrinador, superior até a Getúlio”, declara o ex-governador do Estado Alceu Collares, parceiro político de Brizola.

Brizola chegou a Porto Alegre aos 14 anos e se estabeleceu na Capital trabalhando em toda a sorte de empregos, até ingressar na faculdade de engenharia da Ufrgs. Aos 24 filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro, fundado por Getúlio Vargas. No PTB organizou a “Ala Moça” e iniciou sua trajetória militante, sendo eleito deputado estadual no ano seguinte, em 1947. “Nós morávamos em uma pensão naquela época. Lembro que almoçávamos e depois eu o ajudava a fazer os exercícios da engenharia”, conta o ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise, amigo e parceiro político de Brizola por mais de 50 anos, ao lado de quem ele fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT).

“Ele assumiu a prefeitura no sábado e às 7h de domingo já teve reunião”

Em 1952 assumiu a secretaria de Obras Públicas no governo tal Walter Só Jobim e se envolveu no 1º Plano de Obras do Estado, ocasião em que se deu a construção da ponte do Guaíba e uma série de obras de saneamento. Assumiu como prefeito de Porto Alegre em 1956. “Eu me lembro dele sempre muito trabalhador, organizado, muito cumpridor de tarefas. Sempre cobrava dos auxiliares. Assumiu a prefeitura no sábado e, no domingo, 7 da manhã já houve a primeira reunião do secretariado”, lembra Chaise.

Como gestor municipal iniciou seu trabalho pela educação, legado pelo qual é lembrado até hoje. “Ele foi o político que mais fez por educação. Hoje é um discurso que caminha em todas as correntes ideológicas, é uma unanimidade. Mas poucos têm a prática deste discurso, como ele tinha” diz a deputada estadual e neta do líder trabalhista, Juliana Brizola.

Quando Brizola assumiu a prefeitura, somente 17 escolas públicas de primeiro grau estavam em funcionamento. Elaborou um plano de emergência para a construção 189 unidades escolares. Ao ser eleito governador do Rio Grande do Sul, em 1958, criou as estruturas que ficaram conhecidas como “brizoletas”, escolinhas de madeira espalhadas pelos municípios. “Em uma ocasião disseram em uma cidade que por lá não havia professores. Ele mandou trazer de lá meia dúzia de pessoas para instruir e voltarem para ensinar”, lembra Collares.

O seu grande feito na área da educação foi a execução do projeto dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), em seus dois mandatos como governador do Estado do Rio de Janeiro (1983-1987 e 1991-1994) . O sistema provia escola pública em horário integral, com atividades extras para tirar crianças e jovens de situações de vulnerabilidade.

“Ele sempre fez política pensando no país. É o que diferencia político comum de um estadista. Político comum pensa na próxima eleição, enquanto o estadista pensa nas próximas gerações. E ele era um estadista, deixou ideias que ficam para sempre”, conta o deputado federal e líder do PDT na Câmara, Viera da Cunha.

Campanha da Legalidade

No final de agosto de 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, Brizola, então governador do Rio Grande do Sul,  liderou um movimento para que o  vice-presidente João Goulart assumisse o governo do país. As pressões militares para que não se cumprisse a legalidade da posse de Jango chegaram ao ponto extremo de uma ameaça de bombardeio aéreo ao Palácio Piratini no dia 28 de agosto.  

Entrincheirados por 12 dias na sede do governo gaúcho, Brizola e os resistentes transmitiam ao vivo do porão do palácio pela rádio Guaíba para toda a rede de rádios da Legalidade orientações ao povo que apoiava em massa o movimento. Ao fim da resistência, o III Exército reconheceu a posse de Jango como presidente.

"Era uma tese muito simples, constitucional. Se o presidente renuciou, tinha que assumir o vice. O comandante do III Exército pediu audiência e Brizola concedeu. Havia a preocupação de que o general Machado Lopes pudesse ir ao palácio prender o governador. Mas ele chegou com muito povo aplaudindo e foi logo dizendo que o III Exército, depois de reunir a oficialidade, tinha decidido por grande maioria apoiar a posse de Jango. Foi um grande alívio, uma festa com o povo", lembra Sereno Chaise, que participou expressivamente do movimento como líder do governo de Brizola. 

Brizola evitou o golpe em 61, mas em 64 os militares tomaram o país e ele teve os direitos políticos cassados e exilou-se no Uruguai, retornando ao Brasil em 1979, com a anistia.

Brizola morreu articulando candidatura à prefeitura do Rio

Após o retorno da democracia, Leonel de Moura Brizola viveu a política de forma intensa – com vitórias e derrotas – até a os seus últimos dias. “Eu telefonei para o Brizola 15 dias antes da morte dele. Ele disse que tinha uma novidade, que ia ser candidato a prefeito pelo Rio de Janeiro. E eu disse que nós já estávamos de cabelos brancos para aquilo, mas ele tinha amor pelo trabalhismo”, lembra Collares.

Acamado depois de passar pelas complicações da gripe que contraiu em uma viagem ao Uruguai pouco antes de sua morte, ele ainda recebia os colegas de partido com entusiasmo. “Falei com ele por telefone dois dias antes da morte dele, e conversamos sobre as alianças para a prefeitura. Ele estava em plena articulação política”, relembra Vieira da Cunha.

Tentativas de chegar ao Planalto

Apesar da respeitável história política, Brizola não obteve sucesso nas três vezes que concorreu ao Palácio do Planalto. Na primeira, em 1989, ficou a cerca de 500 mil votos de ir para o segundo turno das eleições, encerrando o pleito em terceiro lugar. O segundo fracasso ocorreu após ser governador do Rio, em 1994. Na ocasião, recebeu votação inferior a de Enéas. Na corrida presidencial seguinte, foi candidato à vice na chapa com Lula, que ficou em segundo lugar, atrás de Fernando Henrique Cardoso. Em 2002 concorreu a um cargo público pela última vez, quando tentou uma vaga no Senado, pelo Rio de Janeiro. Acabou em sexto lugar.

As derrotas, porém, nunca o desanimaram. Brizola comentava sempre entre amigos e em seus discursos públicos que era como um cavalo inglês, morreria na cancha. “Ele dizia que um líder não se abatia” – recorda Collares – “era sustentado pelo vigor das suas ideias”.

Texto: Thamíris Mondin / Especial
Edição: Tiago Medina


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     Ouça o áudio: Última entrevista de Brizola à Rádio Guaíba
     Ouça o áudio: Última entrevista de Brizola à Rádio Guaíba - parte 2
     Ouça o áudio: Pronunciamento de Brizola na Rede da Legalidade diante da ameaça de bombardeio ao Piratini
     Ouça o áudio: Pronunciamento de Brizola na Rede da Legalidade diante da ameaça de bombardeio ao Piratini- parte 2


Fonte: Correio do Povo






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