Porto Alegre, 19 de Setembro de 2014

Por que a torcida do Grêmio vaiou o goleiro negro Aranha?

Postado por Juremir em 19 de setembro de 2014 - Uncategorized

Quando praticamente um estádio inteiro, majoritariamente branco, vaia um jogador negro, como devemos chamar isso?

Quando parte de uma torcida, impedida de praticar injúria racial, insulta um negro chamando-o de “veado”, como rotular isso?

O goleiro Aranha, dos Santos, foi chamado de macaco há pouco de 20 dias na Arena do Grêmio.

Revoltou-se. Registrou queixa contra a atitude racista dos que o ofenderam.

O Grêmio acabou excluído da competição, a Copa do Brasil.

Essa exclusão será julgada em recurso nos próximos dias.

Grêmio e Santos enfrentaram-se novamente ontem.

O goleiro foi estrondosamente vaiado. Por quê?

Por ter denunciado uma prática abjeta rotineira?

Não deveria ter sido aplaudido?

Vaiá-lo não significa fazê-lo passar de vítima a vilão? Não significa dizer que ele errou?

Não significa relativizar o que aconteceu com um bordão do tipo “fala sério, Aranha”?

A vaia da grande maioria da torcida presente na Arenas é agravante. Uma forma astuciosa de desculpar os agressores.

Aranha percebeu e, em entrevista, botou os pingos nos is.

Estamos muito longe ainda de aprender a lição.

Aranha é o nosso Martin Luther King.




Franceses dançam no acampamento farroupilha

Postado por Juremir em 17 de setembro de 2014 - Uncategorized

Fomos, ontem, terça-feira, pelas onze horas da noite, dançar no acampamento farroupilha.

Cláudia e eu levamos o italiano Fabio La Rocca e os franceses Michel Maffesoli, Philippe Joron e Dominique Wolton para bailar.

Fomos acompanhados pela gaúcha Denise.

A turma arrastou pé no fandango.

Joron mostrou que sabe seguir o ritmo de uma sanfona.

Estivemos em, pelo menos, três piquetes.

Quando Maffesoli quis ir no banheiro químico de um galpão, o responsável disse:

– Tem banheiro público lá adiante. Aqui, não pode.

– Mas ele é francês – eu falei.

– Ah, se é francês, pode.

Deixou entrar e pediu para tirar foto com todo mundo.

Fomos muito bem recebidos pela gauchada.

Maffesoli queria ficar mais tempo.

 

Tirou Cláudia para dançar e não queria parar.

Michel revelou grandes qualidades no arrasta pé.

Ficou deslumbrado com o acampamento.

Viu a comprovação das suas ideias sobre o prazer da vibração em comum, da comunhão de espíritos e de corpos, da alegria do estar-junto, da relação fraternal que emociona.

Considerou o acampamento farroupilha como uma expressão da pós-modernidade: a sintonia entre o contemporâneo – a tecnologia – e o arcaico (o sentimento, o primordial).

Curtiu.

Prometeu voltar.

Vibrou.

 

Até eu caí no baile.

Quando, porém, por falta de pares femininos, de brincadeira, Philippe e Fabio ensaiaram alguns passos de dança juntos, o patrão do piquete se adiantou e, de cara feia, avisou:

– Homem com homem, aqui, não.

Cruzou os braços e esperou que a ordem “natural” fosse restabelecida.

O pessoal tratou de obedecer.

Noutro baile, o patrão pediu que ninguém dançasse de faca na cintura.

Os estrangeiros acharam a ideia bastante razoável.

Eu diria, civilizada.

O acampamento farroupilha foi a grande atração da noite.

Eta gauchada macanuda.




Olívio e Lasier no debate da Rádio Guaíba

Postado por Juremir em 16 de setembro de 2014 - Uncategorized

A Rádio Guaíba fez dois debates com os candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Sul.

No primeiro, Olívio Dutra e Lasier Martins enfrentaram-se por causa da Ford.

Neste segundo, Olívio Dutra, Lasier Martins e Pedro Simon eram as estrelas.

O confronto, mais uma vez, ficou entre Olívio e Lasier.

O candidato petista levou vantagem em dois momentos sobre os adversários.

Quando Simone Leite (PP) recorreu ao tradicional discurso liberal contra as ideologias, Olívio rebateu pedagogicamente que a fala da candidata estava impregnada de ideologia. Foi um direito certeiro no queixo delicado da oponente.

No último minuto do debate, Olívio sacou a famosa carta na manga, uma reportagem do Correio do Povo, de 1966, em que Laiser Martins aparece como vice-presidente da Mocidade da Arena, partido da ditadura militar.

– Tu agoras te dizes trabalhista, mas tu foste de Arena – cutucou Olívio.

Lasier irritou-se. Chamou a cartada de Olívio de golpe baixo. Negou ter pertencido à Arena.

Numa estratégia de advogado, perguntou se havia sua assinatura no documento.

Olívio rebateu que era só uma reportagem. Na saída, Lasier ainda reclamava. Olívio ria e dizia:

– Reclama para o Correio do Povo, Lasier. Reclama para o Correio do Povo.

Nos bastidores, Lasier Martins, já mais calmo, sorrindo, prometeu:

– Eu pego ele na próxima. Tenho muita munição. Não posso usar tudo de uma vez só.

No próximo dia 24, a partir das 13h30, a Guaíba fará o seu segundo debate com os candidatos ao governo do Estado.




Ninguém pode ser impedido de fazer na sua casa aquilo que quer se estiver dentro da lei

Postado por Juremir em 14 de setembro de 2014 - Uncategorized

Passei o final de semana me divertindo com a pobreza dos argumentos contra o casamento gay no CTG e com a miséria de alguns insultos contra mim. Lembra a cena do filme Casablanca, quando o chefe de polícia, para salvar a cara,do amigo, ordena:

– Prendam os suspeitos de sempre.

Tragam os insultos de sempre.

O argumento que mais apareceu é duplamente falacioso: ninguém pode ser obrigado a fazer o que não quer na sua casa.

Ninguém pode praticar racismo dentro da sua casa, pois é crime.

A propriedade não libera do cumprimento da lei.

Nesse sentido, o proprietário deve evitar o racismo mesmo que deseja praticá-lo. Ou poderá ser punido.

Mas, deixada de lado a sutileza filosófica, a realidade foi muito mais simples.

Não se tentou obrigar ninguém a fazer na sua casa o que não queria.

A juíza não impôs nada a quem quer que seja.

O dono, o patrão do CTG Sentinelas do Planalto, emprestou a casa e consentiu que se fizesse nela o casamento homoafetivo.

A única conclusão a tirar seria: ninguém pode ser impedido de fazer na sua casa aquilo que quer se estiver dentro da lei.

Gilbert Gisler e o seu CTG estavam dentro da lei.

A lei permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Foram impedidos, por um incêndio criminoso e por onda de preconceito, de realizar aquilo que desejavam e consentiam.

Como pode?

Só preconceito explica.

Hasta la vista!




Lições do casamento em Livramento: tradição, preconceito e diferença

Postado por Juremir em 14 de setembro de 2014 - Uncategorized

O casamento coletivo, incluindo um casal homoafetivo, em Santana do Livramento, saiu e foi bonito.

Muita coisa se aprendeu com esse episódio.

A primeira delas é filosófica, lógica e jurídica: ninguém tem direito ao preconceito.

Nem com base na ideia de respeito à diferença.

O direito à diferença esgota-se quando começa o preconceito.

A segunda lição é que o direito à propriedade não legitima o direito ao preconceito. Eu posso não querer receber ninguém na minha casa. Posso não querer receber A ou B. Mas não posso explicitar que não recebo A porque ele é negro.

Se fizer isso, pratico racismo.

A terceira lição é que a imbecilidade assume muitas formas no mundo atual. Uma delas é a pretensão a um direito ao preconceito como suposta diferença legítima. Não, o preconceito não é uma diferença passível de legitimação.

A quarta lição é que não existem lugares privilegiados como arena livre para o preconceito.

A quinta lição é que a tradição não pode ser uma matriz reprodutora de preconceitos nem produzir cartilhas orais de realimentação da discriminação com base em supostos valores do passado e, obviamente, do presente.

Sempre que algo não constitui preconceito permite separações, clivagens, distinções, classificações.

Não há preconceito em fazer competições esportivas com equipes separadas por sexo.

O preconceito é uma categoria socialmente construída.

A sua essência é a exclusão de cada indivíduo de certos espaços sociais em função de um todo – raça, etnia, sexo, nação – previamente considerado ilegítimo, inferior, impuro, inadequado, passível de segregação e de limitação.

A sexta lição é lógica e social: não há preconceito em ser contra o preconceito e em impedir a ação dos preconceituosos.

A sétima lição é semântica: tolerância e tolerar são coisas diferentes no momento. A tolerância é uma visão de mundo assentada no respeito às diferenças socialmente legitimadas e contrárias aos preconceitos. Tolerar – no sentido de admitir sem querer conviver ou reservando-se o “direito” de não aceitar em determinados espaços – é o contrário da tolerância.

A oitava lição é pedagógica: nossas crianças não podem ser educadas em “escolas” tradicionais  do preconceito.




Os limites da tolerância explicados aos intolerantes

Postado por Juremir em 13 de setembro de 2014 - Uncategorized

A tolerância não pode ser irrestrita. Ela tem um limite: a intolerância. A tolerância não pode servir para acobertar a intolerância.

Há um jogo retórico no ar: a tolerância teria de ser total, abarcando inclusive a intolerância, para não ser intolerante.

Falso. Erro lógico. Limite da própria linguagem. Tem muita gente confundindo respeito à diferença com respeito ao preconceito.

É uma confusão astuciosa da parte de alguns e ingênua da parte de outros. Um argumento de má-fé ou de pobreza intelectual.

O preconceito não é uma diferença válida, legítima, defensável. Regras internas de qualquer clube não podem se sobrepor às leis e muito menos à Constituição. E não podem, obviamente, basear-se no preconceito como se fosse uma diferença respeitável.

Não podemos ter um clube que, por suas regras internas e valores, rejeite negros, judeus, muçulmanos, etc.

Por que não podemos? Porque contraria a lei e baseia-se em preconceito, em discriminação. Não pode.

Não faz muito tempo, clubes rejeitavam negros e achavam normal.

Essa etapa está vencida.

Não podemos ter nenhuma instituição privada que, por regras internas ou valores tradicionais, rejeite negros ou judeus. Podemos rejeitar grupos ou pessoas que defendem, por exemplo, a pedofilia, pois isso está regulamentado como crime e é socialmente reconhecido como tal. Quem não consegue entender algo tão simples e evidente?

Por que se poderia rejeitar homossexuais?

A legislação brasileira permite o casamento homoafetivo. Nenhum clube privado pode rejeitá-lo.

Nenhum juiz poderia organizar um casamento coletivo impedindo a participação de gays para não melindrar grupos preconceituosos pelo fato de um desses grupos ter emprestado um local para a realização de um evento.

Estamos vivendo os últimos combates contra o racismo e contra  a homofobia.

Os racistas e os homofóbicos esbravejam e buscam derradeiros e falaciosos argumentos para defender o indefensável. O argumento mais em voga, puramente retórico e logicamente defeituoso, é que eles também teriam direito à diferença, sendo que a diferença em questão tem outro nome, preconceito, o direito de rejeitar homossexuais em seus redutos, o direito de restringir a lei em relação aos homossexuais nos seus domínios, o direito de discriminar homossexuais negando-lhes o casamento numa cerimônia coletiva organizada pelo poder público, o direito de limitar a lei em se tratando de homossexuais.

Não há qualquer provocação em aceitar que homossexuais se casem num CTG como parte de um casamento coletivo. Provocação seria descartar os casais homoafetivos para não melindrar os preconceitos de certos grupos.

Só senso comum rasteiro, infestado de preconceito, pode pensar o contrário. É a sensatez preconceituosa.

O que está acontecendo com os homossexuais hoje é exatamente o que aconteceu com os negros e judeus ontem.

Tem muita gente precisando estudar lógica e relações sociais. Se a tolerância tiver de incluir também a intolerância, tiver de ser tolerante com a intolerância, ela não será mais tolerância, será intolerância. Será o tudo vale. Os limites sociais são definidos pelas sociedades. O limite da tolerância nas sociedades democráticas é o começo da discriminação.

Ninguém tem direito à discriminação.

Quando digo que ninguém tem direito a não gostar de negros, judeus ou homossexuais, digo que ninguém tem direito a aspirar que esse gosto, infelizmente sentido intimamente por muitos, seja socialmente legitimado.

Os talibãs de Santana do Livramento praticaram a intolerância por palavras e gestos e pediram tolerância para seus atos tentando ludibriar os incautos com um discurso de respeito à subjetividade de cada um. Parte da mídia condenou o incêndio do CTG, mas relativizou o que não pode mais ser relativizado. Há muito tempo que a mídia gaúcha relativiza o racismo nos estádios de futebol e a homofobia de parte do tradicionalismo.  A juíza de Livramento foi ameaçada de morte. O CTG foi queimado. Atearam fogo na casa da torcedora do Grêmio que praticou injúria racial. O Rio Grande do Sul está atolado no fundamentalismo, no extremismo, no sectarismo e em atos típicos de sociedades discriminatórias. Triste é ver tanta gente racionalizando, justificando, encobrindo, seja por clubismo, seja por conservadorismo, com argumentos infantis:

– Todo mundo faz. Por que só falam de nós?

– E os outros?

– Não foi por mal.

– Eles têm o direito de não gostar de homossexuais.

– São os valores deles.

Não. Falacioso. O preconceito não tem direito de arena, não é uma diferença que possa pedir respeito.

O argumento mais bobo e falsamente lógico é o que se apresenta assim:

– Se não aceitas que eles não gostem de homossexuais e não queiram conviver com eles, estás sendo intolerante também.

Falso. Está-se apenas combatendo o preconceito.




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