Porto Alegre, 06 de Maio de 2015

Dia de tirar direitos trabalhistas

Postado por Juremir em 5 de maio de 2015 - Uncategorized

Deve ser votado hoje na Câmara de Deputados o projeto do governo que retira direitos trabalhistas.

Diálogo que poderia ser ouvido nos bastidores entre um governista e um opositor.

– Pela primeira vez, votarei a favor do governo – diz o opositor.

– Pela primeira vez, votarei contra – diz o governista.

– Mas o ajuste fiscal do governo é necessário – afirma o opositor.

– Necessário para a oposição – ironiza o governista.

– Mas está sendo proposto pelo governo – espanta-se o opositor.

– O governo está nas mãos da oposição – garante o governista.

– Como assim? A presidente é do PT – argumenta o opositor.

– O ministro da Fazenda é do PSDB – jura o governista.

– Quem o escolheu foi a presidente petista – precisa o opositor.

– Forçada pela mídia opositora – defende-se o governista.

– Se a presidente não governa, por que não renuncia? – questiona o opositor.

– Para não fazer o jogo da oposição – explica o governista.

– Estou confuso. Ela já não fez o jogo da oposição ao escolher um ministro considerado tucano? – pergunta o opositor.

– Foi apenas uma concessão – sustenta o governista.

– E o ajuste fiscal é o quê? – questiona o opositor.

– Uma concessão grande demais – reclama o governista.

– Então agora você é oposição? – provoca o opositor.

– E você é governista? – devolve o governista.

– Nunca pensei que veria um petista atacando o governo do PT – diz o opositor.

– Nunca pensei que veria um tucano votando com o PT – diz o governista.

Ainda bem que o PMDB é fiel da balança: nem governo nem oposição.




A bolha do Mississipi e o capitalismo

Postado por Juremir em 4 de maio de 2015 - Uncategorized

Este texto poderia ter como título “A bolha do Mississipi”, “Inglaterra traficante”, “escravidão na bolsa de valores” ou “Grécia saqueada outra vez”. Quem matou mais? O capitalismo ou o comunismo? Depende de como se faz a conta. As morte do nazi-fascismo devem ser colocadas na conta de quem? As da escravidão negra entram na conta do capitalismo. Yuval Noah Harari, em “Sapiens, uma breve história da humanidade” (L&PM), mostra vários capítulos infames do capitalismo. A “bolha do Mississipi” é um deles. A Companhia do Mississipi, dirigida por John Law, presidente do Banco Central da França e controlador-geral das Finanças do rei Luís XV, vendeu ações na Bolsa de Paris para colonizar o vale do baixo Mississipi. Bom marqueteiro, Law espalhou boatos de que a região escondia riquezas fabulosas. As ações dispararam. Muita gente vendeu tudo o que tinha para entrar no jogo.

As riquezas do Mississipi eram só crocodilos. As ações despencaram. John Law fez o Banco Central da França comprar ações da Companhia do Mississipi para estabilizar a situação. Não adiantou. O Bando central e o Tesouro Real atolaram-se. Os especuladores venderam suas ações podres a tempo. Os cofres públicos pagaram a conta. Luís XVI herdou a França atolada pagando os juros da bolha. Chamou os Estados Gerais. Veio a revolução de 1789. Quantas bolhas vieram depois? A Inglaterra vendia ópio para a China. Grandes fortunas britânicas surgiram assim. A China proibiu o consumo. Os cartéis britânicos da droga, tendo acionistas entre os deputados, obrigaram o governo a adotar medidas. Harari observa: “Em 1840, a Grã-Bretanha declarou guerra à China em nome do ‘livre comércio’ (…) Segundo o tratado de paz que se seguiu, a China concordou em não restringir as atividades dos comerciantes de drogas britânicos e em compensá-los pelos danos causados pela polícia chinesa”. Como indenização, a Inglaterra ganhou o controle de Hong Kong e 40 milhões de viciados.

O Egito também entrou na dança. O capitalismo britânico ofereceu-lhe empréstimos para atividades arriscadas que deram com os burros na água. Ficou a dívida impagável. A rainha Vitória mandou seu exército cobrar a conta. O Egito virou protetorado britânico. Não é lindo? A Grécia rebelou-se contra os turcos. Os ingleses lançaram os Títulos da Rebelião Grega. Os gregos pagariam depois da vitória. Estavam perdendo. A Inglaterra mandou seus navios atacarem os turcos para defender seus acionistas. A Grécia conquistou a liberdade e uma dívida impagável com os britânicos. Não existe emancipação grátis. Esse texto poderia se chamar também “ética belga do capitalismo”. O rei Leopoldo II, da Bélgica, fundou uma ONG para combater o tráfico de escravos ao longo do rio Congo. A boa ideia transformou-se noutra melhor ainda para o colonialismo abutre: a exploração da borracha.

Os aldeães eram obrigados a entregar cotas de borracha. Os “preguiçosos” que não atingiam as metas tinham os braços cortados. Entre seis e dez milhões de trabalhadores morreram nesse trabalho inglório, 20% da população do Congo. O capitalismo comerciante de escravos, com ações em bolsa, fica para um capítulo exclusivo.

*

Costumes impositivos

 

Tudo passa. Nada fica. A moda masculina da época do rei Sol seria hoje considerada muito feminina. Luís XIV usava peruca, meia-calça e salto alto. Tinha pose de bailarina. Era macho. Em 1913, falar em voto para as mulheres, nos Estados Unidos, era uma ideia maluca de gente ignorante. Até pouco tempo, propor que uma negra fosse juíza era uma ofensa aos brancos. Vivemos uma eterna luta contra os nossos preconceitos apresentados como naturais. É tudo estratégia de dominação surgida conscientemente ou por acidente. O professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Yuval Noah Harari, observa: “Os sapiens dividem a humanidade instintivamente em duas partes, nós e eles”. Um homo sapiens não vive sem ideias burras.

O passado legitima o presente? Nem sempre. Harari mete o dedo em cumbuca: “É verdade que os judeus, os armênios e os georgianos de hoje afirmam, com certa dose de justiça, que são descendentes dos antigos povos do Oriente Médio. Mas essas são apenas exceções que provam a regra, e mesmos tais afirmações são um tanto quanto exageradas. Não é preciso dizer que as práticas políticas, econômicas e sociais dos judeus modernos, por exemplo, devem muito mais aos impérios sob os quais eles viveram nos últimos dois milênios do que às tradições do antigo reino de Judá. Se o rei Davi aparecesse em uma sinagoga ultra-ortodoxa nos dias de hoje, ficaria perplexo ao encontrar pessoas vestindo roupas do leste europeu, falando em dialeto germânico (iídiche) e tendo discussões infinitas sobre o significado de um texto babilônico (talmude). Não havia sinagogas, volumes do Talmude nem rolos da Torá na antiga Judá”. Ô, louco!

O mito da origem pura e autêntica é uma ficção. Tudo se mistura, copia, altera e incorpora. O “nós” se mescla com “eles”. O problema é que desejamos ser diferentes. A diferença dá poder se for tratada como hierarquia. A escala social precisa de justificativas. Existem as justificativas sagradas e as “naturais”. A justificativa naturalmente sagrada do capitalismo é a meritocracia. O talento, porém, é algo que se tem ou não. Qual o mérito? O dom que faz bem à sociedade precisa ser recompensado. Qual o tamanho justo da recompensa? Os ingleses enviaram James Cook à Austrália porque queriam aproveitar a passagem de Vênus entre o Sol e a Terra para medir a distância entre Sol e Terra. De quebra, conquistaram o pedaço, catalogaram tudo, “civilizaram” a área e extinguiram povos.

Colombo morreu sem saber que tinha descoberto a América. O saber liberta e massacra. Um índio teria pedido a um astronauta para levar um recado aos espírito sagrados habitantes da lua. A mensagem, na língua nativa, só seria decifrada pelos destinatários. A NASA conseguiu um tradutor: “Não acredite em uma única palavra do que essas pessoas estão lhe dizendo. Elas vieram roubar suas terras”. A acumulação primitiva do capital nunca passa no texto do Omo total. Moral da história? Toda hierarquia social se apresenta como natural ou sagrada, mas é apenas uma ficção histórica construída por interessados e com validade limitada. Desconfie de libertadores.

 

 




Campeonato estadual é uma glória essencial

Postado por Juremir em 3 de maio de 2015 - Uncategorized

Eu sou fã de campeonato estadual.

Só tem campeonato estadual quem tem país continental.

A Europa nunca terá. Os estaduais da Europa são os seus campeonatos nacionais. Cada país europeu é do tamanho de um Estado brasileiro. Alguns, não passam de um Sergipe em dimensão e qualidade esportiva.

Nenhum campeonato de futebol é tão difícil quanto o brasileiro.

Todo anos, dos vinte participantes, até 16 disputam o título.

Um clube brasileiro, em média, pode ganhar um título a cada 16 anos.

Na Espanha, Barcelona e Real Madrid entram a cada ano com 50% de chances de ganhar.

Não tem graça. Ou tem a graça de um Gauchão.

Um campeonato com sequência de goleadas é desequilibrado e fraco.

Culpa do desequilíbrio financeiro que faz gigantes e pigmeus.

Cada lugar precisa de dois tipos de competição: uma competição em que os grandes entrem com no mínimo 25% de chances de ganhar (Paulistão, carioca, campeonato inglês); ou em que cada clube grande entre com 50% de chances de levantar o caneco (Gauchão e campeonato espanhol). Assim, potência, tradição e competição acham espaço; outra , mais importante, em que cada clube entre com uns 5% de chance de vencer (Campeonato Brasileiro e Liga dos Campeões).

As torcidas dos grandes precisam dar volta olímpica a cada dois anos.

O verdadeiro campeonato nacional europeu é a Liga dos Campeões.

Precisa um continente inteiro para rivalizar com o Brasil.

Campeonato estadual atualiza a rivalidade essencial.

O Gauchão é disputado por Inter e Grêmio e coadjuvantes.

Ganhar significa superar o principal oponente. Garante taça e festa. Sem estaduais, seria preciso esperar até duas décadas para faturar um título maior. Não por inferioridade de Grêmio e Inter no plano nacional ou continental, mas pela complexidade das disputas e dos participantes de mesma grandeza.

A função do Gauchão é cumprida na Europa pelos campeonatos nacionais.

No Gauchão de 2015, Inter e Grêmio poderiam ter sido eliminados por Novo Hamburgo e Cruzeiro.

Houve tensão, medo, pavor e festa.

Foi ruim e foi bom.

Mesmo com um nível técnico menor, pois o dinheiro europeu leva os melhores jogadores do Brasil, o nosso campeonato nacional continua estruturalmente mais difícil, mais competitivo e mais interessante.

Campeonato sem disputa é como Fórmula 1 sem ultrapassagem e com um carro tecnologicamente superior aos demais. Não tem competição. Um anda sempre na frente. Os outros chegam quatro voltas atrás. É puro tédio.

O Brasil não tomou 7 da Alemanha por causa da esculhambação da CBF.

A Argentina também é esculhambada e chegou à final.

O Brasil foi goleado porque Felipão errou na escalação querendo coroar sua carreira jogando aberto e faceiro para alegria carioca e global. Era um acerto de contas com seu passado de retranqueiro.

É questão de safra.

Nada impede que em breve o Brasil, com safra boa, esteja mandando de novo.

Todos os grandes times europeus contam com brasileiros.

Chega de complexo de cachorrinho de madame: sempre com a cara no meio das almofadas.

Inter e Grêmio precisam cuidar do Gauchão. Salvá-lo da extinção.

O Gauchão é a ararinha azul.

Precisa ser preservado.

Só países com dimensão estadual podem prescindir de um regional.

Parabéns ao Grêmio que valorizou o Gauchão fazendo tudo para ganhar.

Parabéns ao Inter que, finalmente, botou força máxima para vencer.

Desqualificar o Gauchão é pura retórica de quem está ganhando títulos maiores. É burrice. Não dura para sempre. A principal missão de Inter e Grêmio no mundo é um ganhar do outro. A Liga dos Campeões de Grêmio e Inter é o Gauchão. Pode ser também qualquer outro campeonato. Mas é sempre estadual: Gre-Nal.

Pode melhorar a fórmula, ser mais curto.

Mas é essencial.

Parafraseando Tolstoi, o universal começa pela aldeia.

Palavra de ex-colorado.

Mas sempre gaúcho e brasileiro.

E o Aguirre? Estava perdido ou sempre esteve certo?

Derrubou a mídia?

Passou a acertar quando escalou o time defendido pela equipe da Rádio Guaíba.




Professores não querem nome de Costa e Silva

Postado por Juremir em 1 de maio de 2015 - Uncategorized

De Costa para ditadura

Bruno Ortiz e Silva Ehlers

Somos professores na Escola Estadual Costa e Silva onde todas as manhãs aprendemos a sermos humanos melhores. Desde 2013, acompanhando a abertura dos arquivos da ditadura pela Comissão Nacional da Verdade, instigamos um debate acerca da mudança do nome da escola através de atividades pedagógicas transversais.

De lá pra cá, colocamos em diálogo as disciplinas de Língua Portuguesa, Literatura, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, e propusemos os seguintes eventos: “De Costa pra Ditadura” (2013) e “Chega de Costa! Vamos encarar a ditadura de frente” (2014). Além de aulas formais, utilizamos métodos diversificados como teatros, sessões de cinema, saraus literários e palestras onde os estudantes foram protagonistas. Num dos trabalhos, o Relatório Figueiredo foi a base para uma palestra sobre os campos de concentração indígena, feita por uma estudante. As músicas, danças, interpretações e intervenções realizadas culminaram numa manifestação em frente à Secretaria de Educação pela troca do nome e numa assembleia inflamada no último dia 15 de abril, promovida pelo Grêmio Estudantil.

O tema gerou polêmica e dividiu as opiniões de estudantes, professores e funcionários. Entre os argumentos verificou-se uma oposição entre a memória da comunidade e a memória política nacional. O que mais causou estranheza foi a alegação de que ninguém sabia quem foi Costa e Silva. Ou seja, a falta de informação e conhecimento, num espaço de aprendizagem, como argumento para sustentar a homenagem ao ditador. Conversas espontâneas sobre o tema ganharam os corredores, salas, pátio, nos permitindo um clima de diálogo. Civilidade e respeito às opiniões são vistos na escola que leva o nome do ditador que assinou o AI 5.

A mudança ou não do nome da escola Costa e Silva será decidida pela comunidade escolar através do diálogo estabelecido por este verdadeiro tema gerador. Enquanto a escola debate o assunto ouvindo a todos e preparando um plebiscito a ser realizado no mês de maio, continuamos a campanha pela troca do nome. Entendemos que os responsáveis por crimes de lesa-humanidade nunca devem ser esquecidos, mas jamais homenageados.

Somos professores que lutamos por uma educação pública, gratuita, laica e de qualidade. Essa é nossa principal bandeira. Mas em nome das centenas de desaparecidos, das mulheres e homens estuprados e torturados, das famílias que esperam até hoje por seus filhos, dos índios massacrados e mantidos em cativeiro, dos estudantes perseguidos e mortos, que lutamos por um nome que homenageie um ser humano melhor.

 




A morte de um filósofo alemão

Postado por Juremir em 1 de maio de 2015 - Uncategorized

Uwe-Justus Wenzel. In: Neue Züricher Zeitung, dia 22 de abril de 2015.

Uma homenagem póstuma ao falecimento do Michael Theunissen

Uma outra vida que não a oferecida

No dia 18 de abril – conforme veio a domínio público – faleceu em Berlim o filósofo Michael Theunissen.

Despertava suspeita nele todos aqueles filósofos “que perdem sua reputação na relevância pública e reagem a este estado de coisas se oferecendo de modo servil à publicidade”. Michael Theunissen revelou isso numa entrevista que foi divulgada na Neue Zürcher Zeitung por ocasião do seu septuagésimo aniversário em 2002. Com tal afirmação, ele não tinha em mente apenas aqueles colegas que tomam a arte de viver e a terapia como tendência e atividade principal da filosofia, mas também aqueles que oferecem assessoria política e, nesse caso, limitam-se a espelhar ideologias políticas. Tal prática Michael Theunissen certamente não apresentou; mesmo em outros espaços – como, por exemplo, o da publicidade acadêmica – ele raramente apareceu.

Ele se distingue de seus colegas – poucos anos mais velhos e ainda publicamente ativos – Jürgen Habermas, Hermann Lübbe e Robert Spaemann. Juntamente com estes e com outros filósofos, como Ernst Tugendhat, Dieter Henrich e Odo Marquard, Michael Theunissen deve ser certamente lembrado mesmo que por outras razões, porém com a mesma intensidade: todos iniciaram seus estudos após a Segunda Guerra Mundial e têm a seu favor, ou não, o fato de que eles cunharam – seja do mesmo lado, seja um contra o outro – essencialmente a filosofia de língua alemã de pouco tempo atrás, mesmo, assessoriamente, suscitando também a atenção da opinião pública ou não.

Theunissen também não concebeu a filosofia como um mero exercício acadêmico – desfazendo assim a associação de que a filosofia é algo afastado da vida. A filosofia era concebida por ele, se não como realista, assim, todavia, como significativa para a vida. Foi esse espírito cultural e histórico que ele buscou apresentar quando lecionou nas universidades de Berna, Heidelberg e Berlim.

A seu modo ele se referiu a Goethe e, ocasionalmente, citou o verso correspondente ao “Divã do Oriente e Ocidente“ (1819): “Quem não sabe dar conta de três mil anos permanece no escuro como um inexperiente e passa a querer viver dia a dia”. Contudo, na rememoração da história da proveniência – sobretudo por meio de uma interpretação sutil, meticulosa e cuidadosa dos clássicos filosóficos – Theunissen não parou aí. Ele tinha a convicção de que a filosofia tem a função de sugerir “uma vida alternativa à convencional” e, assim, preencher uma carência contemporânea que brota de um mal-estar, a saber, que não há alternativas a este modo de vida que levamos.

Theunissen defendia, vivenciava e ensinava que a filosofia tem sua origem e pulsão a partir dessa carência. Em outras palavras, a filosofia, contrariamente ao que se diz, não surge tão-

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somente da admiração, mas da experiência do sofrimento. Como ele formulou certa vez, “os homens deixariam de filosofar se existisse um mundo sem sofrimento”.

O pensamento de Theunissen ganhou força dialética a partir da tensão entre Kierkegaard e Hegel, Heidegger e Adorno, e moveu-se justamente em torno dessa perspectiva existencial, mantendo-se bastante próximo da Teologia. E foi aí mesmo, quando ele parecia se afastar de uma doutrina religiosa, que ele constatou como ponto de partida do seu embasamento filosófico a autoalienação de seu tempo: a experiência de não saber mais “quem nós somos enquanto seres humanos e o que nós devemos ser enquanto seres humanos”. A partir dessa experiência, a filosofia recebe sua legitimidade e adquire sua primeira orientação “negativista” – não daquilo que deve ser, mas daquilo que não deve ser. Theunissen defendida, neste sentido, um negativismo filosófico.

E qual seria a orientação última de sua filosofia? Jürgen Habermas percebeu no pensamento de Theunissen um “contorno filosófico” do Evangelho. De fato, Theunissen, nascido em 1932 numa casa paterna pertencente à Igreja Confessante, foi inserido no protestantismo confessional; anos mais tarde viria a admitir que exercia – pelo menos também – uma “filosofia religiosa”. Embora “religiosa”, esta filosofia não se limitou ao cristianismo, como bem mostra sua monumental obra da maturidade: “Píndaro. A sorte humana e a virada do tempo” [Pindar. Menschenlos und Wende der Zeit] (2000), uma obra sobre o antigo poeta Píndaro, que retrata a vida cotidiana dos homens e do Deus do tempo, mas que tem no cristianismo seu ponto gravitacional de existência.

Tradutor: Christian Iber, Porto Alegre, abril de 2015.




A modernização pelo cassetete

Postado por Juremir em 1 de maio de 2015 - Uncategorized

A crise espalha-se como uma epidemia. Não há vacina. Ninguém está protegido. O medo de ser atingido deprime as pessoas. As medidas tomadas por governantes parecem ter o dom de agravar o mal. O remédio tem o amargor dos xaropes inúteis e caros: fazer a plebe pagar a conta para não incomodar a “essencial” turma dos camarotes.

Tudo para não taxar grandes fortunas.

Os professores viraram sacos de pancada.

Os governos tucanos especializaram-se em espancar o magistério. No Paraná, o governador Beto Richa cumpriu rigorosamente a cartilha do velho neoliberalismo: tirou direitos, reformou a previdência do magistério na marra, contou com ajuda da justiça para esvaziar as galerias das Assembleia Legislativa na hora de fazer passar a sacanagem e mandou descer o cassetete em quem tentou se manifestar contra o esbulho. Um vídeo mostra o governador terminando de gravar uma entrevista com a mídia amiga para passar sua mensagem enganadora. Outro vídeo revela a turma de Richa vibrando quando a polícia foi para cima dos manifestantes. O Paraná já se tornou um “case” da maneira tucana de retirar direitos trabalhistas: a racionalidade do cassetete flexível, elástico, moderno e meritocrático.

Beto Richa é um governador medíocre que chafurda na ideologia da modernização pelo porrete.

Em São Paulo, a greve dos professores arrasta-se como longo funeral. Em Santa Catarina, o refrão é o mesmo. Em cinco Estados os professores reclamam e sofrem. A mídia faz tudo para enxergá-los o menos possível. Eles não são tão atraentes quantos os coxinhas. Não pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff.  Não se vestem de amarelo. A manipulação da mídia tem atingido níveis estratosféricos. A Rede Globo, sobre terceirização, só entrevista a central sindical favorável ao projeto que esculhamba a CLT e “especialistas” que a rotulam a terceirização de quebra de tabu ou de regulamentação que dará segurança jurídica a relações de trabalho instáveis até agora.

Por que os opositores do projeto não são convidados a falar?

Que mistério é esse?

Os professores brasileiros estão entre os mais mal pagos do mundo.

Existem “especialistas” para garantir que salário não é o ponto central para melhorar a educação.

Resumo da tragédia: retirar direitos trabalhistas, liquidar a CLT, escorchar professores, gradear espaços públicos, privatizar o que der e vender, diminuir a idade penal como se o descalabro fosse responsabilidade dos menores de 18 anos de idade, aplaudir a pena de morte para quem vende a droga consumida pelas classes médias e altas do mundo inteiro, que, obviamente, encontra meios de não se responsabilizar e, claro, chamar tudo isso de modernização.

Triste 1º de maio de 2015.

 




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