Porto Alegre, 16 de Abril de 2014

Prêmio Brasília de Literatura para Jango

Postado por Juremir em 12 de abril de 2014 - Uncategorized

Meu livro Jango, a vida e a morte no exílio (L&PM), ganhou o Prêmio Brasília de Literatura.

É bom ganhar um prêmio nacional e ainda embolsar R$ 30 mil.

Já ganhei muitos prêmios sem nunca acreditar muito neles.

Quando Paula, da L&PM, me ligou para avisar, tivemos uma conversa engraçada:

– Leste o e-mail da Fernanda?

– Li. Ela quer me inscrever num prêmio. Evoluí. Decidi ser humilde. Não acredito em prêmio, mas como as editoras acham importante, podem me inscrever, não me importo.

– Mas é um prêmio de $ 30 mil.

– A razão a mais para eu não ganhar. Vão dar para um amigo.

– Mas tu já ganhaste, Juremir.

– Como assim?

– O resultado já saiu e tu ganhaste.

Prêmio bom é assim. Não sabia que estava inscrito, não sei quem julgou e concorri com vários craques, entre os quais Humberto Trezzi, grande repórter do jornal Zero Hora.

Ganhei na categoria reportagem. Podia ter vencido na categoria biografia e até, se existisse, em romance de não ficção.

Um prêmio atribuído a mim, que falo mal dos prêmio, mostra isenção.

Apesar de mim, meu livro Jango merecia.

O personagem merece ainda mais.




Nós, os autores mascates e rastaqueras

Postado por Juremir em 9 de abril de 2014 - Uncategorized

Venda de livros


Sou um pseudo-autor, um quase escritor, um mascate de livro.

Enfim, um escriba rastaquera.

Isso me deixa muito feliz. Sou eu e minhas possibilidades.

Volta e meia, sou convidado para dar palestras em parlamentos municipais ou estaduais. Ao final das minhas palestras, gosto de colocar meus livros mínimos à venda a preços módicos. Ainda mais que as livrarias, lúcidas e pragmáticas, não costumam, salvo no Rio de Janeiro, onde tudo obedece a uma lógica estranha, deixar meus livros expostos por muito tempo.

Todo dia, recebo mensagens perguntando: “Onde posso encontro seus livros?” Recebi 84 mensagens assim nos primeiros dias de abril. Tenho vontade de responder ironicamente: quem sabe nas livrarias? Mas não posso mentir aos leitores. Talvez eu abra uma livraria em Porto Alegre só para ter uma resposta clara a essas perguntas.

Sou mascate da literatura, repito. Ando por aí sacolejando e vendendo livros. Não ganho dinheiro com isso. Ganho a satisfação de ver os livros sendo disputados na medida em que são os únicos disponíveis quando estou por perto.

Uma menina comprou um livro meu e os seus olhos se iluminaram: “Era o meu sonho”, disse.

Foi como se a minha conta bancária tivesse dado um salto. Sou romântico. Ou bobalhão. O problema é que em alguns parlamentos se pode vender tudo, até a consciência dos parlamentares, menos livros. Fico perplexo. Juro. Tomei uma decisão radical: não vou mais a lugares onde seja proibido vender livros. Recusarei todos os convite para falar onde não seja permitido vender livros. Passa a ser uma questão de princípios. Só irei a lugares onde seja obrigatório vender livros. Está dito.

Não país em que se lê pouco, proibir venda de livro depois de palestra é uma das coisas mais bizarras que já vi. Cada parlamento deveria ter obrigatoriamente uma livraria. Claro que se pode imaginar como seria a licitação para ocupar esse espaço. Notei que a minha literatura não é muito apreciada por políticos. Nas minhas sessões de autógrafos, quase sempre tenho a honra de autografar para o governador e o prefeito. O executivo gosta de mim. Já os parlamentares, salvo alguns fiéis, não costumam perder tempo comigo. Devem ser os mesmos que sustentam resoluções proibindo a venda de livros nas “casas do povo”.

Imagino que essa proibição seja para mostrar que não se fazem negócios em nossos parlamentos.

Estou brincando. Receberei, como sempre, mensagens de leitores com peninha de mim. Assim como deliciosos recados de gente aproveitando para me desancar. Fico feliz. Nada como poder servir gentilmente de alvo. As pessoas têm muita necessidade de alguém que lhes sirva de vidraça. Todo lacerdinha, por exemplo, é um black block desesperado por uma vitrine para quebrar.

Eu sou a vidraça da direita Miami gaudéria.

Cumpro a minha obrigação a cada dia. Dou motivos para ser apedrejado. Tem lacerdinha que compra livro meu só para me odiar. Isso me aquece o coração e me encoraja para escrever novos livros. Um escritor precisa de motivação extra.

Vender livros, a qualquer preço, é uma cruzada contra o obscurantismo.

Sou um cruzado. Vendo a cruzeiro, cruzado e real. Vendo ficção. Nada do que é irreal me é estranho. Salvo a proibição de vender livros em assembleias legislativas. Voto contra. Livremente. A vida é um grande jogo. Só precisa entender as suas regras.




Efeito sépia

Postado por Juremir em 8 de abril de 2014 - Uncategorized

– Não tem nem comparação.

– Mesmo?

– Claro que não. Antes era melhor.

– Por quê?

– As crianças eram mais educadas, respeitavam os pais e os professores, havia mais civilidade, a programação das rádios era melhor, os locutores tinham belas vozes, os cantores sabiam cantar, não se consumia tanta droga, não tinha sertanejo universitário nem funk, a vida era mais segura, todo mundo tinha trabalho, tudo andava na ordem.

– Por que então os professores castigavam os alunos?

– Isso é exagero.

– Por que os pais batiam nos filhos?

– Umas palmadinhas de nada.

– Por que tivemos duas guerras mundiais?

– Não mistura as coisas.

– Por que metade da população brasileira era analfabeta, miserável, desamparada, desdentada e jogada às traças?

– Papo de comunista.

– Por que o país foi arrastado para a ditadura?

– Por causa dos que queriam tumultuar.

– Ou por causa dos que queriam melhorar o país?

– Antes era muito melhor, estou dizendo. Quem viveu, sabe. Todo mundo se respeitava. Homem não virava mulher, que não virava homem. Cada um ficava no seu lugar.

– Era melhor por ter mais preconceito?

– Não me vem com essa droga do politicamente correto.

– Melhor é poder ofender os outros.

– Bah! Tudo era melhor. A começar pela música.

– A culpa é da Bossa Nova.

– E do rock.

– Do rock também?

– O rock acabou com a estrutura familiar. A Bossa Nova abriu caminho para o resto. Todo mundo virou artista.

– Que coisa!

– Antigamente tinha mais harmonia e menos violência.

– E o holocausto?

– Havia mais entendimento entre as pessoas.

– Os maridos batiam nas mulheres à vontade.

– Havia mais justiça.

– Mais justiça? Os homens traíam livremente. Quando eram traídos, matavam as infiéis sem dó nem piedade. Eram absolvidos por terem defendido a honra. Uma glória.

– Não tinha a chinelagem de hoje?

– A pornochanchada que o diga.

– A família era sagrada.

– Filhos, mulher, maridos, suas amantes e seus bordéis.

– A sociedade estava bem organizada.

– Baseada no racismo, no machismo e na exclusão social.

– Conversa de comunista.

 




Reflexões sobre o jornalismo

Postado por Juremir em 7 de abril de 2014 - Uncategorized

Jornalismo não é só ” eu estive lá, eu vi”, mas principalmente dar voz ao que os protagonistas, que ” estiveram lá”, viram e comentam por trás da cena. Jornalismo é muito menos depoimento de jornalista presente e muito mais reconstituição pelas bordas.

Jornalismo não é senador tuitando sobre seu discurso, mas o amigo do senador, em off, sem se identificar, dizendo o que achou do discurso do amigo, aquilo que ele não diria na tribuna nem diante dos microfones.

Jornalismo não é o discurso do presidente sobre suas realizações, mas as declarações dos ministros insatisfeitos sobre essas realizações, que, em público, louvam, admiram e elogiam.

Jornalismo é fazer vir à luz a zona de sombra.

Jornalismo não é  só depoimento direto de jornalista. Mas reconstituição.

O resto é aut9louvação, oficialismo e paixão.




Machismo, racismo e homofobia

Postado por Juremir em 5 de abril de 2014 - Uncategorized

Tinha razão Roger Bastide: o Brasil é uma terra de contrastes. Resta saber se as demais não o são também. O sociólogo francês quis dizer, obviamente, que entre nós os contrastes eram mais acentuados. Continuamos assim. Somos a terra do biquíni fio-dental, mas não toleramos o topless. As europeias mostram os seios com facilidade, embora fiquem vermelhas só de olhar os biquínis das brasileiras. Somos a terra dos bumbuns de fora e da nudez total no carnaval, mas, pela tal pesquisa que correu mundo, achamos, como lamentáveis machistas, que mulheres usando roupas curtas merecem ser atacadas e violentadas. Não eram 65%, mas só 26% que pensam isso. Ainda é muito.

Somos uma terra de mestiçagem, mas continuamos a praticar um racismo que vai do velado ao explícito. Somos o país do futebol. Não deixamos, porém, de menosprezar negros que nos dão brilho nesse esporte. Somos uma terra de tolerância, embora estejamos cada vez mais intolerantes com certas diferenças. A homofobia viceja em atitudes, piadas, comportamentos e imaginários. Somos, como imaginou Stefan Zweig, o país do futuro, mas continuamos enterrados no passado de alguns preconceitos: racismo, machismo, homofobia, sexismo e até especismo.

Há lugares no Brasil, como o Rio de Janeiro, em que todos estão misturados e separados ao mesmo tempo. Juntos como água e azeite: a madame e sua empregada uniformizada um passo atrás. Todos na mesma praia. Cada classe na sua raia. Nossos contrastes acomodam-se. Nossos liberais combatem o Estado com financiamentos do BNDES. Nossos esquerdistas enfrentam o capitalismo com financiamentos de campanha de empresas privadas. Nossos moralistas pagam por sexo virtual. Nossos humoristas lutam pelo direito total ao bullying, à ofensa e ao politicamente incorreto.

Nossos militares gabam-se de ter salvado a democracia com uma ditadura. Nossa elite branca e rica reclama de estar perdendo vagas nas universidades públicas gratuitas para negros pobre impostos por cotas raciais racistas e antimeritocráticas. Nossos homofóbicos garantem que está quase impossível ser heterossexual entre nós. Nossos racistas sustentam que nada têm contra negros ou que deveriam se sentir discriminados quando um deles é chamado de branquelo, alemão, gringo ou ruivo.

Somos abertos aos novos tempos, mas mulher de roupa curta e sensual é vadia, vagabunda, cachorra, cadela, puta e sem-vergonha. Somos a terra de todos os ritmos musicais, mas nossas pessoas de “bom gosto” rotulam o funk de chinelagem suburbana. Somos o país da criatividade, embora o sertanejo universitário escreva letras primárias. Somos o país da impunidade ainda que as cadeias estejam superlotadas de ladrões de galinha e vazias de praticantes de crimes de colarinho branco. Somos o país em que o STF julga conforme o cliente.

Somos um país hipócrita. Adoramos roupas curtas na irmã e na mulher dos outros. Demitimos as gostosonas que se excedem no vestuário. Depois, compramos, para examinar melhor o “material”, a Playboy em que elas aparecem. Pregamos moral de cuecas. Só que são cuecas de marca. Cuecas marcadas por homofobia, racismo e machismo.

 




Por que dar aumento antes da licitação?

Postado por Juremir em 4 de abril de 2014 - Uncategorized

Confesso que sou lento para decifrar os mistérios da coisa pública.

Acho que licitação existe para produzir serviços melhores por preços menores.

A licitação do transporte público de Porto Alegre, imposta pela justiça por pressão das ruas, a partir da movimentação especular e eficaz do Bloco de Lutas, quase produziu, pela originalidade dos burocratas, preços maiores com serviços piores. Pensava-se em ônibus sem ar condicionado para diminuir as despesas dos empresários.

A gritaria impediu essa esquisitice.

Aí, um dia depois de divulgado o edital da licitação, sai o aumento das passagens.

Como? Por quê?

Que pressa é essa?

Sou contra vandalismo.

E totalmente a favor de povo na rua.

O Ministério Público precisa entrar em campo.

A justiça deve arbitrar: aumento da passagem só depois da licitação.

Assim como está é colocar  os ônibus na frente dos burros.

Não importa o tamanho do aumento.

Importa que não é a hora.

O preço da passagem deve ser consequência da licitação.

Quero descer.

 




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