Porto Alegre, 03 de Julho de 2015

O pior gênero musical de todos os tempos

Postado por Juremir em 3 de julho de 2015 - Uncategorized

Liberdade de expressão é assim: quem gosta elogia. Quem não gosta, critica.

Vejamos alguns exemplos.

Dilma Rousseff está cada vez mais perdida. Vai da mandioca aos inconfidentes sem chegar à raiz das coisas: seu governo se atolou até o talo e não sabe como respirar. Está entubado. Marieta Severo se achou. Enquadrou Faustão: o Brasil não é o país da desesperança. O crime não é a única organização que dá certo por aqui. A atriz fez questão de fundamentar: não está defendendo o governo. Não é tola nem otimista ingênua. Só não quer fazer o jogo dos interessados no quanto pior, melhor. O Brasil patina. Vive o seu pior momento futebolístico e musical. O sertanejo universitário é o estágio fundamental do imaginário nacional: aquilo que a mente consegue perceber e admirar.

Toda morte, ainda mais de um jovem, deve ser lamentada. Eu nunca tinha ouvido falar de Cristiano Araújo. Deploro sinceramente que tenho morrido tão jovem. Em função da impressionante cobertura midiática da sua morte, tentei conhecer as suas músicas. Detestei. Reflexão feita, ele estava na média dos seus colegas Luan Santana, Gustavo Lima e das tantas duplas insuportáveis que povoam o cenário musical brasileiro. A mediocridade viceja no futebol e na música. Para cada Luan Santana tem um Roberto Firmino. Para cada Gustavo Lima tem um Douglas Costa. Estou sendo arrogante? Não é de duvidar. O que se pode fazer contra o gosto médio? Constatar. Na primeira vez em que o global Zeca Camargo falou algo que preste, avaliando a qualidade musical de Cristiano Araújo, foi detonado.

Zeca não estava desrespeitando o morto, mas analisando a produção musical dominante.

O Brasil anda estranho. Na lista dos mais vendidos aparecem livrinhos para colorir.

Onde fica a saída? Nada de pensar no aeroporto. Saída de aeroporto é para a direita Miami, que anda meio escaldada. Para alguns, como os magnatas do futebol, os Estados Unidos ficaram repentinamente perigosos. Melhor morar na Barra da Tijuca ou nos jardins paulistanos e se contentar com réplica da estátua da liberdade em tamanho natural. Monumento ao gosto dos novos ricos. Quatro marcas do Brasil atual: corrupção generalizada na parceria público-privada BNDES/Empreiteiras ou Petrobras/Empreiteiras, sertanejo universitário, livros de colorir para adultos e futebol que toma sete da Alemanha, três da Holanda e sai da Copa América eliminado pelo fraco Paraguai. Tem mais? Tem. A presidente confunde delação premiada com delação forçada sob tortura e mistura torturadores da ditadura com agentes da lei e da justiça na democracia. Marieta Severo está perdida? Não. A esperança continua.

– Não sou cega nem otimista tola – garante Marieta.

A mulher é de faca na bota. Dilma também era.

A vaca tossiu. A mandioca apodreceu. O delator abriu o bico. O bicho pegou. Brasil!

O sertanejo universitário é o pior gênero musical de todos os tempos no Brasil.

O estágio primário da cultura.

 

 

 




Quadrinha para Eduardo Cunha

Postado por Juremir em 3 de julho de 2015 - Uncategorized

Este poemeto tem a sofisticação típica da época da República das Empreiteiras.

O ativo Eduardo Cunha

não vive sem mumunha

Se não pega com os olhos

Alcança com a unha

*

Nunca se deve confundir quadrinha com quadrilha.

A quadrinha não pode ter menos de quatro.




A linda banana da Grécia aos parasitas

Postado por Juremir em 1 de julho de 2015 - Uncategorized

A Grécia levantou a cabeça e deu o calote.

Cansou de ser sugada pela troika.

A política de austeridade pregada pela Alemanha fracassou.

A direita mundial está indignada. Não pode admitir que o parasitado se rebele contra o parasita.

Dois prêmios Nobel de economia, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, não cansam de mostrar o caminho aos gregos.

A banana grega pode entrar para a história.

Depois da filosofia, a política.

Política da banana contra a especulação financeira.

Se a troika não gostou, que tome cicuta.




Cada país tem os atentados que cultiva?

Postado por Juremir em 30 de junho de 2015 - Uncategorized

O que leva um homem de 35 anos, pai de três filhos, a decapitar o seu patrão, considerado um cara bom e dedicado à sua comunidade, e a cometer um atentado que o deixará marcado para sempre? A resposta é clara: o fanatismo. O que leva um homem a tornar-se fanático? Yassin Salhi, o muçulmano radical que cortou a cabeça de Hervé Cornara e a pendurou nas grades da fábrica de gás industrial Air Products, em Isère, na França, foi, durante muito tempo, um sujeito comum. Depois, encontrou um guru, conhecido como Grande Ali, e começou a sua lenta deriva para o outro lado da cultura, a margem da intolerância e do ódio devastador. Chegou a ser fichado. Eu estava em Paris quando o atentado de Saint-Quentin-Fallavier aconteceu. Passei o dia acompanhando o noticiário e vendo as reações das pessoas nas ruas.

O verão torna os europeus incrivelmente descontraídos e simpáticos.

Desnudam os seus corpos e sorriem. Sob o calor de mais de 30 graus, Paris não mostrava grande preocupação com o ocorrido. Por toda parte, turistas comiam e bebiam ao ar livre como se de nada soubessem. Talvez fosse o caso. Fomos ao Palácio da Justiça ver o movimento dos policiais que se aquartelam no prédio adjacente. Acompanhamos a saída de um grupo de homens em deslocamento para o local do atentado, entre Grenoble e Lyon. Estavam muito sérios, mas, embora tensos, não exibiam sinais de uma pressão maior. Pareciam cumprir a rotina. Vez ou outra, porém, uma palavra escapava denunciando um autocontrole só da boca e dos olhos para fora.

–– Aconteceu.

–– Até que demorou.

–– Era uma questão de tempo.

A tensão estava concentrada na mídia e nas autoridades. O presidente François Hollande mandou acionar o alerta de terrorismo na região do atentado. O primeiro-ministro Manuel Valls tratou de deixar claro que todas as medidas de segurança estavam sendo tomadas. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, foi prontamente ao local do atentado. A presidente da Frente Nacional, de extrema-direita, Marine Le Pen, aproveitou para defender o fechamento das fronteiras e a expulsão da França de todos os muçulmanos radicalizados com passagens na polícia ou fichados pelos serviços de segurança. O sociólogo Dominique Wolton fez questão de lembrar que não se pode confundir a ação de um fanático muçulmano com o islamismo inteiro. Toda a engrenagem passou a girar.

A máquina do medo começou a funcionar.

Voltei para o Brasil. Ao descer em São Paulo, parei diante de um aparelho de televisão. “Bombas” por todos os lados. Encontrei um exemplar da Folha de S. Paulo. “Explosões” em série. Corrupção. Um escândalo sucedendo o outro. Como em Paris, certamente pela distância do atentado, todo mundo seguindo em frente. Cada país tem os seus crimes hediondos? Cada país tem a sua indignação e os seus indiferentes? Certamente.

O que faz um homem comum virar terrorista e fanático?

O que faz um político mergulhar na corrupção? Uma causa? Todas as explicações não parecem ser suficientes.

É o Homo demens.

A loucura de uns tem o nome de ganância.

 




O virtual nunca existiu

Postado por Juremir em 29 de junho de 2015 - Uncategorized

Foi em 2006. Eu estava em Paris para uma reunião do conselho editorial da revista Hermès, do qual faço parte. A publicação, uma das mais importantes da Europa em Ciências Sociais, é dirigida por Dominique Wolton e editada pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica, o prestigioso CNRS da França. Duas vezes por ano, o Conselho, que conta com quase 50 pesquisadores do mundo inteiro, reúne-se. A outra importante revista científica francesa da qual integro o conselho editorial é a Sociétés, criada por Michel Maffesoli e especializada em estudos do imaginário. Na época que me vem agora, aproveitei uma brecha para visitar meu amigo Jean Baudrillard, que morreria em 6 de março de 2007.

A doença já havia marcado Jean, que foi um dos homens mais inteligentes da sua geração.

Eram onzes horas da manhã. Ele me ofereceu um cálice de vinho branco.

– Não tenho mais tempo para esperar o final da tarde –– brincou.

Aceitei o vinho.

Baudrillard tinha bom gosto. Depois do brinde, apesar da melancolia que nos embaçava, ele começou a falar da falsa oposição entre real e virtual produzida pelas discussões em torno da internet.

Com a sua tradicional ironia sempre suave, profetizou:

– Dentro de dez anos, ninguém mais falará em virtual e real. Ainda se fala disso porque as pessoas continuam assustadas com a novidade, que já vai se fazendo velha e rançosa. Quando isso acontece, a tendência é negar o real. O virtual é o mordomo chamado a depor.

É tudo real. Tão real quanto a imagem da televisão. Tão real quanto a voz saindo do rádio. Tão real quanto a letra impressa no papel. Fiquei esperando que ele continuasse. Era maravilhoso ouvi-lo falar.

Ele saltava de um assunto para outro com certa volúpia:

– Na vida, meu amigo, tudo é questão de legitimação.

– De que está falando agora? –– arrisquei.

Ele bebeu mais um gole. Deu uma olhada pela janela. E disse:

– Do trabalho das ideias, do caminho que se tem de trilhar. Não basta ter uma boa ideia. É preciso lutar por ela. Quanto mais uma ideia contraria o senso comum, mais é combatida e menos legitimação ela encontra. Ter ideias muito boas e diferentes traz sofrimento. Baudrillard teve ideias originais. Escreveu grandes livros. Teve reconhecimento.

A legitimação, porém, não é permanente. Li um texto de um jornal inglês afirmando que não há mais pensamento original na França. Paris já não produziria ideias renovadoras.

– As ideias fazem greve – me dissera Baudrillard.

Foi nossa última conversa pessoal. Ainda falamos por telefone em fevereiro de 2007. Quando publiquei meu livro História Regional da Infâmia, o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras, pensei nele. O combate seria duro e permanente. Os inimigos, ensinavam Jean, usam três estratégias alternadas: ataque, indiferença e deslegitimação pela biografia. Entre tantas grandes frases, Jean nos legou esta: “Esperamos que a inteligência artificial nos salve da nossa estupidez natural”.

Ou esta: “O pior num ser humano é mesmo saber demais e ser inferior ao que sabe”. Na mosca.

 




Manchetes francesas e brasileiras

Postado por Juremir em 27 de junho de 2015 - Uncategorized

Passei uma semana na França.

Lia os jornais, ouvia rádio e via televisão.

Só se falava em crise econômica, austeridade, intolerância religiosa e fanatismo.

Aconteceu o atentado na usina de gás, em Isère.

Um muçulmano radicalizado, Yassim Salhi, pai de três filhos, motorista de um caminhão de entregas, decapitou o chefe e fixou a cabeça do morto, cercada por duas bandeiras pretas com inscrições em árabe, na grade da empresa que atacou.

Jogou o carro contra cilindros de gás.

O decapitado, Hervé, segundo os relatos, era gente boa.

Nas ruas de Paris, sob o sol de verão, tudo continuou igual: turismo, passeios e multidões.

Nos olhos dos policiais, porém, tensão.

Voltei para o Brasil.

Abri os jornais.

Só corrupção.

Cada país tem as manchetes que merece?




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