Porto Alegre, 29 de Julho de 2014

Visibilidade no sexo e na política

Postado por Juremir em 29 de julho de 2014 - Uncategorized

Estudo indica que, para mulheres, homens tornam-se sexualmente invisíveis a partir dos 39 anos.

Salvo exceções determinadas pelo capital simbólico: beleza, poder, prestígio e dinheiro.

Políticos, ao contrário, começam a tornar-se visíveis a partir dos 40.

Só perdem a visibilidade depois dos 80.

Haverá uma relação entre invisibilidade sexual e visibilidade política?

Eis uma hipótese para investigação.




Um pouco de pedantismo: um caso de forclusion

Postado por Juremir em 28 de julho de 2014 - Uncategorized

Um blog deve ter seus momentos conceituais.

E deve ter seus momentos de pedantismo.

Por exemplo, fazer um deslizamento do conceito de forclusion.

Fala-se, em francês, de forclusion em direito e em psiquiatria e psicanálise.

A forclusion, em direito, é uma impossibilidade de recurso por decurso de prazo. Uma prescrição.

Em psicanálise, uma defesa contra as psicoses.

Pode-se falar de forclusion num sentido amplo, antropológico e político.

As causas de certos conflitos sofrem forclusion e não podem mais ser discutidas.

A sombra terrível da maior infâmia do século XX, a exterminação dos judeus pelos nazistas, faz forclusion sobre as causas do conflito entre israelenses e palestinos do Hamas. Toda volta à origem do problema pode ser rotulada de antissemitismo.

Ou de antissionismo. Mas o antissionismo pode ser visto como uma forma de antissemitismo.

A causa em forclusion é: como convencer pessoas instaladas num lugar, habitado por seus antepassados durante séculos, a sair para dar espaço a outras pessoas legitimadas por razões milenares? Qual direito prevalece?Palestinos podem dizer que deveria haver forlclusion no sentido jurídico. Prescrição em relação ao suposto direito original dos judeus sobre o território.

Há forclusion sobre a forma como os habitantes do lugar foram tirados de onde estavam a partir de 1947.

Falar disso é suspeito. Torna suspeito quem fala,

A comunidade internacional que abriu espaço para a criação de Israel, premida pela culpa do holocausto, precisa se mobilizar definitivamente pelo Estado palestino. Deve ser a garantia da existência de dois Estados na região. O Estado palestino não pode ser uma concessão de Israel. O Hamas não pode impedir os israelenses de viver em paz. Só a comunidade internacional pode ser o fiel da balança. Não adianta pensar que os palestinos, como árabes, poderiam morar em outros países. O mesmo valeria para os judeus nascidos em tantos países do mundo e que se tornaram israelenses. Só o fim da forclusion abrirá caminho à solução.

Sejamos pedantes.

E complexos.

A forclusion pode recorrer à ideia de autoridade.

Quem é autoridade para dizer quem é autoridade?

A autoridade é um processo argumentativo.

O argumento da autoridade é sempre um argumento de autoridade.

Um argumento de forclusion.




Esculpido no ar de Cabral

Postado por Juremir em 25 de julho de 2014 - Uncategorized

Uma criança sozinha não embala a estação

É preciso um exército para mudar o tempo

E outro para acertar os relógios do vento.

 

Uma andorinha sozinha não cala o inverno

É preciso um bando para assustar as nuvens

E outros pássaros para ensaiar gorjeios.

 

Uma tropa evade-se e por todos os meios

Desenha elefantes azuis em telas de algodão

Que desabam sobre as casas quando chove

Lavando telhados por onde a morte se move.

 

Um trovador solitário não fala do verão

É preciso uma primavera para acender o sol

E um outono para queimar as folhas no atol

Feito de corais, musgos e invernos.

 

A infância inteira não demove o ancião

Que se esconde dentro do pássaro e do homem

É preciso ser menino para entender o girassol,

O voo da pandorga, a eternidade e os filhotes

Que latem para o trem e roubam sapatos

Como moleques nadando nos claros regatos

Que desaguam em rios tingidos de têmpera.

 

Se um galo sozinho não tece a manhã,

Um velho sozinho não escreve um poema.

É preciso uma nuvem de estorninhos

Para que as palavras saiam dos ninhos

E a certeza da tarde para cantar seguro

Antes que a noite silencie o intervalo

Entre a luz, as cores e a maciez do escuro.

 

Na solidão luminosa do alvorecer um galo

Nunca é mais do que um melancólico valo

Na crista da onda que bate em grãos de areia.

 

Areia de que são esculpidos homens,

praias, sonhos, vales e galos.

 

Até que sejam varridos como pó.

 


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Índios, agricultores, palestinos e judeus

Postado por Juremir em 24 de julho de 2014 - Uncategorized

Encontro um amigo.

Ele está exaltado.

Já avisa: “Não bota meu nome”.

Simplifico: em quê?

Ele acerta: “No que vais escrever”.

Resumo da sua fúria: os ataques do Hamas a Israel. Digo que o mundo é complicado. Tento voltar às causas do conflito. Meu amigo muda de assunto. Fica ainda mais exaltado. É contra a demarcação de terras para índios. Pressinto uma contradição: a pessoa que defende o direito milenar de Israel a terras nas quais viviam árabes, que hoje se veem como palestinos, não deveria ser também a favor do direito dos índios a terras que eram deles antes de os portugueses chegarem? Não é o mesmo princípio, o da origem, da precedência, da história? Por extensão, os defensores dos palestinos não deveriam ficar do lado dos pequenos agricultores que ocupam há muito tempo terras indígenas?

Meu amigo quase explode. Considera a comparação absurda. Meto o dedo na ferida. Digo: pessoas que nunca viveram no atual território de Israel, nem seus pais, nem seus avós, nem seus bisavós, mas, quem sabe, seus antepassados remotos, há dois mil, entendem que têm direito a viver nesse lugar, ampliando pela Lei do Retorno essa possibilidade aos seus filhos e netos nascidos em qualquer lugar. Já os que dali foram obrigados a sair em 1947 para dar lugar ao Estado de Israel não podem voltar. Pode isso? Faz sentido? Tem lógica? Meu amigo parece que vai ter um ataque cardíaco. Por que um brasileiro filho de judeus pode se instalar em Jerusalém e um “refugiado” palestino não pode voltar para o lugar onde vivia há menos de 80 anos? Meu amigo começa a gritar. Lembro-lhe que o historiador israelense Shlomo Sand assegura que grande parte dos judeus espalhados pelo mundo não descende de qualquer pessoa que tenha vivido algum dia na “Terra Prometida”, mas de um povo turcomeno, os cázaros, convertido ao judaísmo. A unidade genômica judaica é um ponto altamente controvertido entre especialistas.

Meu amigo bufa.

Digo-lhe que isso nada tem ver com antissemitismo nem com ser contra a existência de Israel. O problema, com origem teológica e mitológica num passado vagamente histórico, tem suas principais dificuldades em questões recentes, o desalojamento de uns, cujas gerações se sucederam no lugar nos últimos séculos, para a instalação de outros por razões milenares. É certo que há quem se aproveite da situação para destilar ódio aos judeus e quem se aproveite para odiar os palestinos. Há quem diga que judeus não existem, salvo como religião, e quem diga que palestinos não existem. A chantagem predomina. A sombra terrível do holocausto não pode impedir críticas a atitudes do governo atual de Israel. Meu amigo dá pinotes. Exala certezas. Judeus são pessoas como todas as outras. Não podem nem devem ser odiados ou amados como totalidade. O mesmo vale para gaúchos, brasileiros, franceses, alemães. A totalidade não existe.

Tenho outro amigo, um carioca, que fala assim:

– O carioca não gosta de sinal fechado.

Ninguém gosta. Mas “o” carioca não existe. Existem cariocas. Uns são simpáticos, outros são antipáticos. Há bacanas e chatos. Pode existir uma cultura, traços compartilhados, estilos, o espírito de uma época, de um lugar, etc. Mas isso sempre tem limites. O principal limite é a singularidade, que jamais desaparece na totalidade.

Tento acalmar meu amigo. Quero a paz. Defendo um Estado binacional no Oriente Médio ou dois Estados bem constituídos. Meu amigo começa a rir. Ataca os demarcadores de terra para índios. Pessoas ouvem a nossa conversa. Aproxima-se um homem. Apresenta-se. Diz-se palestino. Está horrorizado com o massacre de Israel na Faixa de Gaza. Puxo o assunto da comparação com as terras indígenas. Ele é totalmente a favor da demarcação das reservas. Considera ilegítima a posse dos pequenos ou grandes agricultores brancos. Pergunto se não há contradição no seu raciocínio. Responde assim: “É diferente”.

Meu amigo bate em retirada. Quer se salvar de um infarto.

Volto para casa com muita coisa para pensar.

É preciso evitar generalizações impertinentes. Existem judeus a favor dos índios brasileiros e palestinos a favor dos agricultores que vivem nas terras indígenas. E agricultores instalados em terra de índios favoráveis a Israel.

E quem não tenha o menor interesse por essa questão.

A vida não cabe na lógica. É feita de mitos, imaginários e racionalizações. Muitos buscam na ciência a coerência que tudo resolveria. Por exemplo, a prova do DNA de que todos os judeus teriam a mesma origem. Especialistas, como sempre, dividem-se quanto a isso. A divisão pode seguir um critério: sionistas e seus adversários. Mas nem sempre. Sand e Noam Chomsky são judeus. Conhecem de cor a questão. Mas não acreditam nessa origem comum nem nessa prova científica. Uma boa leitura de críticas de um judeu ao comportamento de Israel em relação aos palestinos são os textos de Chomsky e Edgar Morin. O judeu Morin, que participou da resistência francesa ao nazismo, foi processado há pouco tempo por criticar Israel.

Arthur Sofiatti escreveu: “Em 4 de junho de 2002, o judeu Edgar Nahoun publicou no periódico francês Le Monde, juntamente com Danielle Sallenave e Sami Naïr, um artigo intitulado “Israel-Palestina: o câncer”. O advogado Gilles-William Goldnadel, em nome da associação “Advogados Sem Fronteiras”, processou os autores por apologia ao terrorismo. Seu pedido foi considerado improcedente, e ele recorreu em segunda instância com outra acusação: a de difamação racial. A sentença deu ganho de causa aos três, argumentando que palavras retiradas do contexto ganhavam um outro sentido”.

Edgar Nahoum é meu amigo e mestre Edgar Morin.

Shlomo Sand contestou a alegação de que seu livro foi refutado por uma pesquisa recente publicada na revista Nature. Em um novo posfácio para a edição americana do bolso de “A invenção do povo judeu”, Sand escreveu: “Esta tentativa de justificar o sionismo pela genética não é diferente dos procedimentos do final do século XIX, quando antropólogos, muito cientificamente, buscavam localizar as especificidades dos europeus. Até hoje, nenhum estudo baseado em amostras de DNA anônimo conseguiu identificar um marcador genético específico para os judeus, e é improvável que uma pesquisa consiga isso algum dia. É uma amarga ironia ver os descendentes de sobreviventes do Holocausto procurarem uma identidade biológica judia. Hitler certamente ficaria muito feliz com isso! E é ainda mais repugnante que esse tipo de pesquisa seja realizada em um Estado que durante anos conduziu uma política declarada de “judeização “, no qual, ainda hoje, não é permitido a um judeu casar-se com um não-judeu”. O conflito vai continuar. O buraco é muito mais embaixo.

– FDP! – ouço o grito do meu amigo.

Considero esse tipo de argumento inválido na esfera pública.

Passível de exclusão definitiva.

 




Placar das eleições

Postado por Juremir em 23 de julho de 2014 - Uncategorized

– Está dando 7 a 1.

– Como?

– 7 para a inflação, 1 para o crescimento econômico.

– Não, não. É 20 a 5.

– Contra outra!

– 20 para a criação de empregos pelo PT, 5 para a criação de empregos por FHC.

Placar final: 10 a 0 para os marqueteiros.




A interminável guerra entre palestinos e israelenses

Postado por Juremir em 22 de julho de 2014 - Uncategorized

O massacre atual de palestinos por israelenses me leva a republicar dois textos sobre a origem do conflito e uma entrevista com o historiador judeu Shlomo Sand. Nunca é demais voltar às raízes dos mitos e das verdades em guerra.

Por que a comunidade internacional não interfere?

Por que os palestinos ainda não têm o seu país?

Por que um descendente longínquo de um judeu de dois mil atrás pode ir morar em Israel e aqueles que foram expulsos dos territórios palestinos em 1947 não podem voltar para lá?

Dívidas do passado

Essa história poderia ser contada assim. Era uma vez dois povos errantes, hebreus e filisteus, que chegaram mais ou menos na mesma época ao mesmo lugar. Entraram em guerra. Os hebreus venceram. Ao longo do tempo, no entanto, foram invadidos, dominados, deportados e dispersados. É muito provável que os filisteus fossem de Creta, sendo um dos chamados “povos do mar”. Viveram em Gaza. Desapareceram depois do cativeiro na Babilônia.

Entre 1517 e 1917 os turcos otomanos mandaram no pedaço e havia poucos judeus por lá.

A comissão King-Crane, designada pelos Estados Unidos em 1919 para tratar da questão do Oriente, constata que “a população não-judia da Palestina constitui noventa por cento da população”.

Desde o final do século XIX, porém, com o surgimento do movimento sionista, cresce a imigração judaica pela região à base de compra de terras. Em 1947, o plano de partilha do território entre judeus e palestinos previa 50% para cada lado, embora os judeus fossem 1/3 da população e detivessem apenas 6% das terras, cabendo-lhes praticamente toda a faixa litorânea. Os judeus sustentavam ser aquela a “terra prometida” para eles. Direito religioso. Os palestinos eram vistos só como árabes, tendo muitos outros territórios árabes para viver. Acontece, porém, que eles não pensavam assim.

A conquista da terra pelos israelenses se deu pela compra, pela ocupação e pela expropriação.

Em 1967, Israel passou por cima da Convenção de Genebra e implantou colonos em terras que não lhe pertenciam. Ainda permanece como ocupante em Golã, Jerusalém Oriental e parte da Cisjordânia. Vencida a fase de instalação, palavras terríveis como as de Vladimir Jabotinsky, um dos construtores da nação judaica, foram esquecidas: “Todo povo indígena (e pouco importa que seja civilizado ou selvagem) considera seu país seu lar nacional, do qual ele será sempre e totalmente dono. Jamais tolerará voluntariamente não só um novo dono, mas até mesmo um novo parceiro. Isso é o que ocorre com os árabes (…) A colonização sionista, mesmo a mais restrita, ou deve cessar, ou deve ser conduzida contra a vontade da população indígena (…) Tudo isto não significa que seja impossível um acordo. O acordo voluntário é que é impossível. Enquanto eles tiverem um vislumbre de esperança de poder livrar-se de nós, não venderão este vislumbre por quaisquer palavras doces ou algumas guloseimas, porque não são usurários, mas uma nação, um pouco andrajosa, mas ainda viva”. Não parece hoje?

Ao contrário do mito – um povo sem terra para uma terra sem povo – o pedaço tinha dono, embora os palestinos não se vissem como nação, no máximo uma Síria do Sul, nem vissem os judeus como etnia ou povo, mas como praticantes, feito eles, de uma religião. Para uma visão, limitada certamente pelo origem do autor, com muitos dados e citações desconcertantes, não custa ler “Por uma história profana da Palestina”, de Lotfallah Soliman. Ou, de outro horizonte, ler “Como foi inventado o povo judeu”, do professor da Universidade de Tel-Aviv Shlomo Sand, que, em artigo no jornal Le Monde, comparou Israel a Golias, e os palestinos a Davi, numa inversão do mito. Segundo ele, na medida em que a lei do retorno permite a qualquer judeu viver em Israel, será impossível convencer os refugiados palestinos de 1947 a não desejar o mesmo. Quem é compensado pelo horror supremo com o terror banal acaba sendo combatido pelo terrorismo.

*

Marcas do passado

O conflito entre palestinos e israelenses vai continuar. Não tem fim. As marcas do passado recente são fortes demais para apagar o passado distante. Leiam os textos que seguem e tentem adivinhar o nome do autor: “Não lancemos hoje nenhuma acusação contra os assassinos. Quem somos nós para discutir seu ódio? Faz oito anos que eles nos veem, desde seus campos de refugiados de Gaza, fazer do solo onde viveram seus pais nosso solo e nossa moradia. Somos uma geração de colonos. Sem o capacete e o canhão, não podemos plantar uma única árvore nem construir uma casa sequer. Mas não devemos recuar quando vemos fermentar o ódio que enche a vida de centenas de milhares de árabes que nos observam à nossa volta. Não desviemos por um instante sequer os olhos de nossa tarefa para que ela não nos escape das mãos”. De quem é?

Outro texto: “Grandes sofrimentos foram infligidos aos homens que tomaram parte na operação de evacuação. Entre os soldados da Brigada Yiftach, alguns tinham pertencido aos movimentos de juventude, onde lhes foram inculcados valores de humanidade e de fraternidade internacional. A operação contradizia os conceitos aos quais estavam habituados. Depois da operação, teve-se que recorrer a intensas atividades de propaganda para reduzir a amargura deles e explicar-lhes por que tivéramos a obrigação de recorrer a uma ação tão brutal e cruel?” Os judeus levaram séculos para se reinstalar na terra dos seus antepassados. Como imaginar que os refugiados palestinos esqueceriam a terra deles em menos de 70 anos?

Último texto: “Só nos restavam cinco dias antes da data fatídica de 15 de maio. Era urgente limpar a Galileia central e criar uma unidade territorial em toda a Alta-Galileia (…) Recorremos a uma tática que se baseava na impressão deixada pela queda de Safed e pela derrota na região que fora limpa pela Operação Metaheh. Esta tática revelou-se milagrosamente eficiente. Reuni todos os mukhtar judeus que estavam em contato com os árabes e pedi-lhes que fizessem certos árabes ficar sabendo que reforços judeus haviam chegado à Galileia e quem iam queimar todas as aldeias da Huleh. Eles deviam sugerir àqueles árabes, enquanto amigos, que fugissem enquanto ainda era tempo. Assim é que, em toda a Huleh, espalhou-se o boato de que era tempo de fugir. Houve milhares de fugitivos”. Em Deir-Yassin, o método foi outro: toda uma aldeia massacrada pelo organismo sionista Irgun. No total, 369 vilarejos foram esvaziados. Segundo Golda Meir, em 1969, os “palestinos não existiam”. O primeiro-ministro Levi Eshkol pensava o mesmo: “Quem são os palestinos?” Ele só vira na região árabes e beduínos.

O primeiro texto é de Moshe Dayan, herói israelense, em discurso pronunciado, em 1956, no enterro de uma vítima dos árabes. O segundo faz parte da página secreta eliminada das memórias de Yitzhak Rabin, descoberta e publicada pelo New York Times, a respeito da origem dos refugiados palestinos. O terceiro é de Yigal Allon, um dos pilares do sionismo na época da criação do estado de Israel. O nascimento de uma nação pode exigir ferro e fogo. As marcas ficam. Talvez por isso Yosef Weitz tenha escrito em 1940: “Não há outro meio senão transferir os árabes daqui para os países vizinhos, e transferir todos. Nenhuma aldeia, nenhuma tribo deve ficar. Unicamente após a transferência é que nosso país poderá absorver os milhões de irmãos nossos”. Leva tempo para esquecer.

*

Entrevista com Shlomo Sand

Adoro voltar a ser repórter de cultura. Mandei um e-mail para o historiador Shlomo Sand. Ele me enviou seus telefones. Liguei para ele em Israel. Conversamos durante quase uma hora. Pagarei uma fortuna. Resumo do papo:

JMS – O senhor lutou na Guerra dos Seis Dias?

Sand – Claro. Fui soldado. Infelizmente ajudei a conquistar Jerusalém para Israel. Saí sem ferimentos.

JMS – O senhor nasceu num campo de refugiados, não de concentração, obviamente, na Áustria ou na Alemanha?

Sand – Na Áustria, onde só ficamos três semanas. Passamos imediatamente para um campo de refugiados na Alemanha.

JMS – Mantêm suas ideias de que judeus atuais askenazes descendem dos khazares, um reino convertido ao judaísmo?

Sand – Claro que mantenho. É uma evidência. Só os ignorantes e os sionistas rejeitam isso. Em todos os sentidos, inclusive demográficos, os judeus do leste europeu não poderiam ter saído de onde se diz. A origem mítica judia é uma construção sionista do século XIX.

JMS – As críticas não o abalaram?

Sand – Tive mais elogios do que críticas. Grandes historiadores como Tony Judt, Marcel Détienne e Eric Hobsbawm me elogiaram. Edgar Morin me apoiou. Noam Chomsky gostou. Eles são muito mais importantes do que os sionistas que me atacaram. Críticas sionistas são comprometidas. Ganhei o Prix Aujourd’hui 2009, o mais importante atribuído pelos jornalistas franceses. Meu livro será traduzido em 21 línguas. Só os sionistas fanáticos é que o recusam. Só não conseguem refutá-lo.

JMS – Alguns dos seus críticos afirmam que as suas ideias servem aos antissemitas? Isso chega a incomodá-lo?

Sand – Dizer que isso é uma asneira é pouco. Não passa de uma chantagem primária. Não sou antissemista. Sou de origem judaica. Mas ser judeu não é pertencer a uma raça. Isso não existe. Quem pensa assim é racista. Um judeu brasileiro é antes de tudo um brasileiro de religião judaica. Quase nada há em comum entre um judeu polonês e um judeu brasileiro. Não existe uma cultura laica judia.

JMS – O fato de ser um especialista em história europeia deslegitima o seu trabalho sobre a história judaica?

Sand – Outra bobagem. Trabalho na Universidade de Tel Aviv, onde tem um departamento de história judaica e outro de história geral, que não se comunicam. Por eu ser especialista em história geral não poderia falar da história judaica? Só aos sionistas interessa essa ideia.

JMS – Para o senhor, como mostra em “A invenção do povo judeu”, o judaísmo é uma religião, não uma nação ou um povo. Significa que Israel não tem direito histórico ao seu território ou que deve dividi-lo com os palestinos?

Sand – Israel não tinha mais direito histórico algum sobre o atual território. Isso é loucura. Dois mil anos depois, com gente nascida por toda parte e de origens diferentes, que é direito é esse? Estou escrevendo uma continuação de meu livro, “O mito da terra de Israel”. Por que um brasileiro de remota origem judaica tem direito a ir morar em Israel e um palestino nascido em Jerusalém não pode voltar para a sua terra natal? Israel deve existir por ser um fato consumado. Recuar seria uma tragédia. Devemos formar uma confederação de dois estados nacionais para resolver o problema e ir em frente. Viveremos em paz quando formos israelenses, não judeus.

 

 

 




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