Porto Alegre, 22 de Julho de 2014

A interminável guerra entre palestinos e israelenses

Postado por Juremir em 22 de julho de 2014 - Uncategorized

O massacre atual de palestinos por israelenses me leva a republicar dois textos sobre a origem do conflito e uma entrevista com o historiador judeu Shlomo Sand. Nunca é demais voltar às raízes dos mitos e das verdades em guerra.

Por que a comunidade internacional não interfere?

Por que os palestinos ainda não têm o seu país?

Por que um descendente longínquo de um judeu de dois mil atrás pode ir morar em Israel e aqueles que foram expulsos dos territórios palestinos em 1947 não podem voltar para lá?

Dívidas do passado

Essa história poderia ser contada assim. Era uma vez dois povos errantes, hebreus e filisteus, que chegaram mais ou menos na mesma época ao mesmo lugar. Entraram em guerra. Os hebreus venceram. Ao longo do tempo, no entanto, foram invadidos, dominados, deportados e dispersados. É muito provável que os filisteus fossem de Creta, sendo um dos chamados “povos do mar”. Viveram em Gaza. Desapareceram depois do cativeiro na Babilônia.

Entre 1517 e 1917 os turcos otomanos mandaram no pedaço e havia poucos judeus por lá.

A comissão King-Crane, designada pelos Estados Unidos em 1919 para tratar da questão do Oriente, constata que “a população não-judia da Palestina constitui noventa por cento da população”.

Desde o final do século XIX, porém, com o surgimento do movimento sionista, cresce a imigração judaica pela região à base de compra de terras. Em 1947, o plano de partilha do território entre judeus e palestinos previa 50% para cada lado, embora os judeus fossem 1/3 da população e detivessem apenas 6% das terras, cabendo-lhes praticamente toda a faixa litorânea. Os judeus sustentavam ser aquela a “terra prometida” para eles. Direito religioso. Os palestinos eram vistos só como árabes, tendo muitos outros territórios árabes para viver. Acontece, porém, que eles não pensavam assim.

A conquista da terra pelos israelenses se deu pela compra, pela ocupação e pela expropriação.

Em 1967, Israel passou por cima da Convenção de Genebra e implantou colonos em terras que não lhe pertenciam. Ainda permanece como ocupante em Golã, Jerusalém Oriental e parte da Cisjordânia. Vencida a fase de instalação, palavras terríveis como as de Vladimir Jabotinsky, um dos construtores da nação judaica, foram esquecidas: “Todo povo indígena (e pouco importa que seja civilizado ou selvagem) considera seu país seu lar nacional, do qual ele será sempre e totalmente dono. Jamais tolerará voluntariamente não só um novo dono, mas até mesmo um novo parceiro. Isso é o que ocorre com os árabes (…) A colonização sionista, mesmo a mais restrita, ou deve cessar, ou deve ser conduzida contra a vontade da população indígena (…) Tudo isto não significa que seja impossível um acordo. O acordo voluntário é que é impossível. Enquanto eles tiverem um vislumbre de esperança de poder livrar-se de nós, não venderão este vislumbre por quaisquer palavras doces ou algumas guloseimas, porque não são usurários, mas uma nação, um pouco andrajosa, mas ainda viva”. Não parece hoje?

Ao contrário do mito – um povo sem terra para uma terra sem povo – o pedaço tinha dono, embora os palestinos não se vissem como nação, no máximo uma Síria do Sul, nem vissem os judeus como etnia ou povo, mas como praticantes, feito eles, de uma religião. Para uma visão, limitada certamente pelo origem do autor, com muitos dados e citações desconcertantes, não custa ler “Por uma história profana da Palestina”, de Lotfallah Soliman. Ou, de outro horizonte, ler “Como foi inventado o povo judeu”, do professor da Universidade de Tel-Aviv Shlomo Sand, que, em artigo no jornal Le Monde, comparou Israel a Golias, e os palestinos a Davi, numa inversão do mito. Segundo ele, na medida em que a lei do retorno permite a qualquer judeu viver em Israel, será impossível convencer os refugiados palestinos de 1947 a não desejar o mesmo. Quem é compensado pelo horror supremo com o terror banal acaba sendo combatido pelo terrorismo.

*

Marcas do passado

O conflito entre palestinos e israelenses vai continuar. Não tem fim. As marcas do passado recente são fortes demais para apagar o passado distante. Leiam os textos que seguem e tentem adivinhar o nome do autor: “Não lancemos hoje nenhuma acusação contra os assassinos. Quem somos nós para discutir seu ódio? Faz oito anos que eles nos veem, desde seus campos de refugiados de Gaza, fazer do solo onde viveram seus pais nosso solo e nossa moradia. Somos uma geração de colonos. Sem o capacete e o canhão, não podemos plantar uma única árvore nem construir uma casa sequer. Mas não devemos recuar quando vemos fermentar o ódio que enche a vida de centenas de milhares de árabes que nos observam à nossa volta. Não desviemos por um instante sequer os olhos de nossa tarefa para que ela não nos escape das mãos”. De quem é?

Outro texto: “Grandes sofrimentos foram infligidos aos homens que tomaram parte na operação de evacuação. Entre os soldados da Brigada Yiftach, alguns tinham pertencido aos movimentos de juventude, onde lhes foram inculcados valores de humanidade e de fraternidade internacional. A operação contradizia os conceitos aos quais estavam habituados. Depois da operação, teve-se que recorrer a intensas atividades de propaganda para reduzir a amargura deles e explicar-lhes por que tivéramos a obrigação de recorrer a uma ação tão brutal e cruel?” Os judeus levaram séculos para se reinstalar na terra dos seus antepassados. Como imaginar que os refugiados palestinos esqueceriam a terra deles em menos de 70 anos?

Último texto: “Só nos restavam cinco dias antes da data fatídica de 15 de maio. Era urgente limpar a Galileia central e criar uma unidade territorial em toda a Alta-Galileia (…) Recorremos a uma tática que se baseava na impressão deixada pela queda de Safed e pela derrota na região que fora limpa pela Operação Metaheh. Esta tática revelou-se milagrosamente eficiente. Reuni todos os mukhtar judeus que estavam em contato com os árabes e pedi-lhes que fizessem certos árabes ficar sabendo que reforços judeus haviam chegado à Galileia e quem iam queimar todas as aldeias da Huleh. Eles deviam sugerir àqueles árabes, enquanto amigos, que fugissem enquanto ainda era tempo. Assim é que, em toda a Huleh, espalhou-se o boato de que era tempo de fugir. Houve milhares de fugitivos”. Em Deir-Yassin, o método foi outro: toda uma aldeia massacrada pelo organismo sionista Irgun. No total, 369 vilarejos foram esvaziados. Segundo Golda Meir, em 1969, os “palestinos não existiam”. O primeiro-ministro Levi Eshkol pensava o mesmo: “Quem são os palestinos?” Ele só vira na região árabes e beduínos.

O primeiro texto é de Moshe Dayan, herói israelense, em discurso pronunciado, em 1956, no enterro de uma vítima dos árabes. O segundo faz parte da página secreta eliminada das memórias de Yitzhak Rabin, descoberta e publicada pelo New York Times, a respeito da origem dos refugiados palestinos. O terceiro é de Yigal Allon, um dos pilares do sionismo na época da criação do estado de Israel. O nascimento de uma nação pode exigir ferro e fogo. As marcas ficam. Talvez por isso Yosef Weitz tenha escrito em 1940: “Não há outro meio senão transferir os árabes daqui para os países vizinhos, e transferir todos. Nenhuma aldeia, nenhuma tribo deve ficar. Unicamente após a transferência é que nosso país poderá absorver os milhões de irmãos nossos”. Leva tempo para esquecer.

*

Entrevista com Shlomo Sand

Adoro voltar a ser repórter de cultura. Mandei um e-mail para o historiador Shlomo Sand. Ele me enviou seus telefones. Liguei para ele em Israel. Conversamos durante quase uma hora. Pagarei uma fortuna. Resumo do papo:

JMS – O senhor lutou na Guerra dos Seis Dias?

Sand – Claro. Fui soldado. Infelizmente ajudei a conquistar Jerusalém para Israel. Saí sem ferimentos.

JMS – O senhor nasceu num campo de refugiados, não de concentração, obviamente, na Áustria ou na Alemanha?

Sand – Na Áustria, onde só ficamos três semanas. Passamos imediatamente para um campo de refugiados na Alemanha.

JMS – Mantêm suas ideias de que judeus atuais askenazes descendem dos khazares, um reino convertido ao judaísmo?

Sand – Claro que mantenho. É uma evidência. Só os ignorantes e os sionistas rejeitam isso. Em todos os sentidos, inclusive demográficos, os judeus do leste europeu não poderiam ter saído de onde se diz. A origem mítica judia é uma construção sionista do século XIX.

JMS – As críticas não o abalaram?

Sand – Tive mais elogios do que críticas. Grandes historiadores como Tony Judt, Marcel Détienne e Eric Hobsbawm me elogiaram. Edgar Morin me apoiou. Noam Chomsky gostou. Eles são muito mais importantes do que os sionistas que me atacaram. Críticas sionistas são comprometidas. Ganhei o Prix Aujourd’hui 2009, o mais importante atribuído pelos jornalistas franceses. Meu livro será traduzido em 21 línguas. Só os sionistas fanáticos é que o recusam. Só não conseguem refutá-lo.

JMS – Alguns dos seus críticos afirmam que as suas ideias servem aos antissemitas? Isso chega a incomodá-lo?

Sand – Dizer que isso é uma asneira é pouco. Não passa de uma chantagem primária. Não sou antissemista. Sou de origem judaica. Mas ser judeu não é pertencer a uma raça. Isso não existe. Quem pensa assim é racista. Um judeu brasileiro é antes de tudo um brasileiro de religião judaica. Quase nada há em comum entre um judeu polonês e um judeu brasileiro. Não existe uma cultura laica judia.

JMS – O fato de ser um especialista em história europeia deslegitima o seu trabalho sobre a história judaica?

Sand – Outra bobagem. Trabalho na Universidade de Tel Aviv, onde tem um departamento de história judaica e outro de história geral, que não se comunicam. Por eu ser especialista em história geral não poderia falar da história judaica? Só aos sionistas interessa essa ideia.

JMS – Para o senhor, como mostra em “A invenção do povo judeu”, o judaísmo é uma religião, não uma nação ou um povo. Significa que Israel não tem direito histórico ao seu território ou que deve dividi-lo com os palestinos?

Sand – Israel não tinha mais direito histórico algum sobre o atual território. Isso é loucura. Dois mil anos depois, com gente nascida por toda parte e de origens diferentes, que é direito é esse? Estou escrevendo uma continuação de meu livro, “O mito da terra de Israel”. Por que um brasileiro de remota origem judaica tem direito a ir morar em Israel e um palestino nascido em Jerusalém não pode voltar para a sua terra natal? Israel deve existir por ser um fato consumado. Recuar seria uma tragédia. Devemos formar uma confederação de dois estados nacionais para resolver o problema e ir em frente. Viveremos em paz quando formos israelenses, não judeus.

 

 

 




Olívio X Lasier

Postado por Juremir em 22 de julho de 2014 - Uncategorized

Lasier foi para cima.

Olívio defendeu-se de peito aberto.

É Ford!

No primeiro confronto entre os candidatos ao senado pelo Rio Grande do Sul, na Rádio Guaíba, com mediação da Taline Oppitz, deu empate técnico, com ligeira vantagem para Lasier Martins.

Ninguém foi a nocaute.

Por pontos, Lasier atacou mais.

Olívio Dutra só ficou esmerilhando.

Beto Albuquerque não teve oportunidade de entrar no debate com Oliver e Lasier.

Os demais foram discretos.

 

 


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A volta de Dunga e do seu estilo à seleção brasileira

Postado por Juremir em 21 de julho de 2014 - Uncategorized

Dunga é uma grife, um estilo, um jeito de ser. Para alguns é simplesmente um grosso. Para outros, um homem franco.

Raramente um treinador de futebol não é grosso. Felipão, Celso Roth e Muricy estão aí para provar essa tese.

Grossura em estado bruto.

Dunga é direto. Não manda recados. Fala na lata.

Ele deve voltar a dirigir a Seleção Brasileira a partir de amanhã.

Que bom!

Dunga foi bem na Seleção.

Só caiu, em 2010, por causa de um frango do Júlio César e de um surto de Felipe Melo.

Não pagou mico, não sentou nos joelhos do Galvão Bueno e não tomou goleada.

O seu mais grave defeito era um blusão de gola alto ridículo.

Digo e repito: se é ruim para a Globo há alguma chance de que seja bom para o Brasil.


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Caetano, tradição baiana e tradição gaúcha

Postado por Juremir em 20 de julho de 2014 - Uncategorized

Fomos ao show do Caetano Veloso.

É sempre interessante comparar um baiano em cena com um gaúcho tradicionalista.

O baiano reinventa a sua tradição a cada vez. Acrescenta algo.

O gaúcho tenta ficar parado no tempo.

A tradição baiana é aberta.

A gaúcha, fechada.

Nesse sentido, nosso gaúcho mais baiano é Vítor Ramil.




Emanuel Mattos, um professor de jornalismo

Postado por Juremir em 18 de julho de 2014 - Uncategorized

Morreu Emanuel Mattos.

Estou de luto.

Emanuel foi meu padrinho de casamento com a Cláudia, em 15 de dezembro de 1989.

Foi meu editor na Zero Hora.

No Caderno D, publicou as minhas reportagens que se transformaram no livro A noite dos cabarés.

Era um maravilhoso jornalista. Escrevia bem, editava bem e tinha jornalismo nas veias.

Era um louco do bem. Gremista doente, leitor voraz, viveu intensamente.

Porto Alegre fica mais pobre. O jornalismo romântico, boêmio, perde um dos seus personagens mais complexos.

Espero que se encontre com João Ubaldo na eternidade, visto que partiram no mesmo dia, e falem de textos, de livros, de jornalismo e das notícias deste mundo de tantos acontecimentos que podem virar manchete.

Emanuel foi um professor de jornalismo sem nunca ter lecionado numa faculdade.

Um grande cara.




Getúlio, o polvo

Postado por Juremir em 17 de julho de 2014 - Uncategorized

No Museu da República, em meu romance Getúlio (Record, 2004), um velho e uma velha conversam:

— Mas Getúlio soube crescer à sombra de Borges e até fraudou eleições para ele.

— Como a senhora sabe tudo isso?

— Passei a minha vida odiando Vargas e tentando saber tudo sobre a sua vida e o destino que deu ao Brasil. Nunca entendi para que isso me serviria, mas não pude me controlar. Tive algumas paixões: a pintura, a escultura, três ou quatro homens, a música e uma paixão negativa, a maldita história de Getúlio Vargas.

— A fraude, na República Velha, era uma praxe. Por outro lado, eram todos administradores honestos. Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros fraudavam eleições, mas não roubavam.

— Tanto faz. Eu nunca acreditei em democracia, em voto, nessas balelas todas. Mas dediquei a minha vida a compreender que Vargas sempre foi uma fraude, do início ao fim, desde o primeiro cargo público como promotor em Porto Alegre.

— Fraude? Vargas mudou a cara do Brasil. Vargas é o sufrágio universal, o voto feminino, antes mesmo da França, a Consolidação das Leis do Trabalho, o salário mínimo, a industrialização do país, a jornada de trabalho de oito horas, férias pagas aos trabalhadores, o fim da monocultura do café, a descoberta e a nacionalização do petróleo, a Petrobrás, tudo que se possa imaginar de bom e de novo, no Brasil, tem a marca de Getúlio Vargas.

— O senhor sempre foi getulista?

— Não. Cheguei a conviver com os seus opositores.

— Pois eu entendi Vargas quando me contaram a história da fraude na contagem dos votos da eleição para o quinto mandato de Borges de Medeiros. Aliás, ouvi essa história, muitas vezes, dos próprios familiares de Vargas, que orgulhosamente diziam: “Getúlio, deputado, era o presidente da Comissão de Verificação. Depois de contados os votos, foram declarar a Borges que o velho tinha sido derrotado. Borges, ao vê-los chegar, abriu os braços e festejou: Então, vieram me dizer que ganhei mais uma eleição? Getúlio e os seus companheiros deram meia-volta e foram tratar de falsificar o resultado para satisfazer o velho Borges”. Os adversários, comandados por Assis Brasil, tiveram de voltar a combater nas coxilhas, em 1923, para evitar que Borges morresse no poder. Getúlio só não combateu do lado da ordem, claro, por ter virado deputado federal e sido enviado para o Rio de Janeiro.

 




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