Porto Alegre, 01 de Fevereiro de 2015

Sand: Israel não é uma verdadeira democracia

Postado por Juremir em 31 de janeiro de 2015 - Uncategorized

Entrevista do Caderno de Sábado com Shlomo Sand

Por Juremir Machado da Silva

Raízes do sangue e do ódio

Judeu, historiador, professor da Universidade de Tel Aviv, autor de vários best-sellers, entre os quais “A invenção do povo judeu” e “Como deixei de ser judeu”, Shlomo Sand, 68 anos, é um intelectual polêmico que não teme enfrentar as posições dominantes nem a ira de alguns dos seus colegas de profissão. De Nice, na França, onde passava alguns dias ao sol e escrevendo um livro sobre a relação da história com a ciência, ele concedeu, por telefone, esta entrevista ao Caderno de Sábado. Como sempre, foi implacável.

Passado o impacto da tragédia de Charlie Hebdo, Sand faz o balanço da relação do Ocidente com a religião islâmica e do conflito israelo-palestino,

Caderno de Sábado – Por que, após os atentados de Paris, o senhor declarou, contra boa parte da intelectualidade, não ser Charlie?

Shlomo Sand – Logo depois dos atentados de Paris, escrevi um texto intitulado “Eu sou Charlie Chaplin”. Expus a minha recusa ao slogan “eu sou Charlie”, que reuniu pessoas solidárias aos cartunistas de Charlie Hebdo assassinados por extremistas. O crime cometido não tem justificativa nem desculpa. Dito isso, eu fiz a seguinte pergunta: devo me identificar com as vítimas e ser Charlie porque os mortos representavam a encarnação da liberdade de expressão? Algumas das caricaturas de Charlie Hebdo eram de mau gosto. Apenas algumas delas me faziam rir. Havia na maioria das charges publicadas pelo jornal uma raiva manipuladora com o objetivo de conquistar mais leitores. A caricatura de Maomé com um turbante-bomba publicada por um jornal dinamarquês em 2006 já me havia parecido uma pura provocação. Algo como relacionar judeu com dinheiro. Tudo isso só tem servido para associar islamismo e terrorismo. Incita ao ódio, dissemina preconceito, desrespeita a fé do outro. Sendo assim, não sou Charlie.

Caderno de Sábado – O que deve prevalecer, a liberdade de expressão, de sátira, de humor, ou o respeito às crenças e às diferenças?

Sand – O limite da liberdade de expressão é a difusão do racismo. Duvido que Charlie Hebdo se atrevesse, como escrevi no meu artigo logo depois dos fatos, a publicar uma caricatura do profeta Moisés de quipá com ar de agiota numa esquina. Concordo com a proibição, na França, a que o humorista e polemista Dieudonné faça piadas com o holocausto, mas não posso admitir que ele seja agredido. Se fosse, porém, eu não sairia com um cartaz dizendo “eu sou Dieudonné”. O limite ao humor é a incitação ao ódio, ao racismo e ao preconceito. Uma coisa é satirizar uma religião dominadora e opressiva. Outra, atacar a crença de grupos dominados e humilhados. O Ocidente está acostumado a apoiar as piores opressões no Oriente Médio. Dito isso, precisamos lutar contra o extremismo de organizações como o Estado Islâmico, sem esquecer que europeus deixaram esse crescimento acontecer bancando, muitas vezes, os bombeiros incendiários.

Caderno de Sábado – O Ocidente tem então responsabilidade no que aconteceu como sustentam alguns intelectuais de esquerda?

Sand – É disso que estou falando. O Ocidente não faz o papel de Voltaire no Oriente Médio ou no mundo islâmico. É preciso não ridicularizar grosseiramente o islamismo na Europa onde vivem milhões de muçulmanos em condições precárias, realizando os trabalhos mais insalubres. Por tudo isso, não sou Charlie. Minha simpatia fica com os muçulmanos que vivem em guetos e poderão ser vítimas do ódio desencadeado pelos atentados. Minha referência é outro Charlie, aquele que nunca zombou de pobres e humildes, Charlie Chaplin. É fundamental lutar contra o terrorismo, que existe e produz devastação, tomando-se o cuidado de não estimular racismo e ódio. Além disso, a Europa não pode esquecer seu passado colonialista recente e os rastros que isso deixou. A Europa acompanhou os Estados Unidos ajudando a criar o caos no Iraque e na região. Com apoio de aliados “esclarecidos”, grandes defensores da “liberdade de expressão”, como os sauditas, ajuda a preservar fronteiras ilógicas estabelecidas por interesses imperialistas. A minha conclusão é simples: o Ocidente não é a vítima ingênua e inocente como gosta de se apresentar. A França é responsável pela situação atual do Mali. Precisamos dar uma basta à hipocrisia que dá aos ocidentais sempre o bom papel. Intelectuais e escritores desempenham um papel nisso.

Caderno de Sábado – Livros como o romance de Michel Houellebecq, “Submissão”, que trata da ascensão ao poder na França de um presidente muçulmano, em 2022, incitam o medo do islamismo?

Sand – Michel Houellebecq, mesmo que não seja a sua intenção, contribui para que as pessoas sintam medo do islamismo. Ninguém pode escrever um livro tendo como tema uma ameaça de judeização do mundo, mas o autor de um romance sobre uma ameaça de islamização ganha todos os espaços de mídia. A questão é: como lutar contra o terrorismo? A resposta, como venho mostrando nas minhas reflexões sobre o conflito israelo-palestino, está em entender as origens do conflito. Sem desconstruir os mitos não se chega ao cerne dos problemas maiores.

Caderno de Sábado – Como viu a participação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu nas manifestações de Paris depois do atentado contra a mercearia judaica e contra Charlie Hebdo?

Sand – Terrível. Netanyahu nem sequer compreende o fato de que judeus possam viver em outros países. Na cabeça dele, todo judeu fora de Israel está em situação temporária fora de casa e deveria voltar para o seu lugar. Ele não entende o conceito de cidadão e de cidadania.

Caderno de Sábado – Um dos assassinos dos atentados de Paris, o que invadiu a mercearia de produtos judaicos, fez menção à questão da Palestina. O senhor é um estudioso das relações entre judeus e palestinos. Vê uma saída para esse conflito que parece sem fim?

Sand – Não. Não vejo saída. Seria preciso uma forte pressão internacional para salvar Israel de si mesmo. Essa pressão teria de vir dos Estados Unidos, mas isso não acontecerá, pois Barack Obama não é presidente que se poderia imaginar. Ele cedeu rapidamente ao lobby sionista e aos interesses da indústria armamentista. Israel não percebe as próprias contradições. Desde 1947, instalou um regime de apartheid que não para de se acentuar. Temo pelo futuro de Israel. As reações e revoltas poderão se ampliar atingido até a Galileia.

Caderno de Sábado – Não vê Israel como uma verdadeira democracia?

Sand – Claro que não. Israel é uma etnocracia, o Estado dos judeus, o que se baseia numa visão etnocêntrica. Uma democracia é de todos os seus cidadãos independentemente das suas crenças ou “raças”. As medidas recentes com o objetivo de enfatizar o caráter judaico do Estado de Israel enfatizam esse elemento inaceitável de separação. Israel e Líbano são dois países com elementos liberais e democráticos, mas Israel não pode ser visto como uma verdadeira democracia na medida em que não aceita o fundamento universalista do regime democrático. Os assentamentos, que continuam, e a lógica empregada pelo sistema dominante alimentam esse apartheid que tem consequências cotidianas deploráveis para palestinos vivendo em condições precárias e insustentáveis. Qualquer um pode ver isso. Repito, só a pressão internacional poderá levar Israel a ser democrático. Quanto ao conflito, precisamos de dois Estados com base nas fronteiras de 1967. Fora disso, nada poderá funcionar mesmo.

Caderno de Sábado – Como superar a questão dos refugiados palestinos que gostariam de ter direito de retornar à terra de pais ou avós?

Sand – Temos de ver a situação com moderação. Todos os refugiados não podem voltar, pois isso significaria o fim de Israel. Mas precisamos fazer com que uma parte desses descendentes de palestinos possa voltar. O princípio é simples: em 1947, a terra onde está Israel era deles, dos palestinos, que foram expulsos de lá. Essa história de direito de dois mil à terra de Israel é uma bobagem. Ninguém tem esse tipo de direito. Ou todos os brasileiros de origem europeia deveriam sair do país e devolver o Brasil inteiro aos índios? Os Estados Unidos também deveriam ser evacuados? Não existe isso. Os judeus não são um povo, não são uma raça. Há judeus russos, poloneses, judeus saídos do Iêmen, de origens distintas. Só a religião é comum entre eles. Os brasileiros não são uma raça. Nem os judeus. Boa parte dos judeus de hoje não descende de ninguém que jamais tenha vivido na Palestina, mas de pessoas convertidas ao judaísmo em outros lugares.

Caderno de Sábado – E a lei de retorno para judeus?

Sand – Só devem poder ir viver em Israel judeus perseguidos. É um critério factível e sustentável moralmente. Os demais têm as suas nacionalidades e não são nem devem ser israelenses. Os fundamentos que justificam a existência de Israel são o holocausto e o fato consumado. Dado que Israel existe, precisa continuar existindo. Para isso, temos de conciliar israelenses e palestinos no mesmo espaço. Como a terra era dos palestinos e não se pode receber de volta todos os refugiados, cabe juntar dinheiro e indenizar todos os que foram despojados. Um mítico direito de dois mil anos atrás não pode se sobrepor ao direito de propriedade legítimo de 1947. Israel precisa assumir o seu papel na tragédia da população palestina.

Caderno de Sábado – Não acredita numa unidade genômica dos judeus?

Sand – De jeito nenhum. Essas pesquisas de DNA, essas pesquisas que falam de um DNA comum a todos os judeus, são uma empulhação. Tudo isso faz parte de um mito perigoso, o mito do povo judeu como raça.

Caderno de Sábado – Seus colegas o odeiam?

Sand – Historiadores apegados aos mitos sionistas me odeiam, mas meus livros são best-sellers em Israel. Estou escrevendo um livro sobre história e ciência para mostrar que história não é ciência. Ideologias, mitos e emoções permeiam boa parte dos relatos.

 




Os riscos medidos pelas agências

Postado por Juremir em 30 de janeiro de 2015 - Uncategorized

A taxa de desemprego do Brasil está entre as menores do mundo.

Mas o Brasil, segundo as agências de risco, vai mal a pior.

A presidente Dilma apossou-se da agenda econômica de Aécio Neves e pretende produzir desemprego para satisfazer o FMI e os economistas que só gostam de crescimento econômico com gente sem trabalho.

O FMI e a União Europeia quiseram salvar a Grécia mergulhando-a no desemprego.

Os gregos elegeram a Syriza para rejeitar essa estranha política econômica, admirada em Davos, pela qual um país vai bem quando tem crescimento médio com altas taxas de desemprego e inflação baixa.

O que medem as agências de risco?

O risco de um país não pagar os banqueiros que os sugam ao longo tempo.

Joaquim Levy quer aumentar o superávit primário.

As agências de risco aprovam.

O Brasil vai economizar, produzindo desemprego, para gastar com seus credores parasitas.

Por que todo esse pessoal não faz cursos com os prêmios Nobel de economia Paul Krugman e Stiglitz

Krugman exerce o nobre papel de amansa burros com seus textos para o New York Times reproduzidos no mundo inteiro. Desmonta a cada artigo as ilusões das políticas de austeridade, mantra dos neoliberais.

Exemplo:

“O fato é que a Grécia impôs cortes selvagens nos serviços públicos, nos salários dos trabalhadores do governo e nos benefícios sociais”.

É o que muitos desejam para o Brasil.

“Graças a medidas adicionais de austeridade impostas em ondas sucessivas, os gastos públicos foram cortados de maneira muito mais profunda que o programa original previa, e no momento são 20% mais baixos do que em 2010. E no entanto os problemas da Grécia parecem hoje até piores do que eram quando o programa começou. Um motivo é que o mergulho da economia reduziu a arrecadação. O governo grego vem recolhendo em forma de impostos uma proporção muito mais alta do Produto Interno Bruto (PIB) do que costumava ser o caso antes da crise, mas o PIB caiu tão rápido que a arrecadação geral se reduziu. Além disso, a queda do PIB fez com que um indicador crucial –a razão entre dívida e PIB–continuasse a subir mesmo que a aceleração do endividamento tenha se reduzido e que em 2012 a Grécia tenha se beneficiado de medidas modestas de redução de sua dívida. Por que as projeções originais eram tão absurdamente otimistas? Como eu disse, porque autoridades econômicas supostamente sóbrias na verdade estavam envolvidas em uma fantasia econômica”

Uma mitologia que serve aos poderosos e garante a festa em Davos.

Krugman chuta o balde:  “Tanto a Comissão Europeia quanto o BCE decidiram acreditar na fadinha da confiança –ou seja, alegar que o efeito de destruição direta de empregos dos cortes de custos seria mais que compensado por um avanço no otimismo do setor privado. O FMI demonstrou mais cautela, mas mesmo assim subestimou grosseiramente o estrago que a austeridade poderia causar”.

É a mesma lorota que Joaquim Levy está tentando aplicar para os brasileiros.

Quanto mais Krugman surra os neoliberais brasileiros, mais eles acham que entendem de economia.




O antissemitismo foi o mal do século XX

Postado por Juremir em 29 de janeiro de 2015 - Uncategorized

Cada século tem o seu mal supremo.

Como se uma época só pudesse ser traduzida pelo que tem de pior.

Como se o pior sempre procurasse na infâmia absoluta a sua paradoxal legitimação.

O mal do século XX foi o antissemitismo.

Um mal ainda não erradicado do mundo. O mal do século XIX foi a “cientificização” do racismo em todas as suas facetas, especialmente em relação aos negros e aos mestiços. Século de Arthur Gobineau, Agassiz, Cesare Lombroso e, no Brasil, Nina Rodrigues. Já o antissemitismo teve no “Caso Dreyfus”, a condenação injusta, em 1894, de um oficial francês por alta traição em favor da Alemanha, uma amostragem do quanto ainda se alastraria como preconceito. Os pogroms, ondas de perseguição a judeus, na Rússia, entre 1881 e 1884, deram outra mostra do que viria. O século XX conheceria outros pogroms, em 1903, em 1917…

Se o passado havia consagrado a escravidão de negros, justificada, quando conveniente, pela suposta inferioridade racial, como apogeu da infâmia, ninguém poderia imaginar que o racismo viesse a conceber a eliminação industrial de judeus em campos de concentração pelo inominável instrumento das câmaras de gás. Os 70 anos da liberação do campo de concentração de Auschwitz estão avivando a memória global sobre os horrores ainda tão recentes do holocausto. A judia Hannah Arendt sacudiu o mundo com a sua hipótese sobre a “banalidade do mal”. A humanidade é capaz de produzir burocraticamente o mal que a enxovalha. A burocratização e a banalidade do mal só acentuam a monstruosidade dos nazistas. O século XX foi manchado para sempre pelo antissemitismo transformado em máquina de humilhação, segregação e de matar.

Máquina da barbárie.

O antissemitismo – uma das formas mais hediondas e persistentes do racismo – é uma das maiores chagas da história da humanidade. Um dos livros mais tristemente emocionantes que leio e releio é o clássico, É isto um homem?”, do italiano Primo Levi, relato da sua passagem pelo campo de concentração de Auschwitz Monowitz. Quando li esse livro pela primeira vez, não acreditei. Chorei na solidão do meu quarto de estudante no Partenon. Essa obra deveria ser leitura obrigatória em todos os cursos de ciências humanas. O incrível é que foi recusado por várias grandes editoras italianas, inclusive pela importante e antifascista Einaudi. Saiu, em 1947, pela pequena editora de Franco Antonicelli. Tiragem inicial: 2500 exemplares.

As vendas, em dez anos, foram ainda mais modestas: 1500 exemplares. Levi achava que as pessoas não queriam pensar num passado tão recente e doloroso. Em 1958, o livro foi, finalmente, publicado por Einaudi e virou referência mundial. O antissemitismo está sempre à espreita. Existe antissemitismo de direita e de esquerda. Há quem transforme a competência de judeus em muitos campos em motivo para renovar e destilar antissemitismo. O conflito israelo-palestino, quando mal-interpretado, também é apropriado pela torpeza antissemita. A sombra de Auschwitz obriga a humanidade a refletir sobre o seu maior paradoxo: a ciência e a tecnologia avançam, o racismo, uma das mais primitivas formas de ignorância, permanece.

O século XXI ainda precisa erradicar os males dos séculos XIX e XX.

Uma espécie de lei histórica indica que o mal de um século precisa de outros dois para ser eliminado.

 




Por mais impostos na cerveja dos bebuns

Postado por Juremir em 28 de janeiro de 2015 - Uncategorized

Telmo, nosso amado chefe aqui no Correio, me chamou a atenção para o preço da cerveja no supermercado. Tem Brahma lata (350ml) por R$ 1,89 e Antarctica lata (350ml) por R$ 1,79. É muito barato. Consta que os impostos sobre a cerveja chegam a 56% do preço. Eu subia mais. Obtinha os R$ 18 bilhões que a presidente Dilma quer conseguir com o saco de maldades do Joaquim Levy sobretaxando a bebida da preferência nacional. O consumo brasileiro chega a 18 bilhões de litros por ano. Bota R$ 1 real a mais de imposto por litro e estamos conversados. Sai no xixi, não precisa mexer no seguro-desemprego e bola para frente.

Com um calor desses, o consumo nem cairia. No inverno, continuaria no piloto automático. Vai uma geladinha? Fiz uma extensa pesquisa sobre preços de cervejas no mundo. Existe um índice interessante. Na Geórgia, o bebedor precisa trabalhar 15 horas, tomando-se por base o salário mínimo nacional, para comprar uma cerveja. Na França, 36 minutos. No Brasil, uma hora. O custo médio de uma cerveja de 33 cl, nos supermercados franceses, é de 1,36 euros (em torno de R$ 4). Em Varsóvia, na Polônia, cai para 79 centavos de euro. Mas em Oslo, na Noruega, vai a 4 euros. Em Londres, bate em 2,40 euros (dado que quem mora em Londres garante ser defasado ou irreal, não baixando de 4 euros). Por que a cerveja é tão barata? Para incentivar o consumo da galera, estimular piada ruim e manter a população anestesiada ou para gerar empregos e ganhos?

Há quem defenda que a cerveja seja tratada como alimento e não como uma droga. Seria essa a atitude dos países civilizados. Fiquei com a impressão de que é conversa de bar regada a cerveja. Sejamos práticos: se o cara quer encher o latão, de latinha em latinha, que pague um imposto a mais pelo bem do Brasil. Os cervejeiros vão alegar que é mais uma maldade contra os pobres, pois rico prefere uísque. Sou a favor de botar mais impostos em cima de todas as bebidas alcóolicas. No uísque eu colocaria mais 200% de impostos. Fora o gelo. Não bebo. Nada tenho contra quem bebe. Apenas analiso o problema. Se o consumo cair, melhor. Menos doentes e menos xixi nas calçadas. Se persistir, tudo bem. Mais arrecadação para o Estado.

Será que o tratamento camarada com a cerveja tem a ver com o fato de que a Ambev, dona das principais marcas de cerveja do Brasil, esteve entre as três empresas que financiariam 65% dos custos das campanhas eleitorais dos três principais candidatos à presidência da República? A cerveja escapou da lei que restringe a publicidade de bebidas alcóolicas. Mas ela ajuda a matar nos acidentes de trânsito: cem mil mortos por ano e 500 mil com traumatismos provocados pelo trago a mais. A gelada não é santa. Só os inocentes e os apaixonados acham que ela é inofensiva. Imposto nela. Outra opção para alimentar os cofres nacionais, até agora desconsiderada pelo ministro Joaquim Levy, mas defendida pelo comunista Barack Obama para o seu país, é taxar as grandes fortunas. Os Estados Unidos já tiveram uma alíquota de impostos de robustos 80%. Faz mesmo sentido os 36 bilionários de São Paulo e eu pagarmos de imposto de renda os mesmos 27%?

Quando eu for candidato, terei como bandeira aumentar o imposto sobre a cerveja.

É claro que não me elegerei.

 

 

 

 

 

 




Sobre a favelização do centro de Porto Alegre

Postado por Juremir em 27 de janeiro de 2015 - Uncategorized

Minha coluna no Correio do Povo de outro dia sobre a favelização da zona central de Porto Alegre provocou polêmica. Recebi muita mensagem. Uma parte me apoiou com argumentos do tipo “temos de retirar a marginália das ruas”. Outra parte me atacou com os argumentos do tipo “estás querendo higienizar Porto Alegre e eliminar os pobres do teu jardim”. A primeira parte carregou nas tintas contra drogados e vagabundos que rejeitam albergues, moradias populares e empregos para permanecer onde estão. A segunda parte garante que é ilegal querer tirar os moradores de ruas de onde eles se sentem bem. Afirmam que, se a sociedade tem miseráveis, esse é um problema de todos. Seria egoísmo querer tirar o barraco do morador de rua da frente da sua casa.

A parte que me apoiou com argumentos extremos sustenta que os cidadãos que pagam impostos têm direito a não querer uma favela na frente de casa. A parte que me atacou com argumentos extremos defende que essas pessoas não têm escolha, salvo quando escolhem ficar onde estão, mas, mesmo isso, seria mais um desespero do que uma manifestação de livre arbítrio. Querer mandar essas pessoas para a periferia, até mesmo em casas populares, revelaria um enorme preconceito. Não seria um preconceito com a periferia? Entende-se que os poderes públicos oferecem lugares na periferia por serem economicamente mais acessíveis até para quem deverá pagar a conta.

Uma terceira corrente de mensagens faz perguntas: qual direito deve prevalecer: o dos moradores de rua, que não querem sair de onde estão, ou o dos moradores que não querem ter barracos na frente de casa? Querer tirar os barracos da frente de casa transforma a pessoa num terrível direitista ou numa pessoa moralmente inferior? Eu mesmo me faço uma pergunta: por que tem barracos e barracas no canteiro da Ramiro Barcelos, mas não tem na pracinha da Encol ou no Moinho de Vento? Um amigo me garante que a resposta é simples e conhecida: “Na Encol e no Moinhos de Vento o Estado funciona”. Fico com outra pergunta: por que o Estado funciona lá e não na Ramiro Barcelos ou na frente da Rodoviária? Será que algum morador influente de lá telefona para o prefeito ou para o comandante da Brigada Militar e providências são tomadas rapidamente? Em alguns ruas, guaritas foram instaladas e vigilantes particulares de apito na boca afastam os indesejados.

Indesejados? Palavra terrível. Será a minha confissão de que me transformei num fascista determinado a caçar mendigos? Há alguns meses, moradores da rua defecavam toda noite no exato ponto onde eu passo às sete e meia da manhã, na esquina da Ramiro com a Protásio Alves. Sob a marquise da ótica, atrás da coluna, era o banheiro. Eu devia entender a situação, mas não gostava de ver aquilo. Sinto culpa. Um morador de rua ganhou emprego, mas desistiu. Gosta mais da vida no canteiro. O que fazer? Um amigo pragmático aconselha: “Muda. Centro é centro. Ainda mais com hospital. Só vai piorar”. Se reajo, sou preconceituoso. Se aceito, sinto-me refém.

A solidariedade com a terrível vida dos outros deve me fazer mudar de mentalidade?

Tomara que eu consiga, pois é alternativa mais prática para o meu caso.

 




Kátia Abreu e a inexistência de latifúndio

Postado por Juremir em 26 de janeiro de 2015 - Uncategorized

Eu sou a favor da leitura. Não existem efeitos colaterais. Apenas os ditadores desconfiam de quem lê muito. Defendo novas campanhas para aumentar o índice de leitura no Brasil. Entendo que se pode começar lendo jornais. É incrível como os jornais contribuem para a cultura dos cidadãos. Os leitores ficam bem informados. A nova ministra da Agricultura, senadora Kátia Abreu, podia dar o exemplo. Não seria ruim se ela lesse o jornal O Globo todos os dias. Kátia Abreu poderia até estrelar uma campanha em prol da leitura na televisão: “Nunca é tarde para começar a ler. Faça como eu”. Quem lê, pega gosto. Não larga mais. Kátia Abreu acabaria lendo a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, o Correio do Povo e, quem sabe, Le Figaro e NYT.

Kátia declarou que não há mais latifúndio no Brasil. Se tivesse lido o jornal O Globo, não teria feito uma declaração tão irrealista. Será que o tradicional diário carioca aderiu ao MST com esta manchete? “Concentração de terra cresce e latifúndios equivalem a três Estados de Sergipe”. Segundo informa a repórter Tatiana Farah, com dados do Incra, no primeiro governo de Dilma Rousseff seis milhões de hectares foram parar nas mãos nada calejadas de grandes proprietários, perfazendo um aumento de 2,5% na concentração já enorme de terras, que alcança 244 milhões de hectares. Por que Kátia Abreu não sabe disso? Qual será o seu conceito de latifúndio? A ministra é formada em psicologia, mas milita no agronegócio faz tempo.

Não terá conseguido ainda tomar conhecimento dos dados?

Há números que fazem rodar a cabeça dos brasileiros. Se Kátia Abreu lesse o Globo, ou consultasse os dados oficiais, saberia que 130 mil propriedades “concentram 47,3% de toda terra cadastrada no Incra”. É mole? Não, não é mole. Mas não para de subir. O texto de O Globo esforça-se (deveria ser repreendido por isso?) em esclarecer a situação fazendo comparações: “Os 37,5 milhões de minifúndios (propriedades mínimas de terra) equivalem, somados, a quase um quinto disso: 10,2% da área total registrada”. Dá para imaginar a reação dos seguidores de Kátia Abreu: os dados do Incra não são confiáveis. A Confederação Nacional da Agricultura, que já teve Kátia Abreu como chefe, entende que os grandes latifundiários brasileiros são os índios. Segundo a CNA, os índios, esses seres improdutivos, têm 135 hectares per capita enquanto os produtores rurais só possuem 23,4.

Impiedoso com a cultura da ministra Kátia Abreu, o Globo foi mais longe: “Dados do ainda inédito Atlas da Terra Brasil 2015, feito pelo CNPq/USP, mostram que 175,9 milhões de hectares são improdutivos no Brasil”. Será que a família Marinho quer uma reforma agrária? O jornal acrescenta: “O índice de produtividade das propriedades agrícolas só foi calculado uma vez, em 1980. Desde então, foram realizados quatro censos agropecuários, mas esse índice não foi atualizado”. Só pode ter sido contrabando de alguma equipe comunista infiltrada na redação de um jornal até então bastante confiável. Kátia Abreu ainda tem tempo de começar a ler O Globo. Vai adorar.

 

 

 

 




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