Porto Alegre, 25 de Julho de 2014

Eis o homem: o complexo Joaquim Barbosa, ou para desencantar lacerdinhas repentinamente apaixonados

Postado por Juremir em 7 de outubro de 2012 - Política

A melhor “matéria”de jornal, sobre Joaquim Barbosa, publicada até agora.

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Relator do mensalão revela voto em Lula e Dilma, diz que a imprensa trata escândalos com dois pesos e duas medidas e que o racismo está estampado na TV

Para azar da imprensa o homem não  é tucano

 

Mensalão O Julgamento

 

Joaquim, o anti-herói

Relator do mensalão revela voto em Lula e Dilma, diz que a imprensa trata escândalos com dois pesos e duas medidas e que o racismo está estampado na TV

Lula Marques/Folhapress
O ministro Joaquim Barbosa em seu gabinete no STF
O ministro Joaquim Barbosa em seu gabinete no STF

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
O “dia mais chocante” da vida de Joaquim Benedito Barbosa Gomes, 57, segundo ele mesmo, foi 7 de maio de 2003, quando entrou no Palácio do Planalto para ser indicado ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A ocasião era especial: ele seria o primeiro negro a ser nomeado para o tribunal.
“Eu já cheguei na presença de José Dirceu [então ministro da Casa Civil], José Genoino [então presidente do PT], aquela turma toda, para o anúncio oficial. Sempre tive vida reservada. Vi aquele mar de câmeras, flashes…”, relembrava ele em seu gabinete na terça-feira, 2.
No dia seguinte à entrevista com a Folha, e nove anos depois da data memorável de sua nomeação, Joaquim Barbosa condenou Dirceu e Genoino por corrupção.
Para conversar com o jornal, impôs uma condição: não falar sobre o processo, ainda em andamento no STF.
O TELEFONE TOCA
Barbosa diz que foi Frei Betto, que o conhecia por terem participado do conselho de ONGs, que fez seu currículo “andar” no governo.
“Eu passava temporada na Universidade da Califórnia, Los Angeles. Encontrei Frei Betto casualmente nas férias, no Brasil. Trocamos cartões. Um belo dia, recebo e-mail me convidando para uma conversa com [o então ministro da Justiça] Márcio Thomaz Bastos em Brasília.” Guarda a mensagem até hoje.
“Vi o Lula pela primeira vez no dia do anúncio da minha posse. Não falei antes, nem por telefone. Nunca, nunca.”
Por pouco, não faltou à própria cerimônia. “Veja como esse pessoal é atrapalhado: eles perderam o meu telefone [gargalhadas].”
Dias antes, tinha sido entrevistado por Thomaz Bastos. “E desapareci, na moita.” Isso para evitar bombardeio de candidatos à mesma vaga.
“Na hora de me chamar para ir ao Planalto, não tinham o meu contato.” Uma amiga do governo conseguiu encontrá-lo. “Corre que os caras vão fazer o seu anúncio hoje!”
Depois, continuou distante de Lula. Não foi procurado nem mesmo nos momentos cruciais do mensalão. “Nunca, nem pelo Lula nem pela [presidente] Dilma [Rousseff]. Isso é importante. Porque a tradição no Brasil é a pressão. Mas eu também não dou espaço, né?”
O ministro votou em Leonel Brizola (PDT) para presidente no primeiro turno da eleição de 1989. E depois em Lula, contra Collor. Votou em Lula de novo em 2002.
“Vou te confidenciar uma coisa, que o Lula talvez não saiba: devo ter sido um dos primeiros brasileiros a falar no exterior, em Los Angeles, do que viria a ser o governo dele. Havia pânico. Num seminário, desmistifiquei: ‘Lula é um democrata, de um partido estabelecido. As credenciais democráticas dele são perfeitas’.”
O escândalo do mensalão não influenciou seu voto: em 2006, já como relator do processo, escolheu novamente o candidato Lula, que concorria à reeleição.
“Eu não me arrependo dos votos, não. As mudanças e avanços no Brasil nos últimos dez anos são inegáveis. Em 2010, votei na Dilma.”
DE LADO
No plenário do STF, a situação muda. Barbosa diz que “um magistrado tem deveres a cumprir” e que a sociedade espera do juiz “imparcialidade e equidistância em relação a grupos e organizações”.
Sua trajetória ajuda. “Nunca fiz política. Estudei direito na Universidade de Brasília de 75 a 82, na época do regime militar. Havia movimentos significativos. Mas estive à parte. Sempre entendi que filiação partidária ou a grupos, movimentos, só serve para tirar a sua liberdade de dizer o que pensa.”
VENCEDOR E VENCIDO
Barbosa gosta de dizer que não tem “agenda”. Em 2007, relatou processo contra Paulo Maluf (PP-SP). Delfim Netto não era encontrado para depor como testemunha. Barbosa propôs que o processo continuasse. Foi voto vencido no STF. O caso prescreveu.
No mesmo ano, relatou processo em que o deputado Ronaldo Cunha Lima (PSDB-PB) era acusado de tentativa de homicídio. O réu renunciou ao mandato e perdeu o foro privilegiado. Barbosa defendeu que fosse julgado mesmo assim. Foi voto vencido no STF.
Em 2009, como relator do mensalão do PSDB, propôs que a corte acolhesse denúncia contra o ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo. Quase foi voto vencido no STF -ganhou por 5 a 3, com três ministros ausentes.
Dois anos antes, relator do mensalão do PT, propôs que a corte acolhesse denúncia contra José Dirceu e outros 37 réus. Ganhou por 9 a 1.
NOVELA RACISTA
Barbosa já disse que a imprensa “nunca deu bola para o mensalão mineiro”, ao contrário do que faz com o do PT. “São dois pesos e duas medidas”, afirma.
A exposição na mídia não o impede de fazer críticas até mais ácidas.
“A imprensa brasileira é toda ela branca, conservadora. O empresariado, idem”, diz. “Todas as engrenagens de comando no Brasil estão nas mãos de pessoas brancas e conservadoras.”
O racismo se manifesta em “piadas, agressões mesmo”. “O Brasil ainda não é politicamente correto. Uma pessoa com o mínimo de sensibilidade liga a TV e vê o racismo estampado aí nas novelas.”
Já discutiu com vários colegas do STF. Mas diz que polêmicas “são muito menos reportadas, e meio que abafadas, quando se trata de brigas entre ministros brancos”.
“O racismo parte da premissa de que alguém é superior. O negro é sempre inferior. E dessa pessoa não se admite sequer que ela abra a boca. ‘Ele é maluco, é um briguento’. No meu caso, como não sou de abaixar a crista em hipótese alguma…”
Barbosa, que já escreveu um livro sobre ações afirmativas nos EUA, diz que o racismo apareceu em sua “infância, adolescência, na maturidade e aparece agora”.
Há 30 anos, já formado em direito e trabalhando no Itamaraty como oficial de chancelaria -chegou a passar temporada na embaixada da Finlândia-, prestou concurso para diplomata. Passou. Foi barrado na entrevista.
DE IGUAL PARA IGUAL
É o primeiro filho dos oito que o pai, Joaquim, e a mãe, Benedita, tiveram (por isso se chama Joaquim Benedito).
Em Paracatu, no interior de Minas, “Joca” teve uma infância “de pobre do interior, com área verde para brincar, muito rio para nadar, muita diversão”. Era tímido e fechado.
A mãe era dona de casa. O pai era pedreiro. “Mas ele era aquele cara que não se submetia. Tinha temperamento duro, falava de igual para igual com os patrões. Tanto é que veio trabalhar em Brasília, na construção, mas se desentendeu com o chefe e foi embora”, lembra Joaquim.
O pai vendeu a casa em que morava com a família e comprou um caminhão. Chegou a ter 15 empregados no boom econômico dos anos 70. “E levava a garotada para trabalhar.” Entre eles, o próprio Joaquim, então com 10 anos.
RUMO A BRASILIA
No começo da década, Barbosa se mudou para a casa de uma tia na cidade do Gama, no entorno de Brasília.
Cursou direito, trabalhou na composição gráfica de jornais, no Itamaraty. Ingressou por concurso no Ministério Público Federal.
Tirou licenças para fazer doutorado na Universidade de Paris-II. E passou períodos em universidades dos EUA como acadêmico visitante. Fala francês, inglês e alemão.
Hoje, Barbosa fica a maior parte do tempo em Brasília, onde moram a mãe, os sete irmãos e os sobrinhos. O pai já morreu. Benedita é evangélica e “superpopular”. Em seu aniversário de 76 anos, juntou mais de 500 pessoas.
O ministro tem também um apartamento no Leblon, no Rio, cidade onde vive seu único filho, Felipe, 26. Se separou há pouco de uma companheira depois de 12 anos de relacionamento.
PÚBLICO
A Folha pergunta se Barbosa não tem o “cacoete da condenação” por ter feito carreira no Ministério Público, a quem cabe formular a acusação contra réus.
“De jeito nenhum. O que eu tenho do MP é esse espírito de preocupação com a coisa pública. Mesmo porque não morro de amores por direito penal. Sou especialista em direito público.”
DEVER
Nega que tenha certa aversão por advogados [ver página ao lado]. E nega também que tenha prazer em condenar, sem qualquer tipo de piedade em relação à pessoa que perderá a liberdade.
“É uma decisão muito dura. Mas é também um dever.”
“O problema é que no Brasil não se condena”, diz. “Estou no tribunal há sete anos, e esta é a segunda vez que temos que condenar. Então esse ato, para mim e para boa parte dos ministros do STF, ainda é muito recente.”
Diante de centenas de grandes escândalos de corrupção no Brasil, e de só o mensalão do PT ter chegado ao final, é possível desconfiar que a máquina de investigação e punição só funcionou para este caso e agora será novamente desligada?
“Não acredito”, diz Barbosa. “Haverá uma vigilância e uma cobrança maior do Supremo. Este julgamento tem potencial para proporcionar mudanças de cultura, política, jurídica. alguma mudança certamente virá.”
MEQUETREFE
O caso Collor, por exemplo, em que centenas de empresas foram acusadas de pagar propina para o tesoureiro do ex-presidente, chegou “desidratado” ao STF, diz o ministro. “Tinha um ex-presidente fora do jogo completamente. E, além dele, o quê? O PC, que era um mequetrefe.”
O país estava “mais próximo do período da ditadura” e o Ministério Público tinha recém-conquistado autonomia, com a Constituição de 1988. Até 2001, parlamentares só eram processados no STF quando a Câmara autorizava. “Tudo é paulatino. Mas vivemos hoje num país diferente.”
PONTO FINAL
Desde o começo do julgamento do mensalão, o ministro usa um escapulário pendurado no pescoço. “Presente de uma amiga”, afirma.
Depois de flagrado cochilando nas primeiras sessões, passou a tomar guaraná em pó no começo da tarde.
Diz que não gosta de ser tratado como “herói” do julgamento. “Isso aí é consequência da falta de referências positivas no país. Daí a necessidade de se encontrar um herói. Mesmo que seja um anti-herói, como eu.”


9 Responses

  1. Manoel BINS disse:

    Coitado do min. Joaquim…Ser elogiado pelo panfleto direitista (in)veja é o fim da picada. ACM e Maluf ja foram. É o que dá condenar petistas no atacado, alguns até por simples “ilações’. Está sendo adulado por todos os calunistas globais. O titulo da materia de capa do pasquim do psdb “O menino pobre que mudou o Brasil” devia se referir a LULA, é claro. Todos sabem disso. Agora, quero ver o Joaquim Barbosa gritar contra a manipulação midiatica, ser favoravel a democratização dos meios de comunicação, condenar algum tucano no mensalão do psdb, querer investigar as privatarias, criticar veja por se aliar a um gangster(cachoeira) e espinhafrar o serra e sua turma e ele vai ver como será tratado…

  2. Carlos disse:

    Fora a bipolaridade dos “lacerdinhas” e “revolucionarios de todynho” existe uma boa parcela de população que quer simplesmente justiça.

  3. Márcio Specht disse:

    Juremir… sempre batendo na moleira desse povinho movido a BBB, novela e Michel Teló.
    Por tua causa agora só chamo eles de LACERDINHAS!

  4. Tiago disse:

    Agora é tarde. O ministro Joaquim “O senhor me respeite!” Barbosa já foi adotado pelo Reinaldo Azevedo.

  5. Fernando disse:

    Por ter votado no PT tem que ser corrupto então? Tem que aceitar todas as traquinagens do Partido dos Trambiques? 90% do povo não sabe o que significa SOCIALISMO, aqui em POA é diferente, não queremos COMUNISTAS, que matam criancinhas sim, vide o que STALIN fez na Ukrania em 33 do século passado, sei que o Sr sabe muito bem professor Juremir, matou milhões de fome e depois mandou fuzilar as crianças que ficaram orfãs. Total mais de 15 000 000 de pessoas exterminadas em valas sistema latas de sardinha. Para terminar gostaria que o Sr fizesse uma coluna explicando o Socialismo, desde o extermínio de parte da população. Esse sistema amado por intelectuais nas universidades brasileiras. Manoela seu rostinho lindo de nada mais adiantará! O povo sabe o que é Partido Comunista aqui no RS!

  6. Abaixo os Lacerdinhas disse:

    VIVA! Nosso líder maior anti-lacerdinhas, anti-os-anti-PT, anti-os-anti-comunistas voltou. Este é o Juremir que amamos, meu grande e pomposo líder!

  7. Filipe disse:

    Chega de, à titulo de inserir um bannerzinho em um site, desviar dinheiro público para pagar blogueiros para que façam elogios e defendam os governos de ocasião.

  8. PAULO TIMM disse:

    Segui il tuo corso e lascia dir la genti…(ou algo assim, segundo MARX)ou: Perdoai-os, eles não sabem o que fazem – ou dizem (segundo Cristo)…

  9. Wagner disse:

    Ok, tbém votei no Lula e na Dilma e estou torcendo para que a justiça seja feita e que os culpados sejam punidos.
    Espero que o ministro e seus colegas tenham o mesmo empenho no mensalão do Psdb e que finalmente o Brasil comece a ser passado a limpo para que tenhamos um país mais justo para TODOS os brasileiros e não apenas para uma minoria.
    O nobre Ministro não pensou ainda em questionar sobre parte da mídia brasileira apoiar escandalosamente um partido político? O que tem por de trás disso?
    As concessões precisam ser revistas. O brasileiro precisa de informação e não de manipulação.Não é mais possível aceitar que o povo pague para que essas concessões fiquem nas mãos de meia dúzia de famílias que não defendem o interesse popular e sim os seus interesses.
    Chegou a hora de avaliar se essas concessões estão sendo fiéis aos preceitos constitucionais, se atendem as demandas da sociedade brasileira se contribuem para fortalecer a riqueza cultural do povo, se ajudam na elevação do nível de informação e de conhecimento da REALIDADE e se contribuem efetivamente para a formação da cidadania e o fortalecimento da democracia no Brasil.
    Chega de manipulação!! Quero um Brasil para TODOS!!