Porto Alegre, 31 de Outubro de 2014

Torcida por Luis Fernando Verissimo

Postado por Juremir em 29 de novembro de 2012 - Cotidiano

Tenho torcido muito pela recuperação total de Luís Fernando Verissimo. Quero que todo ser humano tenha saúde e longa vida. Há 17 anos, voltando da França, critiquei Verissimo. Ataquei o seu estilo, que raramente me convence, o pouco engajamento do seu pai na luta contra todos os abusos da ditadura, não apenas contra a censura, e o esquerdismo do cronista, que, no contexto da queda do muro de Berlim e do inventário do estragos do stalinismo, parecia-me esdrúxulo e anacrônico. Não me arrependo de coisa alguma.

Por linhas tortas, minha vida só melhorou depois desse episódio. Devo dizer, no entanto, que, reflexão feita, num ponto ele tinha razão: a sua crítica à direita. O posicionamento político de Verissimo é digno de aplauso.

Não interessa se tardio ou nos bons tempos.

Na época da polêmica, por causa da qual perdi um emprego, eu, como o anarquista que continuo sendo, quis criticar o stalinismo e o direitismo ao mesmo tempo. Não era possível. O Brasil, mal saído da ditadura, não estava maduro para isso. Verissimo pragmaticamente mirava no alvo certo: o reacionarismo responsável pelos séculos de desigualdade, de miséria e de parasitismo das elites no Brasil. Continuo convencido, porém, de que Erico poderia, com seu prestígio, ter sido mais veemente na denúncia aos horrores do hediondo regime militar brasileiro, o que, de resto, muitos intelectuais e jornalistas cobraram dele. Cada homem, no entanto, como diria Ortega y Gasset, é ele e suas circunstâncias. Luís Fernando foi inflexível na defesa da memória do pai. Eu faria o mesmo em relação ao meu.

Outro ponto para ele.

Condeno apenas os métodos.

A direita odeia Verissimo. Odeia ainda mais na medida em que jamais pôde atingi-lo. Se pediu a sua cabeça aos patrões, como costuma fazer quando incomodada, obviamente não conseguiu, embora, vez outra, o patrão hesitasse. Parte da direita passou a gostar de mim por imaginar que, tendo me tornado desafeto dele, eu passava a integrar automaticamente as fileiras do reacionarismo. As simpatias posteriores à minha degola eram pura tentativa de cooptação. O meu ângulo de ataque, porém, havia sido outro. Por mais que meus inimigos duvidem, continuo não sendo de esquerda nem de direita. Sou libertário e teimoso. Só me guio pela minha consciência. Franco-atirador, não me importo de ser minha primeira vítima. A idade me ensinou, porém, que o anarquismo é poesia e que a realidade exige posturas mais práticas.

A esquerda brasileira é cheia de defeitos. A direita consegue ser bem pior. Verissimo, pelo jeito, compreendeu isso muito antes de mim. Sou mais lento. Essa polêmica marcou a minha vida do ponto de vista dos outros. Virei nota de rodapé na biografia de Verissimo. O resto é bola de neve: um golpe levou a outro e assim sucessivamente. Encontramo-nos três vezes depois da briga: dentro de um elevador em Belém do Pará, numa pontezinha de pedestres na avenida Ipiranga, em Porto Alegre, como se estivéssemos num clima de duelo, e em poltronas vizinhas num show. Não nos cumprimentamos.

Desejo cumprimentá-lo agora pela perspicácia política.


46 Responses

  1. Antonio Matos disse:

    Informo para Juremir e outros: por proposta minha como parte do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre foi definida um moção de apoio e preocupação com a saúde de LFV na sessão deste conselho no dia 22 do corrente mês. Abraços para todos.

  2. Gilberto disse:

    Pelo que me lembro do famoso texto da discórdia, a tua fama de recalcado, Juremir, pode ter começado ali. Pena que é difícil encontrá-lo na internet. Seria bom para teus leitores.

  3. marlon disse:

    Juremir, muito bom, é isso aí mesmo. Como sempre brilhante…parabéns pelas palavras

  4. Juremir, eu reproduzi sua crônica no meu blog mas antes falei um pouco sobre você, se você desejar pode ler neste endereço – http://fpacheco9.blogspot.com.br/2012/11/torcida-por-luis-fernando-verissimo.html

    Este é só um recado, deixei meu comentário já registrado.

  5. Bruna F. Machado disse:

    Sou estudante de Letras da UFRGS e vi essa reportagem através do Facebook. Confesso que a colega que compartilhou estava revoltadíssima.
    Sinceramente, não entendo. Adoro o Erico, mas isso não me dá o direito de ofender as pessoas que não tem a mesma opinião que a minha. Não concordo, mas entendo.
    Quanto ao que eu li agora: belíssimo. Acredito que as pessoas tenham lido como um pedido de desculpas, mas não acho que seja isso. Admiro a sua força. As críticas são pesadas (e por vezes infundadas) e acredito que seja sempre assim. Escrever é um ato de coragem, te parabenizo por isso.

  6. joão roberto ( jm) disse:

    Fica tranquilo amigo, sábado é dia de purificação. Abraço.

  7. Rafinha Baldissera disse:

    Que mania esta da sociedade brasileira dizer que as pessoas devem calar ou ficar em silêncio. Não é a toa que o brasileiro pensa que a Democracia se resume ao ato de votar.

  8. Sandra Lima disse:

    Tem gente que passou cinco minutos lendo esse texto e não entendeu absolutamente NADA do que ele escreveu. Ele não pediu desculpas, já que não é necessário, afinal, pessoas têm posicionamentos diferentes em uma sociedade com o mínimo de inteligência. Segundo, ele manteve sua posição, a explicou, e desejou saúde a Veríssimo. Terceiro: aprendam a lidar com suas emoções.

  9. Juremir disse:

    Porque eu sou covarde e não leio (ou não entendo) livros básicos.

  10. Gabinete Caligari disse:

    Juremir, certamente não leste (o que é o mais provável) ou não entendenste as mensagens que o Erico nos deixou nas entrelinhas do livro O Prisioneiro! Já o livro O Senhor Embaixador deve ter muitas páginas para quem de fato só lê o resumo dos mesmos!….a frase do final de Incidente em Antares é de uma coragem, que duvido eu tu terias tido para escrever se tivesse vivido aquela época! ….Em geral estas pessoas cheias de blá-blá-blá e metidos a franco atiradores, na prática e na ação são os maiores covardes quando a “maionese desanda”. Insultar, em 2012,no BR desde um blog é muito fácil: queria ver o teu “ataque” a Ditadura Militar se tu fosse o Juremir que dizes ser em 1968! Até porque o verdadeiro inimigo ATUAL do povo brasileiro em 2012 é outro: e esse “inimigo” tu te eximes em atacar, por que será????????

  11. Tiago Medina disse:

    Muito bom, professor.

  12. Giancarlo Marchesi disse:

    Três questões:
    1- Nunca sabemos quando “falas” a tua verdade Juremir, eticamente depois de atirares muitas fezes no ventilador, há 17 anos, o mais correto seria silenciar diante de uma questão tão dolorosa como a que passa a família Veríssimo. Assim, fazer reparações depois dos ataques ferozes e destrutivos na tua trajetória de construção de desafetos pelo mundo é simplesmente repugnante, até parece arrependimento católico! Qualquer um que tem contato pelo menos com os “3 Juremires” (O escritor, o professor e o radialista) fica estarrecido com a incoerência destas 3 personalidades que assumes! Qual delas é a fictícia? Em qual delas devemos confiar?
    2- Gostei pelo menos que te assumiste como anarquista (tu adoras mesmo “dividir para exercer o que resta do teu reinado”): parece sim, que diante de tanta ironia, o Juremir anarquista se dissolve nas suas múltiplas personalidades anárquicas: os anarquistas são como bacterias oportunistas, metástases prontas para se instalarem e cumprir sua missão de catalisar a entropia do planeta! Nessa entropia, por ti fomentada, um dia eu, você poderemos estar agonizando na UTI de um hospital. 3)Repito, nada seria mais respeitoso do que o teu silêncio diante destas circunstâncias!

  13. Marco Rodrigues disse:

    Hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando representar ou fingir.

  14. MONTEIRO disse:

    Magnífico JUREMIR! Os fãs da Baita Sol e do Meia Noite continuam latindo!

  15. marta disse:

    gostei muito deste desabafo.Sempre gostei do LFV. Torço pela volta da amizade dos dois. Isso já uma tentativa de aproximação. Continuo na torcida pela franca recuperação do LVF e ainda vou vê-los tomando uma taça de vinho em alguma feira do livro ou palestra por ai. Bravos! bravos! parabéns! bjsss

  16. Marta Sica da Rocha disse:

    Caro Juremir,
    Apredi, aos “trancos e barranscos”, temos momentos na vida que a melhor atitude é o silêncio. Sabe com “bateu” em mim tua crônica? Que desejas aparecer as custas do LFV. Tu não precisas disso. Por favor, as vezes, me ouve. Exerça a “arte de calar”. bacios en tuo cuore
    Marta Sica da Rocha

  17. marcelo disse:

    não vi auto crítica nenhuma (até porque seria desnecessária e infantil), só uma reflexão mais, hã, digamos, “ponderada” sobre a questão dos posicionamentos políticos na imprensa naquele contexto. e putz, quanta víscera, tem uma galera que anda escrevendo comentários com o fígado, não é possível…

  18. Muito bom Juremir!
    Engraçado os sujeitos te criticarem, chamarem de nota de rodapé e ainda se prestarem a postar comentários.
    E ainda podemos rir com um bobão que pensa que todos seres humanos com certa idade são iguais.

  19. Juremir disse:

    Ilustre desconhecido? Tu me conheces. É o que me basta. Eu sou modestamente o melhor do planeta. Não, o melhor da galáxia.

  20. MARCELO CIOTI disse:

    Uau!O Veríssimo se diz simpatizante do PT e
    se interna no Moinhos de Vento.Uau!Ele critica
    a imprensa e ganha uma bolada na RBS,Rede
    Baita Sol.Uau!Quem critica o Luiz Inácio é de
    direita mas quem apóia ele e Dilma é o Sarney.
    Uau!Rarará!!!!Parem o Brasil que eu quero
    descer!!!

  21. Zelmar disse:

    Agora o Juremir “verissimando”. Gostei de +!

  22. cesar zen disse:

    Prezado Juremir
    Não te conhecia pessoalmente. Conhecemo-nos em recente viagem a Cuba. Gostei de te conhecer e de ler tua coluna. Colocas uma reflexão que certamente deve fazer bem aos teus sentimentos mais íntimos em vista dos episódios que viveste no passado com respeito ao LFV. A vida, embora o lugar comum desta frase, é eivada de sentimentos conflitantes. Mas o importante, me parece, é não sofrer pelos fatos e pelos atos do passado. E sim ter um olhar dirigido ao futuro, aprendendo com o passado e desfrutando deste aprendizado, no presente, com um olhar de grandeza, assim como você está fazendo. Olhar este que supera as divergências e a pequenez. Este sentimento de superação de divergências e pequenez faz bem também a quem lê. Por isto te escrevo, para agradecer.
    abraços
    Cesar Zen Vasconcellos

  23. Leo disse:

    A direita teve exito ao “pedir a cabeça” de Verissimo em 1989.Ou melhor o proprio Verissimo se demitiu da “isenta e imparcial” revista veja as vesperas da eleição presidencial daquele ano quando censurou um artigo do escritor por considera-lo contrario ao candidato apoiado pelo panfleto direitista.

  24. Otavio Brandao disse:

    “Libertário” ? Ora, e direis…

  25. Joaquim Victoria disse:

    O texto é bom, como de costume. Mas num ponto ele se equivoca. Não sei qual veemência cobras do Erico. O Erico sempre se opôs a todos os regimes totalitários (seja o populista do Getúlio como o elitista dos milicos), com a arma que tinha em mãos, a escrita. Conseguiu ser odiado ao mesmo tempo pela direita e pela esquerda, pois colocava o humanismo acima de toda e qualquer ideologia. Os milicos censuraram o Incidente em Antares, no qual ele, metaforicamente, defende uma revolta popular contra um governo autoritário. Os milicos somente não censuraram o Noite porque a burrice crônica dos censores não conseguiram captar a mensagem kafkiana do Erico. Juremir, louvável a tua atitude. Ma preciso dizer uma coisa: pelas opiniões que externas nos teus textos, és mais parecido com o Erico do que imaginas. Isso é um grande elogio, cara.

  26. Carlos Lafuente disse:

    Juremir, você é um ilustre desconhecido. Não tem nem pinta nem nome de grande escritor. Quando tiver uns 50 anos de carreira talvez passe a ser respeitado, contanto que abandone esse seu ego grandiloquente e ridículo.

  27. Josué disse:

    Oportunista [2]

  28. rafael disse:

    quem é elegante não precisa dizer q é… oportunista!

  29. alemão disse:

    Juremir acredito que por ser intelectual e escritor o Sr Érico não tinha obrigação nehuma em se engajar em luta nenhuma . Ele escreveu obras maravilhosas . Incidente em Antares é a minha preferida .Como Carlos falou acima não podemos querer que os outros da maneira que eu acho correto .

  30. Renato Russowsky disse:

    Você auto definiu-se de modo exemplar:

    uma nota de roda-pé….

  31. Marcos Corbari disse:

    Esse é o pedido de desculpas mais original que já li. Hehehehe…

  32. Viviane disse:

    Parabéns.É sempre uma satisfação acompanhar o teu trabalho.

  33. Filipe disse:

    Oportunista

  34. fred disse:

    hipócrita

  35. Luiz Fernando Souza-POA-RS disse:

    Prezado Juremir. Parabéns pela parte humana,sem abrir mão de suas convições.
    Pode ser,agora seja Patrono da feira do livro.
    “se”meia noite,ou baita sol,não te boicotar…

  36. ZÉ FERNANDO disse:

    Grandeza deve ser elogiada sempre.
    Parabéns.

  37. deepthroat disse:

    todos os homens com mais de 50 sao iguais, um ego maior que um trem, totalmente ultrapassados , psicopatas, tarados por dinheiro e viajens idiotas pra frança, o exterminio de homens maiores de 50 anos resultaria numa melhor distribuicao de renda e menos pilantragem, que se vao os dois.

  38. Juremir, em 1983 eu na minha adolescência na PUC te achava um pentelho e no decorrer dos anos continuei a pensar assim mas fui alertada por uma amiga que na época fazia história – O Juremir não é mais aquele cara que conhecemos. A sua natureza contestadora continua a mesma, ainda bem e ao mesmo tempo você tem se transformado em uma referência como um dos melhores cronistas do país. Vou dizer algo que talvez você não goste – sinto tanto em você como em Veríssimo a mesma ironia que faz com que nos deliciemos com a leitura. Parabéns Juremir, não só o doutorado na França lhe fez bem mas seu amadurecimento e sua visão de mundo.

  39. PAULO TIMM disse:

    Oportuna e humana auto-crítica, que sem tropeçar no pieguismo, reflete sentimentos. No fundo, há entre V. e L.F.V. diferenças inevitáveis: vivências, formação, temperamente e perspectivas de vida. E a paixão dele pelo jazz, à falta de outros argumentos, justificaria qualquer outra lacuna…

  40. Pimenta disse:

    Duelo de “monstros”…. Grande Juremir e Grande Verissimo, e nós, só temos a ganhar.

  41. ana maria disse:

    Verissimo não precisa da tua torcida. Ainda mais de quem gosta de aparecer em cima dos fatos, verdadeiros ou não.

  42. carlos disse:

    Teu gesto é digno e reconhecer erro e fazer pazes sempre é elogiável. Acontece que tudo o que vemos e analisamos na vida parte, inexoravelmente, do nosso ângulo de vista, das “nossas circunstâncias”. Por isto cada “eu” tem suas atitudes, pensamentos e maneira de ser, ninguém é igual. Quem sou eu para querer que outrem pense e atue da maneira com que EU julgue correto??????? Este é sempre o “x” da questão que leva a inimizades e guerras: querer que o outro seja eu, pense como eu, aja como eu, porque EU sempre estou correto. Parabéns.

  43. Renato disse:

    Desculpe-me, mas que infantilidade não se cumprimentarem. Me surpreende isto, vindo de dois intelectuais tão esclarecidos. As pessoas tem que ser inimigas só por terem idéias discordantes?
    Não se pode ter um debate saudável sem brigar?

  44. Ademir Flores disse:

    Juremir,
    Sinto uma ponta de orgulho por ser Santanense.

  45. Theo Cruz disse:

    Evidentemente, o bando de carniceiros, sempre a espreita de uma oportunidade de te atacar, o fará de modo impiedoso agora, te chamando de oportunista.

    Eu, por minha vez, parabenizo-te pela postura em demonstrar solidariedade e reconhecimento aos méritos de um grande, colocando tal questão acima de orgulhos e desavenças pessoais. Pois poderia muito bem ter ignorado o assunto, deixa-lo passar batido. Evitaria uma série de comentários insultosos…

    Parabéns pela conduta.