Porto Alegre, segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

  • 15/03/2014
  • 10:32
  • Atualização: 10:35

Paraísos remotos sobre o olhar de Sebastião Salgado

Em entrevista, fotógrafo fala da exposição “Genesis”, em cartaz na Usina do Gasômetro até 12 de maio

Leila e Sebastião durante abertura da exposição na Usina do Gasômetro | Foto: Ricardo Giusti

Leila e Sebastião durante abertura da exposição na Usina do Gasômetro | Foto: Ricardo Giusti

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  • Adriana Androvandi / Correio do Povo

Sebastião Salgado é considerado um dos grandes fotógrafos do nosso tempo. As características de seu trabalho recaem sobre o fato de usar com maestria o contraluz e o preto e branco. Ao ver a figura de um homem de 70 anos, careca e com as sobrancelhas brancas, fica-se pensando no que seus olhos já não viram ao longo de suas viagens pelo mundo. A mostra de fotografias “Genesis” permite descobrir um pouco.

Salgado esteve em Porto Alegre, ao lado da mulher e curadora da exposição, Lelia Wanick Salgado, para a abertura da mostra, que segue aberta à visitação até o dia 12 de maio na Usina do Gasômetro, dentro da programação do 7º FestFoto - Festival Internacional de Fotografia. “Genesis” é o resultado de oito anos de trabalho em mais de 30 viagens a regiões remotas do globo. Além de Porto Alegre, outras cidades que recebem núcleos da mostra são Cingapura, Estocolmo, Madri e Veneza. Além disso, há 24 museus na espera para receber a exposição.

O fotógrafo explicou que o projeto de “Genesis” surgiu em um momento difícil de sua vida, depois da mostra “Êxodos” (1994-1999), também apresentada em Porto Alegre. “Vi coisas terríveis em países como Ruanda e ex-Iugoslávia, que me afetaram profundamente”, disse. Por isso, no ano 2000, ele se sentiu desesperado em relação a si mesmo e à sua espécie (a humanidade) e ao que estava fazendo com o planeta. Radicado em Paris, ele veio ao Brasil para resolver questões familiares e foi a uma fazenda da família, onde depois começou um projeto ecológico de replantio da Mata Atlântica e o desenvolvimento do Instituto Terra. A partir daí, nasceu a vontade de fotografar a natureza e lugares de difícil acesso, onde há homens que vivem da mesma forma como há 10 mil anos.

Para o fotógrafo, as comunidades que conheceu (no caso dos indígenas, chamou-os de “guardiões da floresta”), ele diz que há diferenças, mas encontrou sobretudo semelhanças. “O amor entre homem e mulher, o amor pelos filhos, não muda muito. Todos temos.” A solidariedade é uma atitude que se entende independentemente da língua. Salgado também defende que, mesmo para se fotografar um bicho, é necessário respeito. “Todas as espécies são racionais. Mas é preciso tempo para entender a lógica do animal”, opina. Para ele, o fotógrafo não deve se impor. “É preciso observar o ambiente, ver a luz mudar, criar uma inter-relação com os seres vivos daquele espaço e, finalmente, esperar ‘a fotografia nascer’.”

“Talvez o que mais aprendi com esse projeto foi uma viagem ao interior de mim mesmo, sentir que sou parte de um sistema maior”, revelou. Dessa forma, Salgado diz que sai de “Genesis” com um pouco mais de esperança em relação ao planeta e à sua capacidade de se regenerar. “Saio sem dar valor excessivo à espécie humana”, contou. “Acho que nossa espécie não vai durar muito”, opinou. Mas considera positivo o despertar que observa em relação à conscientização com a preservação e a recuperação da natureza.

Dessa forma, ele se mostrou preocupado em relação ao projeto do Pré-Sal brasileiro. Para ele, poços de captação abaixo de 6 mil metros de lâminas de água são uma ameaça constante. “Se houver um problema, o prejuízo ambiental pode ser incalculável”, alertou. Salgado diz que, em suas viagens, já observa o efeito avassalador das mudanças climáticas. “As marés estão subindo em vários locais, como nunca ocorreu antes”, concluiu. Para o fotógrafo, o planeta já está cobrando o que a humanidade fez. Dessa forma, ele acredita que sua exposição em si não tem poder de mudança, mas aliada a outros movimentos pode, de alguma maneira, produzir resultados em relação à natureza.

Além da fotografia, Salgado e Lélia também estão envolvidos em projetos ecológicos nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. O próximo, previsto para 2015, é o projeto que prevê a recuperação do rio Doce, o que inclui a proteção e a recuperação de suas nascentes. Conforme Salgado, esse projeto deve ter um custo de aproximadamente R$ 3 bilhões. “Pode parecer muito, mas isso é o preço de quatro ou cinco caças para bombardeio”, diz o fotógrafo dando referência.

Além da exposição, a Usina do Gasômetro irá exibir, a partir de terça-feira, o documentário “Revelando Sebastião Salgado”, de Betse de Paula. O filme acompanha uma visita da diretora à casa e à agência de imagens do fotógrafo em Paris, onde ele mora, quando Salgado relata diversas experiências de sua vida.

Na próxima terça, a diretora estará presente para debater com o público o filme que dedicou a Salgado (somente terça sessão gratuita, nos demais dias será cobrado ingresso). Porto Alegre será a primeira cidade a exibir o documentário, que estreou no Festival de Gramado em 2013. A partir desta quarta, entra em cartaz na Sala P. F. Gastal da Usina, com uma sessão diária em horários alternados a cada dia.

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