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04/02/2014 09:05 - Atualizado em 04/02/2014 09:14

Salva-vidas fazem história no litoral gaúcho

Profissão surgiu no início dos anos 50, em Tramandaí

Zézio trabalhou por 32 temporadas como salva-vidas
Crédito: Fabiano do Amaral

A história do salvamento aquático no Rio Grande do Sul é relativamente nova. Não se sabe exatamente quando começou. O fato é que os salva-vidas, como os conhecemos hoje, começaram a aparecer conforme a população gaúcha criava o hábito de ir para o Litoral durante o verão - em princípio como um método de cura para enfermidades e posteriormente, como diversão.

Conforme artigo do presidente da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), o coronel da Brigada Militar Joel Prates, no início da década de 1950, em Tramandaí, um grupo de abnegados pescadores se postavam à beira-mar para resgatar os veranistas que corriam o risco de se afogar. Estes não recebiam remuneração, apenas o reconhecimento daqueles que eram salvos.

Na década seguinte, as prefeituras das praias mantinham um corpo de salvamento, sempre formado por moradores locais. Em 1968, a pedido da Prefeitura de Torres, o então Corpo Marítimo de Salvamento, da Marinha, passou a ministrar conhecimentos técnicos de salvamento, através de um curso de guarda-vidas. Em 1970, a Brigada Militar, através do 8º BPM, assume o serviço de salvamento, empregando alguns homens de seu efetivo e suprindo a demanda, em sua maioria, com pescadores.

Um dos que se incorporaram ao efetivo de salva-vidas foi o pescador José Oliveira Rodrigues, 55 anos, para os amigos, Zézio. Ele entrou, aos 18 anos, para o corpo de salvamento em 1976 e ficou por 32 temporadas, sempre em Imbé. Rodrigues lembra que um carro saía pelas ruas da cidade anunciando a abertura das contratações para salva-vidas. Era por três meses e o horário de trabalho era das 13h às 15h. “Em geral, quem era contratado em um ano, no seguinte, também tinha vaga garantida e o salário, para nós, era uma fortuna”, lembra. “Era uma grande correria, pois Imbé tinha apenas três guaritas e nos revezávamos de uma para outra”, recorda.

O teste, segundo Rodrigues, era bastante rigoroso e o candidato tinha que provar ser forte para aguentar o serviço e ainda demonstrar um bom conhecimento da topografia do mar. “Era uma época em que o civil tinha que mostrar ser forte, mesmo”, afirma Rodrigues. “E nós mostrávamos isso”, garante o salva-vidas aposentado.

Em março de 1980, Rodrigues recebeu um envelope com o pagamento do serviço prestado na temporada passada. O que lhe chamou a atenção foi que em cima estava a pergunta se o destinatário desejava entrar para a BM. “Resolvi entrar para o quadro e me reformei como sargento”, contou.

Mais de mil resgates e nenhuma perda

O salva-vidas mais antigo em atividade no Estado encerra a carreira em Imbé, este ano, com um saldo de mais de mil resgates no mar e sem nenhuma morte. O 3º sargento Paulo Roberto Barrin Joaquim, 48 anos, atua na operação Golfinho desde 1983. Nesse tempo todo, ajudou a evitar muitos afogamentos e também no trabalho de prevenção. De família de pescadores, Barrin, como é conhecido, sempre teve intimidade com o mar. Nascido e criado em Tramandaí, seguiu o caminho dos irmãos, que se tornaram salva-vidas civis. “Eu sempre admirei muito esta profissão”, disse ele. Em 2015, o Litoral Norte não terá mais Barrin zelando pelos banhistas. Talvez ele esteja aproveitando a praia nas férias do serviço no 25º Batalhão de Polícia Militar (BPM), em São Leopoldo, onde atua. Pai de cinco filhos, no próximo ano pretende dar mais atenção aos mais novos, de 15 e de 6 anos de idade.

Quase três décadas de salvamentos

Há 29 anos na operação Golfinho, o 3º sargento Itamar Pedroso Bernardes, de 54 anos, vai encerrar a última temporada atuando na guarita 29, no balneário de Arroio do Sal. Esse número foi imposto, mas tende a dar sorte, já que também é a idade do seu único filho. Com nota máxima nos testes de aptidão física, ele não gostaria de parar, porém esta é uma exigência da carreira. “É muito gratificante salvar vidas. Nunca ninguém morreu em mais de 150 salvamentos em que atuei”, contou.

Ele gosta de lembrar que já foi o super-herói de muita gente. Há 20 anos, um menino resgatado disse que os salva-vidas eram exemplo melhor do que personagens dos quadrinhos como o Super-Homem e o Homem-Aranha.

Durante todos esses anos, ensinou e aprendeu muito com os colegas. Hoje, um dos salva-vidas mais jovens, Marcos Franceschi, 27 anos, divide a guarita com ele. “É um privilégio fazer meus primeiros salvamentos com ele e aprender com a experiência”, disse o novato com orgulho.

Cardoso estava na primeira turma

Quando a BM assumiu o socorro no mar durante o veraneio, queria pessoas que soubessem nadar para integrar a equipe. Pescador e morador de Imbé, José Cardoso, 70 anos, passou em todos os testes e começou a integrar a corporação em 1970, quando foi criada a primeira turma da operação Golfinho. “No início, era só a gente e o mar, não tinha toda essa estrutura”, comentou. Como bom pescador, sabia todos os segredos das correntes e como vencer o mar para resgatar quem estava se afogando. Eram de 20 a 30 salvamentos por dia, segundo ele. A mulher dele, também pescadora, Neli Dias Cardoso, 64 anos, conta que mesmo nos dias de folga, havia gente para chamar o marido para salvar alguma vítima.

Depois de sete anos, Cardoso sofreu um acidente, fraturando o braço em várias partes, e teve de se aposentar. Até hoje sonha com o trabalho de salva-vidas. No início era mais frequente. No entanto, continua acordando, vez que outra, com a sensação de estar tirando alguém do mar.

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Fonte: Correio do Povo






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