Porto Alegre, segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

  • 26/03/2014
  • 07:44
  • Atualização: 08:13

Porto Alegre: uma cidade acolhedora

Bailarino argentino conta que Theatro São Pedro é um dos seus locais favoritos

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  • Correio do Povo

Quando se fala em tango na Capital, o primeiro nome que surge é o do bailarino argentino Valentin Cruz, que comanda o Tanguera Estudio de Danza, também conhecido como "um cantinho de Buenos Aires em Porto Alegre". Marcelo Valentin Silva, 46 anos, nasceu em Buenos Aires, mas vive há 15 anos na cidade que o acolheu com carinho. Ele, porém, adotou o nome artístico de Valentin Cruz. Como todo argentino, é um apaixonado. Seu amor por uma dançarina de flamenco foi o que o fez trocar a capital portenha pela gaúcha. Tatiane Flores, que é professora da Del Puerto Escola de Flamenco, arrebatou o coração do argentino. Com ela teve seus dois filhos: Pablo, 17 anos, e Vinícius, 16 anos, ambos nascidos em Buenos Aires.

Valentin conheceu Tatiane durante um workshop em Porto Alegre. "Nós nos casamos lá, mas ela sentiu saudades de casa, dos familiares, já que eu vivia viajando pela Europa e Estados Unidos. Voltamos. Nunca mais fui embora, apesar de o casamento ter sido desfeito", confidencia. O argentino passa a maior parte do tempo no bairro Floresta e é facilmente encontrado no Shopping Total, onde faz suas refeições e compras. Mas, em Porto Alegre, o Theatro São Pedro é seu local favorito. Ali, acompanhado da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, da Orquestra Sinfônica da Unisinos, de Carlitos Magallanes e Hique Gomes, realizou seus maiores shows. "Meu maior prazer foi poder bailar o tango cantado pelo meu filho Pablo", diz, emocionado.

O bailarino argentino gosta dos porto-alegrenses. Na Catedral del Tango em Porto Alegre, Valentin Cruz ensina aos gaúchos os passos do tango e realiza duas vezes por mês "Las Milongas", que são bailes de tango dos quais participam cerca de 90 pessoas. Ele também é o organizador do 5 Festival Internacional de Tango de Porto Alegre, que ocorrerá neste ano e homenageará Lupicínio Rodrigues e Aníbal Troilo.

Goiano que venceu no Sul


A migração do goiano do povoado de Areia, no interior de Piracanjuba (GO), para Porto Alegre tinha tudo para dar errado. Três dias antes de 16 de fevereiro de 1978, Sebastião Melo, hoje vice-prefeito da Capital, embarcou em um ônibus com destino a Porto Alegre. Com pouco dinheiro e nenhum conhecido, ele teve sorte de encontrar Terezinha, que sentou ao seu lado durante a viagem. Ela indicou uma casa de estudantes na Riachuelo, sem saber que ali só aceitavam universitários. "E eu tinha só um diploma amarelinho de 1 grau (ensino fundamental)." Melo foi então parar numa residência na rua Fernando Machado. "A casa já era velha naquela época, com banheiros sujos e sem chuveiro quente. No inverno, ou se esquentava água e se tomava banho de gato ou se encarava água fria."

Apesar de poucas flores e muito perrengue, o vice-prefeito acredita que venceu na vida. "A regra em Goiás é crescer, capinar roça, casar com a filha do vizinho, construir uma casa e ter cinco filhos. Eu tinha uma vontade louca de sair daquela vida", admite. Foi da convivência com gaúchos migrantes em Goiás que surgiu a vontade de se mudar para o Sul. "Eles tomavam chimarrão, faziam churrasco e colocavam música tradicionalista. Quem me vendeu mesmo o Rio Grande foi Teixerinha", revela.

Trinta e seis anos após a chegada, Melo ainda mantém um hábito antigo: caminhar pela cidade. Apesar de ter comprado o primeiro carro na década de 80, ele costuma se deslocar até o Paço de transporte público. Morador da zona Sul desde 1997, com dois filhos gaúchos, e formado em Direito, Melo não esconde seu amor pelo Centro. "Ou é nosso bairro original ou sempre nosso segundo bairro", observa. "Ser gaúcho é um estado de espírito. Eu adotei essa cidade, mas ela também me adotou. É uma paixão recíproca. Sou duplamente gaúcho porque escolhi morar aqui".

Descobrindo-se no Araújo

Os olhos de Loma Pereira brilham quando ela fala sobre Porto Alegre. Nascida em Recife, foi registrada em Guaíba com 3 meses de idade, após a mudança da família para a Capital por causa do trabalho do pai: ele era telegrafista de navio no Cais do Porto. A carreira profissional de cantora iniciou-se em 1971, gravando um jingle de aniversário para a Capital. "Naquele dia, o dono do estúdio gostou da minha voz e me convidou para fazer parte do casting", recorda. A vontade de cantar, no entanto, é anterior. Foi na escola que Loma descobriu seu talento artístico. "Sempre gostei de cantar. Eu me descobri cantora no coral da escola. Tínhamos uma professora maravilhosa, a Cecília, que nos colocou em todos os programas infantis de televisão."

No palco do Araújo Vianna, que, na época, ainda era a céu aberto, aos 12 anos, Loma fez sua primeira apresentação para um grande público, cantando em italiano a ópera "Aida". "As mulheres iam de casaco de pele, porque ópera sempre foi uma coisa elitista. Elas lotaram o Araújo para assistir à 'Aida'. No palco do Araújo decidi que cantar era o que eu queria para a vida."

Loma nutre um fascínio por água. "Os afrodescendentes têm uma ligação muito especial com a água. A gente cruzou o mar e toda a cultura africana se desenvolveu no litoral brasileiro. Tudo que tem mar e água, eu acho fantástico." O catamarã, que faz a travessia entre Porto Alegre e Guaíba, desde 2011, é um dos passeios preferidos na Capital. "A melhor coisa é poder ver Porto Alegre do Guaíba, uma orla que a gente não tinha acesso e que agora esse passeio nos proporciona", comenta.

Apesar de - como ela mesma define - já ter "dado um giro" pelo Brasil durante três anos, quando voltou para Porto Alegre se deu conta de que a cidade tem um cheiro especial. "Estava roxa de saudade. O porto-alegrense é franco e hospitaleiro. Aqui não tem meias palavras", define a cantora. Atualmente, Loma vive no bairro Auxiliadora, casada com um porto-alegrense. "Trilhei várias cidades brasileiras, mas, atraída pela hospitalidade porto-alegrense, me encantei com a diversidade étnica, a beleza arquitetônica e a riqueza artística dessa cidade."

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