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05/05/2014 07:35 - Atualizado em 05/05/2014 08:09

Caminhoneiros ficam até quatro dias sem dormir

Além de drogas, motoristas também podem "comprar sexo" nos pontos de parada

Caminhoneiro gaúcho admite ter dirigido por quatro dias seguidos sob o efeito de anfetaminas
Crédito: Mauro Schaefer

Histórias de verdadeiras loucuras feitas por caminhoneiros usando rebite ao volante são abundantes. É o caso de um desses profissionais que, em 24 de abril, estava em um posto de combustível, em Carazinho. Ele deu uma parada, segundo disse, para "descansar" e partiria no dia seguinte para São Paulo, com uma carga de hortifrutigranjeiros.

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Com 1,80 m de altura, comunicativo, Antônio (o nome é fictício), 20 anos, após estacionar no meio de outros "brutos" - apelido dos caminhões -, desceu da cabine e foi conversando com quem estava por perto. Oriundo de uma cidade próxima de Três Passos, com sotaque típico dos descendentes de italianos, quando soube que dois dos presentes eram repórteres do Correio do Povo e da TV Record RS, comentou sobre o caso Bernardo, perguntando se havia novidade.

Durante a conversa, não se negou a falar sobre o uso do rebite. Disse que usou a anfetamina por algum tempo e garante ter parado com a droga, apesar de ainda manter uma cartela, ainda com três comprimidos, na boleia do seu caminhão. "Muitos usam drogas devido à necessidade de cumprir o horário das entregas", justifica. Solteiro e morando com os pais, no ano passado ele começou a atuar no transporte interestadual. Em uma das viagens, teve contato com o rebite.

Estava cansado, mas precisava chegar no horário a São Paulo. Um colega lhe ofereceu um comprimido. "Se nos atrasamos, muitas vezes perdemos a vez de descarregar", conta Antônio. "Temos que ir para o fim da fila e perdemos a carga, que é perecível, e dinheiro", justifica. Em junho de 2012, em uma viagem para Pernambuco, saindo de Porto Alegre, não teve dúvidas: usou a anfetamina para "render mais". Diluiu quatro comprimidos em uma garrafa de água mineral, sem gás. Resultado: ficou 96 horas com os olhos abertos, sem saber ao certo se estava dormindo ou acordado.

Por sorte não se envolveu em nenhum acidente. Quando chegou ao destino, estava confuso em relação ao horário. "Olhava no relógio e ele marcava 11h", lembra. "Pensava que ainda era noite. Achava que era impossível ser aquele horário e ter sol", relata. A sensação causada, de acordo com ele, é de confiança, dando a impressão de que o sono não chega. Em certos momentos, mesmo estando com os olhos abertos, admite que não tinha noção do que ocorria na rodovia. O corpo fervia e o coração batia descompassado. "Você não pensa em nada quando toma o rebite", afirma. "Fiquei com os olhos abertos, agarrado na direção, cerrando os dentes. Me transformei num zumbi".

Drogas e sexo presentes nos pontos de parada

Não são apenas drogas que os caminhoneiros podem comprar nos postos de combustível, quando param. O sexo também é oferecido. Em Carazinho, em um posto de combustível da entrada da cidade, garotas, em uma versão gaúcha de call girl, oferecem o "serviço" aos motoristas por R$ 50. Uma delas, Jeniffer, disse ter 18 anos, apesar de aparentar bem menos. Ela e uma amiga visitam o local todas as noites, como ocorreu na noite de 24 de abril. Normalmente quando chegam já agendaram algum programa. Em outras ocasiões, recebem uma oferta.

Jeniffer não larga o telefone celular, pois é através do aparelho que os caminhoneiros solicitam o serviço. "Como repetem muito a mesma rota, já me conhecem", diz. "Eles têm o meu número e quando estão chegando na cidade, me ligam", completa. Elas normalmente permanecem por 2 horas (das 20h às 22h) fazendo trottoir por entre os caminhões e as carretas.

Ela afirma que não há saídas para motéis. O programa é feito na boleia do caminhão. Algumas vezes, salienta ela, o caminhoneiro não procura exatamente sexo. Quer desabafar, falar da vida e da família. "Eles falam das dificuldades com a família deles e nós das nossas", revela. "Somos quase como psicólogas", compara a garota, cujos pais sequer imaginam onde ela "trabalha". O dinheiro compensa. Por semana, fatura quase R$ 1 mil. Bem mais, de acordo com ela, do que é pago nas empresas da cidade. "O problema é meus pais não saberem de nada. Digo que vou na casa de uma amiga para conversar", revela.

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Fonte: Paulo Roberto Tavares / Correio do Povo






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