Porto Alegre, sábado, 25 de Outubro de 2014

  • 27/06/2014
  • 14:26
  • Atualização: 10:28

Os 100 anos da Guerra que formou o século XX

Historiadores analisam o conflito que vitimou mais de 10 milhões de pessoas

Primeira Guerra Mundial matou 10 milhões de pessoas | Foto: AFP / CP

Primeira Guerra Mundial matou 10 milhões de pessoas | Foto: AFP / CP

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  • Bruna Cabrera / Correio do Povo

O dia 28 de junho marca os 100 anos do atentado que deu início à Primeira Guerra Mundial. O conflito que mudou a história da humanidade reuniu as principais nações europeias e matou cerca de 10 milhões de pessoas entre 1914 e 1918. “A Europa se suicidou nessa guerra. Sistemas políticos foram implodidos. Foi o nascimento do século XX”, ressaltou o historiador, professor de Relações Internacionais da Ufrgs e autor do livro “A Primeira Guerra Mundial e o declínio da Europa”, Paulo Visentini.

A morte do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, herdeiro direto do trono do Império Austro-Húngaro, foi um dos motivos que ocasionou o Ultimato de Julho. O ato levou ao início da Primeira Guerra Mundial, deflagrada oficialmente um mês depois, em 28 de julho de 1914, quando a Áustria-Hungria declarou guerra a Sérvia.
Ferdinando foi morto a tiros pelo sérvio da Bósnia Gavrilo Princip, de 19 anos, que posteriormente se autodeclarou anarquista radical. Ele era integrante da Mão Negra, uma organização nacionalista que tinha como forma de expressão política o terrorismo.

Para a professora da pós-graduação de História da Pucrs Cláudia Fay, a morte foi uma “faísca” para desencadear o conflito. As causas para a declaração da guerra, segundo ela, seriam muito mais profundas. “O incidente poderia ter passado em branco. O terrorista poderia ter sido julgado. Não era motivo para entrar numa guerra, mas os interesses que já existiam anteriormente tomaram força depois do episódio”, afirmou.

O sistema de alianças e o imperialismo contribuíram para a eclosão da Primeira Guerra Mundial. “A Inglaterra e a França já tinham colonizado todo o mundo conhecido. A Alemanha e Itália chegaram depois. A América já estava fazendo sua independência e a corrida por terra também foi um dos motivos para a guerra. Países que estão crescendo, como a Alemanha, se industrializam, produzem muito, mas pra quem vão vender? Isso deixava um clima”, explicou Cláudia. Os países, então, se dividiram em duas alianças. A Tríplice Entente, que era liderada pelo Grã-Bretanha, França, Império Russo e, mais tarde, também pelos Estados Unidos. E a Tríplice Aliança, conduzida pelo Império Alemão, era formada pelo Império Austro–Húngaro e a partir, de 1915, pela Itália.

Guerra breve?

“Os países estão se preparando para uma guerra, mas a população não está sabendo muito”, explicou Cláudia, deixando claro que era uma guerra de “gigantes”. A população acreditava que a guerra seria breve. “Os soldados achavam que no natal estariam em casa”, diz Cláudia.

No entanto, a tecnologia mudou a cara do conflito. “A Primeira Guerra foi irracional e violenta e, principalmente, industrial. A disponibilidade e a qualidade dos armamentos eram muito grandes, assim como a percentagem de pessoas que a sociedade industrial conseguiu colocar em batalha”, afirmou Visentini. Canhões e tanques de guerra obrigavam que os confrontos fossem à distância e os embates passaram a ser praticamente imóveis. A fase das trincheiras se caracterizou pela sensação de aperto, retratada em fotografias da época. Os soldados cavavam túneis e andavam em centímetros. A estimativa é de que 10 milhões de pessoas tenham morrido e mais de 20 milhões tenham ficado feridas.

A entrada dos Estados Unidos, em 1917, marcou o começo do fim da Primeira Grande Guerra. A renovação do espírito combatente deu novos ares para a Entente, deixou a guerra em desequilíbrio e obrigou os países da Aliança a assinar a rendição.

A nação que mais sofreu consequências após o conflito foi a Alemanha. O Tratado de Versalhes foi assinado pelas principais potências, mas os germânicos foram obrigados a assumir a culpa pela guerra. Com a queda do imperador Guilherme II, o país contraiu as dívidas de guerra e se comprometeu em pagar indenizações a famílias que sofreram perdas nos combates. Além disso, devolveu a região da Alsácia da Lorena para a França.

O impacto da derrota e do Tratado do povo alemão acabaria sendo o propulsor para o início da Segunda Guerra Mundial. “Em comparação com um jogo de futebol, o primeiro tempo da partida foi a Primeira Guerra Mundial e o segundo tempo, a Segunda Guerra Mundial. A gente divide, mas é um episódio só”, explica a historiadora Claudia Fay.

Pessimismo

O conflito que começou em 1914 marcou profundamente toda uma geração. Culturalmente, surgiu uma visão mais pessimista do mundo. “Filmes de realidade sombria, uma geração de sobreviventes amargurados. Surgiu uma forma de arte surrealista, dadaísta. Mal sabiam que o pior viria em seguida”, diz Visentini se referindo à Segunda Guerra Mundial.







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