Ed Sheeran encanta Porto Alegre com seu violão, romantismo e simplicidade

Ed Sheeran encanta Porto Alegre com seu violão, romantismo e simplicidade

Na noite de seu aniversário, músico apresentou show para 40 mil pessoas na Arena do Grêmio

Eric Raupp

Cantor desfilou seus hits tomados por sentimentalismo e significados pessoais

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Ed Sheeran é um artista fora da curva no mundo pop. Enquanto a maioria de seus contemporâneos usam e abusam de danças, efeitos imagéticos e sonoros em seus trabalhos e shows, o britânico mantém a simplicidade de quem está começando na carreira e não tem experiência para entreter multidões, ou de quem não é um dos principais nomes da música na atualidade. Na noite de domingo, data em que comemorou seus 28 anos e uma sólida trajetória profissional, foi o cantor que entregou ao público um presente, apresentando em Porto Alegre uma versão gigantesca de um show no melhor estilo pub: intimista, com quase nada além de um violão, um pedal de loop e um microfone. A Arena do Grêmio, lotada por 40 mil pessoas, assistiu à “Divide”, a turnê mais lucrativa de 2018, na qual o cantor desfilou seus hits tomados por um constante sentimentalismo e significados pessoais.

Em pontualidade característica dos ingleses, Ed apareceu nos telões exatamente às 21h, ainda no backstage, caminhando ao palco. Foi o suficiente para o ambiente ser tomado pelos de gritos da plateia que sufocou os acordes iniciais de “Castle on The Hill”, sua faixa tirada do disco que nomeia a tour e é inspirada em suas memórias de infância. Vestido de maneira casual - calça jeans e uma camisa - ele mostra desde o começo que não precisa de muito esforço para conquistar, bastam seu carisma e energia. Estava rasgando sorrisos e, no meio da música, soltou um “Porto Alegre, como vocêe está se sentindo?”, em um português carregado de sotaque. 

Seu aniversário foi justamente o mote para sua primeira interação com a plateia. "É o mais longe que eu estou de casa no meu aniversário. Obrigado por terem vindo" disse. “Eraser”, com sua batida meio fantasmagórica e elementos tradicionais da cultura irlandesa, veio na sequência. “É incrível saber que é a primeira vez que algumas pessoas da plateia estão vendo um show meu. Tenho performado há muito tempo”, falou, destacando que, desde então, canta algumas das faixas que apresentava em bares e nas ruas, como “The A Team”. Do disco “+”, é um dos seus maiores sucessos, com o qual começou sua escalada à fama e deu continuidade à equação musical da noite. Foi arrebatadora, às luzes das lanternas dos celulares.

"Don’t" mostrou um lado mais enérgico e foi precedido por "Dive", uma balada sexy e cheia de pausas dramáticas. "Não me chame de bebê... a menos que você queira dizer isso", cantou, dividindo os vocais com boa parte da plateia eufórica que entoava o refrão a plenos pulmões. É verdade que muitos ali não conheciam todas as músicas e compraram ingresso embalados pelos hits que recentemente chegaram ao topo das paradas ou acompanhavam seus filhos e namoradas sem fazer a menor ideia de quem é Ed Sheeran. A esses, o astro da noite deixou uma mensagem: “vocês tiraram tempo do seu dia para ir a um lugar que não queriam ir e fazer alguém que vocês amam feliz. Sou muito grato por isso”.

Em “Bloodstream”, mostrou um lado mais maduro versando sobre “as vozes em sua cabeça”, enquanto os telões pintaram-se de vermelho, justamente como uma corrente de sangue. Na dinâmica do espetáculo, frequentes conversas que quebravam o ritmo, mas permitiam o contato com o público. Foi num desses bate-papos que o inglês comentou sobre seus dotes para a composição. São vários os artistas cujos hits foram escritos por ele. Para a noite, pinçou desse repertório “Love Yourself”, de Justin Bieber. O britânico emendou a melancólica e belíssima “Tenerife Sea”, numa entrega assistida em silêncio. “Kiss Me” e “Hearts don’t break around here” seguiram a seção.

Ed formou sua própria orquestra em “Give Me Love”, durante a qual pediu que todos cantassem um “oh” em harmonia enquanto ele interpretava os versos. A cada troca de música, o público ensaiava um “Parabéns para você" em inglês, mas estava difícil engajar toda a multidão. O canto, que vinha das arquibancadas ganhou força antes de “Galway Girl”, mas os acordes e o retorno nos ouvidos do artista certamente não permitiram que ouvisse. Ele deu continuidade ao seu cod-irlandês, que ganhou uma recepção acalorada com o público aplaudindo e cantando junto.

Mas foi com “I see Fire” que o aniversariante deu início ao ápice da noite. A música do filme "O Hobbit: A Desolação de Smaug” serviu de prelúdio para o sucesso absoluto de “Thinking out lout”. Se faltaram mil estrelas no céu para que os casais se beijassem, como sugere a letra, elas foram compensadas pelas lanternas dos celulares que lentamente balançavam no ar, seguradas por mãos trêmulas de emoção. Para arrematar o público, “One” e “Photograph”. É, sem dúvidas, o auge, onde as harmonias do britânico se encontram com a dos fãs e emoção toma conta. A olhar para os lados, não foi difícil perceber que o choro lavara os rostos de várias pessoas. “Perfect” fechou o momento colocando os apaixonados para “dançar no escuro”, juntinhos, com os isqueiros e telefones iluminando a Arena como vaga-lumes.

“Nancy Mulligan” e sua pegada celta agitaram o ambiente até que Ed anunciou que cantaria a última música, “Sing”, de seu primeiro álbum. E, assim como o nome da faixa diz, a multidão cantou até o artista repentinamente desaparecer do palco e os telões se apagarem. Não precisou nem de gritos para que ele retornasse para o bis. Trajado com a camisa amarela da seleção brasileira de futebol, voltou ao seu posto e colocou um chapéu de festa para interpretar “Shape Of You”. Ao som da trilha mais ouvido da história do Spotify, corpos de diferentes formas e idades dançavam em clima e alegria e celebração. Teria sido um excelente final, com a artista encerrando sua passagem pelo Brasil com a faixa que o consolidou na indústria, mas o britânico optou por fechar com uma menos conhecida, a intensa e enérgica “You Need Me, I don’t need You”.

Ed Sheeran pode não ser a cara e o visual de uma estrela pop, mas seu comportamento e a intimidade com a qual trata cada de um de seus espectadores em meio aos milhares que o assistem fazem com que ele brilhe. É um cantor cheio de alma, que fecha os olhos enquanto canta os refrões e torna sua entrega perceptível. Ele tem um domínio absurdo sobre seu público, se apresentando como um contador de histórias e causos capaz de sustentar duas horas de apresentação para um estádio lotado apenas com seu charme, romantismo e simplicidade. Poucos artistas solos conseguem isso, afinal, nenhum outro é o ruivo mais famoso da música que às vezes parece esquecer o tamanho de sua fama.

Passenger arrebata plateia

“Só tenho uma música famosa, então espero que vocês não se importem que eu cante ela sete vezes”, disse Michael Passenger, que nos palcos responde pelo sobrenome, em um típico humor inglês, brincando sobre sua faixa “Let Her Go”.  O músico, muitas vezes confundido como uma banda, foi o responsável pelo show de abertura, E, se não era muito conhecido pelo público, certamente se fez notar e surpreendeu com canções que foram muito bem recebidas. O músico de 34 anos fez uma apresentação com vocais potentes, claros e penetrantes que preencheram os quatro cantos da Arena.

Ele não escondeu a emoção de estar na América do Sul pela primeira vez e chorou após interpretar a faixa que o consagrou no estádio iluminado pelos celulares. Recordou quando tocava em pubs e afirmou que não “esperava que fosse fazer tanto sucesso e tocar tanta gente ao redor do mundo”. No repertótio também entregou os singles "Suzanne", "I hate", "Hell or High Water" e  "Survivors". Outro momento marcante foi sua versão melancólica de “The Sound of Silence”, clássico dos gênios do folk Simon e Garfunkel.


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