Ilustrador Roger Mello ministra oficina para crianças e famílias em Caxias do Sul
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Ilustrador Roger Mello ministra oficina para crianças e famílias em Caxias do Sul

Proposta do escritor brasiliense é promover expressão visual através da imagem

Por
Luciana Vicente

Trabalho do ilustrador e escritor Roger Mello já percorreu diversos países

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Um encontro com o premiado ilustrador e escritor brasiliense Roger Mello é sempre uma oportunidade para entrar em contato com o desenho, a palavra e o livro. Neste domingo, à tarde, ele esteve em Caxias do Sul para ministrar a oficina “O Traço e a Liberdade”, para crianças e suas famílias, no Instituto de Leitura Quindim no Centro Cultural Moinho da Cascata. A sua proposta é promover a expressão visual através da imagem e perceber como a criança cria novas realidades, como conversa com a poesia, faz as leituras do mundo, numa interação com a família. Segundo Mello, por meio do traço (desenho), a criança lida com as questões dela, estabelece simulações com a vida, mesmo a partir da fantasia. “O traço é uma invenção da humanidade; um traço abstrato é uma liberdade, um artifício que permite à criança estabelecer um diálogo com o adulto”, pontua. Nesta interação, o livro aparece como um provocador e um ponto de partida para a partilha entre os participantes da oficina. 

A liberdade do traço e do desenho suscitadas por Mello estão presentes em mais de 100 títulos com suas ilustrações. Seus desenhos foram expostos em exposições individuais na Coréia do Sul, Itália, Taiwan, França, China, Japão, Alemanha, Colômbia, Peru, México e Rússia. É de sua autoria a capa para o Annual Illustrators Catalog 2015, na Feira do Livro Infantil em Bolonha (Itália). Ele foi o primeiro ilustrador brasileiro a ganhar o Prêmio Internacional Hans Christian Andersen, em 2014. 

Além de ilustrador, Mello também é escritor e dramaturgo, tendo sido premiado pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra e recebido dez vezes o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Este ano, ele esteve na Coreia do Sul, onde ministrou oficinas para crianças, e acaba de voltar da II Festa Literária Internacional do Xingu, no Pará. Atualmente, o escritor se dedica ao “Espinho de Arraia”, com previsão de lançamento para este ano. Com texto e ilustrações de sua autoria, traz a narrativa sobre sete irmãos que vivem na Amazônia, com muitos bichos brasileiros sendo ilustrados, como o macaco-inglês, com pelo branco e a cabeça vermelha.

No ano passado, Mello lançou “Clarice” (Editora Global), com ilustrações de Felipe Cavalcante, um livro que retoma a ditadura militar em Brasília por meio do olhar de uma menina e suas observações da cidade e da família. “Clarice é um simulacro do que se passou comigo e com a minha família. Na narrativa, muitas vezes o livro é visto como algo subversivo e as pessoas são avaliadas por suas leituras”, observa o autor. Em parceria, com Mariana Massarani, Mello também lançou, em 2018, “Enreduana”, história de Enreduana, uma poetisa e filósofa que nasceu em 2300 a.C e é considerada a primeira escritora do mundo. Mello lembra que, naquele período, a escrita cuneiforme era feita em placas de argila e a palavra e a imagem eram inseparáveis. 

Livro como suporte para as narrativas 

Um dos diferenciais do trabalho artístico de Mello é que ele pensa o livro como um objeto estético que serve de suporte para as narrativas. Para ele, o livro é um objeto e é a partir de sua fisicalidade que se consegue ler a narrativa verbal e visual. “A arquitetura do livro nos traz limites, mas os limites do livro nunca limitam. O livro é o único espaço do diálogo sem diferenças e da vazão do imaginário”, defende. Segundo Mello, o livro desperta um fascínio nas crianças, pois, à medida que o mundo fica mais virtual, ele oferece uma experiência tátil. Além disso, é um objeto intermediário entre o adulto e a criança ao propiciar um diálogo que nenhum outro objeto artístico e narrativo consegue oferecer.

Preocupado com o momento atual do livro e da leitura, Mello observa que, há alguns anos, os programas de leitura, como o Pró-livro, promoveram o incentivo à leitura, mas, agora, há o fechamento de várias livrarias e o número de leitores vem decrescendo. Além disso, as feiras de livros estão perdendo patrocínio e enfrentam dificuldades financeiras para continuar. Para ele, quando uma livraria está aberta, valoriza todo o seu entorno por ser um equipamento artístico. “A cidade atua como um rizoma e não dá para uma cidade não ter uma livraria. Para o cidadão, fica faltando a materialidade da arte. Ele não será um consumidor informado”, reflete.