Jorge Drexler reflete sobre a guerra e faz no Gigantinho seu maior show no Brasil

Jorge Drexler reflete sobre a guerra e faz no Gigantinho seu maior show no Brasil

O cantautor uruguaio se apresenta no sábado, dia 11, no Gigantinho

Marcos Santuario

Jorge Drexler: "É outro tipo de relação com o público, outro tipo de show, outro tipo edição de som. Então eu, como não gosto de repetir shows, quando volto para a cidade, a gente muda"

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Ele está de volta. Depois de girar por várias partes do mundo, o cantautor uruguaio Jorge Drexler se apresenta, neste sábado próximo dia 11, no Gigantinho, em Porto Alegre, para um público que só tem aumentado. E, ao que parece, este vai ser um show “reencontro-despedida”. Pelo menos é o que diz o próprio artista, com planos que devem deixá-lo afastado “por um bom tempo” dos espaços brasileiros. Porto Alegre será palco de seu último show no Brasil da turnê de “Tinta y Tiempo”, que agora se apresenta como “Tiempo y Tinta”. Antes, no dia 9, ele se apresenta em São Paulo e, só depois reencontra seu fiel e crescente público do Rio Grande do Sul.

Aquele jovem artista, que começou seu trânsito na Medicina e se entregou à crônica de vida pela poesia e pela música, “veio de um prado vazio, de um país com nome de rio” e tornou-se essencial na compreensão da alma contemporânea. Gentil como sempre, conversou com o CS, desde Madri, para falar sobre o que há de novo no show, de como percebe, desde de sua origem judaica, o momento do mundo, e de seus planos.

Você chega ao Brasil depois de vários shows incluindo Colômbia, Venezuela, Chile e, mais recentemente, na Argentina. Como foram as apresentações em Buenos Aires?

Jorge Drexler - Olha, para ser sincero e transparente, os shows foram muito diferentes e não só pelo contexto nacional da Argentina. Há uma perspectiva das eleições por lá , e o que vai ser da política argentina. E também teve o contexto internacional, o que acontece em Israel no dia sete de outubro. Isso tudo influenciou muito na percepção que eu tive do segundo show, que foi o último em Buenos Aires, que foi o último da turnê. Eu decidi antes de sair a cantar, antes de começar o show, decidi sair primeiro, falar um pouco, tocar uma música fora do repertório, falar um pouco do valor da vida e sair do show e voltar a fazer um show inteiro. E para ser sincero, vou lembrar muito desse momento.

E agora, depois desta parada a partir do show de Buenos Aires, retomas viagens?

Jorge Drexler - Sim. Faço show em Guatemala, San Salvador, Costa Rica e depois São Paulo e Porto Alegre. 
Tu voltas mais de um ano depois de ter estado em Porto Alegre com o espetáculo. Aí a pergunta que fica é o que vem de diferente agora? 
Jorge Drexler - O que aconteceu com o show foi que, ao contrário do que acontece sempre, começaram a nos chamar de novo para fazer lugares maiores. Fizemos vários shows no verão do Norte em julho e agosto. Na Espanha fizemos muitos festivais multitudinários. Também na Argentina e no Chile, na Colômbia, no Uruguai, também em Madrid.

E quais as novidades do show para um espaço como o Gigantinho?

Jorge Drexler - É outro tipo de relação com o público, outro tipo de show, outro tipo edição de som. Então eu, como não gosto de repetir shows, quando volto para a cidade, a gente muda. Mais da metade do repertório, na verdade, mudamos e mudamos os arranjos do restante do repertório.

Como foi esta preparação?

Jorge Drexler - Foi um tempo longo de ensaios. Incluímos uma percussionista e decidimos voltar a alguns lugares muito, muito especiais para nós. Já voltamos para o Chile e voltamos para a Argentina e não queríamos deixar de voltar para o Brasil também. E no caso do Rio Grande do Sul é um dos lugares que eu tenho mais convocatória. Apesar de ter o mesmo ponto de partida, a gente mudou muita coisa dentro do mesmo show, não só o nome.

Sabemos que gostas de experimentar no universo da arte também. Esse momento representa também algo novo em teu processo, não?

Jorge Drexler - É um experimento realmente que eu nunca tinha feito antes assim com tanta decisão. E é um show mais expansivo, com o som e uma narrativa e uma luz em si, uma cenografia mais preparada para um lugar maior. 

E como percebes, em um show desta proporção, a proximidade com o público? 

Jorge Drexler - Eu sempre gosto de dizer que é a percepção de intimidade. Não tem a ver com as dimensões dos teatros, mas com uma coisa muito mais inatingível, mais misteriosa, que é a criação de intimidade. 

Isso é um grande desafio, porque a intimidade gerada por uma proximidade de um show com menos pessoas pode gerar uma conexão muito imediata. Ou não?

Jorge Drexler - É quase que um olho no olho diferente. Então, esse desafio daqui especificamente em tu fazer um show que se baseia em algo novo, e que já esteve aqui, e agora fazer de maneira muito mais grandiosa do ponto de vista do lugar e da quantidade de público é mesmo algo pulsante.

Isso é um desafio e os desafios fazem parte da tua personalidade.

Jorge Drexler - Me parece. Eu só aceitei fazer isso porque eu gosto do desafio. Na verdade, porque antes eu não sabia se as minhas músicas entravam num espaço maior. Eu sempre pensei que as composições minhas seriam para lugares pequenos. Mas também nisso a música brasileira tem uma participação.

Tu és um admirador confesso da música brasileira. De que forma isso te trouxe até este momento?

Jorge Drexler - Tive uma influência muito grande na minha maneira de olhar o show ao vivo, porque você tem artistas no Brasil como o Caetano Veloso, como a Marisa Monte que fazem esse tipo de espaços grandes e conseguem essa intimidade. Então eu pensei “vou tentar”, para saber se o meu repertório se presta para uma relação com a audiência mais expansiva, sem perder essa intimidade.

Vai ser um marco em tua carreira e para teu público. 

Jorge Drexler - Na verdade, esse vai ser o maior show que eu já fiz no Brasil e vai ser também o último que eu faço no Brasil. Por muito tempo, porque na verdade eu queria me despedir do Brasil do mesmo jeito que eu me despedi agora da Argentina e do Chile e por um bom tempo. Agora eu já quero mudar, quero mudar de formato.

Então vais dar um tempo antes de voltar a shows maiores?

Jorge Drexler - Não quero sair de turnês longas. Quero ficar na Espanha e na Europa fazendo turnês bem pequenas, num formato solista e preparar o próximo trabalho. Então isso aqui é uma espécie de celebração, na verdade, com uma audiência tão generosa comigo, tão fiel como tem sido a audiência dos gaúchos sempre.

Nos últimos tempos tu passaste por uma pandemia e agora por vivenciar um conflito entre Israel e o Hamas, que, como se diz em espanhol “te toca mucho”. Como o Jorge Drexler compositor, músico, artista, e o homem está vivendo este momento? 

Jorge Drexler - Estou pensando muito nisso que está acontecendo agora. O contexto é tão catastrófico assim, tão grave, tão sério, tão preocupante, tão horrível. E não quero fazer a superficialidade de dizer vou fazer uma canção assim para para a paz mundial. Não, não é. Estamos além disso. Agora eu estou com muito cuidado, muito respeito dos lados. Não quero ser frívolo. E não quero fazer algo que seja para o meu bem e não para o bem de uma causa. Então eu estou com muito cuidado, muito respeito e muita preocupação. Eu tinha uma música que eu escrevi, há muito tempo, no ensino médio, chamada “O Fim e o Meio”. Reencontrei ela ontem e basicamente diz no refrão: “não é só o fim que justifica qualquer meio; não há um fim que justifique qualquer meio”.

E isso aponta para onde?

Jorge Drexler - E eu acho que, neste momento, talvez o mais sintético que eu tenho para dizer é que, num conflito tão horrível assim, muitas vezes o fim que a gente persegue é uma ideia boa de justiça, de liberdade, de independência, de segurança, de prosperidade e de pertencimento. Mas, e por melhor que seja o fim que se persegue, você não pode utilizar qualquer meio nem um castigo, assim como foram cometidas de um lado e agora estão sendo cometidas no outro. Penso no que o professor Yuval Harari fala da importância de “manter a humanidade dentro”. Ou seja, mesmo dentro do conflito não perder a humanidade.

Serviço

Opus Entretenimento apresenta Jorge Drexler com a turnê
‘Tiempo y Tinta’
Data: 11 de novembro de 2023 (sábado)
Local: Gigantinho - avenida Padre Cacique, 891, Porto Alegre - RS
Horário: 20h
Ingressos no uhuu.com.

Confira a entrevista completa:


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