Outubro Prata: precisamos falar sobre abandono

Outubro Prata: precisamos falar sobre abandono

Por Niágara Braga*

Niágara Braga

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Com o aumento progressivo da longevidade é comum, hoje em dia, que famílias possam chegar até sua quarta geração em convivência, com saúde. Porém, isso também configura um sistema familiar complexo. Observamos hoje filhos já acima dos 60 anos que possuem seus pais vivos e muitas vezes não conseguem mais dar conta de fornecer os cuidados necessários a eles porque também precisam de atenção. A geração dos cuidadores que também precisa de cuidados. 

E essa cadeia de necessidades segue até chegar à geração dos indivíduos em idade adulta, que agora precisam cuidar dos pais e dos avós, além das responsabilidades próprias da fase – sustento, tarefas domésticas, filhos, necessidades pessoais. Como dar conta de tudo? 

Deparamo-nos com o paradoxo da longevidade: a alegria de convivermos mais tempo com quem amamos e a angústia frente à impotência de não conseguirmos fornecer-lhes o cuidado desejado. Então, apresenta-se o dilema da necessidade ou não de internação em instituições de longa permanência. Junto desta alternativa, muitas vezes, a ideia de culpa pelo abandono também vem nos assombrar. 

Juridicamente, o abandono é considerado crime sujeito a até três anos de detenção, caso os responsáveis não provejam as necessidades básicas do amparado. Mas o abandono não diz respeito apenas à alimentação, moradia e segurança. Abandonar também é perder o vínculo afetivo. E esse tipo de abandono não existe apenas quando os familiares colocam seus entes em instituições e nunca mais os visitam. Este abandono também acontece quando a pessoa idosa é independente, vive na sua própria casa, mas não recebe atenção e afeto de seus familiares. 

Ainda temos, como sociedade, o preconceito de que colocar o familiar em uma instituição de longa permanência é abandonar, é deixar de cuidar, deixar de amar. Mas a verdade é que esta, muitas vezes é a opção mais saudável e benéfica para todos, é sim uma escolha de amor e cuidado, porque respeita os limites do cuidador e não desatende o familiar. Esta escolha só se configura em abandono quando vem acompanhada, de fato, de uma ausência no convívio, de desafeto, de desatenção. 

Respeitar os próprios limites é imprescindível para manter a saúde mental e física. Precisamos estar bem para cuidar de quem amamos. O aumento progressivo da longevidade nos convida a repensar a forma com que nos organizamos e damos conta de nossas necessidades e relações. Precisamos desfazer nossos preconceitos e focar no que realmente importa: nosso vínculo com quem amamos. 

*Discente de Psicologia da Estácio RS


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