Poder público e feijão

Poder público e feijão

Observei e fiz exercício futurista tentando vislumbrá-la concluída.

Claudio Dilda

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Revisitando Porto Alegre, principalmente com foco em sua área central e bairros do entorno, confesso – sem deter impulso analítico como usuário – que muito me causaram espanto alterações que se constatam a partir de um olhar instantâneo que, de imediato, provoca sensação de estranheza, mesmo não adentrando nas entranhas conceituais da arquitetura e de possíveis conceitos urbanísticos.

Detive-me na rua General Vitorino. Observei e fiz exercício futurista tentando vislumbrá-la concluída. Pior sensação não poderia ter sentido. No meu conceito, estava melhor como estava: passeio público de basalto (portanto, para sempre, eterno) e pista de rolamento de paralelepípedos, o mesmo, eterno. (ou, então, referencie-se a Via Ápia, construída na Roma antiga há mais de 2 mil anos: ainda está lá). Qual o planejador, o iluminado, que viu no cimento a solução estética e duradoura de obra que, em no máximo 10 anos, seguramente terá que ser revisitada e passar por reformas? Isso com relação à opção pelos materiais utilizados na ‘revitalização’ do Centro Histórico. Diria que está sendo cometido atentado explícito à memória histórica ao apagar o passado através da substituição de materiais sem a beleza nem a durabilidade da pedra, basalto ou granito.

Outra particularidade que chama à atenção é a profusão – poluição visual – de propaganda eletrônica afixada em bancas e também em esquinas, sustentadas por suportes metálicos e com mensagens que nada têm a ver com sinalização de trânsito de veículos ou de pedestres. Só para exemplificar: na esquina da rua Sebastião Leão com a rua Lima e Silva, estão fixados dois painéis, um quase na esquina em banca e outro na esquina do outro lado. Outro efeito não provoca que não o do impacto de visual negativo de poluição eletrônica, verdadeira praga que está tomando conta da cidade.

Junte-se a venda da centenária Carris, o risco do Dmae ir para as calendas gregas e somando-se, obrigatoriamente, o cenário crítico da periferia, não serão a orla (magnífica) nem o Embarcadero (seletivo) que qualificarão democraticamente a vida dos cidadãos porto-alegrenses. A manutenção das comportas e do muro da Mauá mostraram mais uma vez sua importância: que permaneçam (ou não vivemos já mudanças de climas?). Lembro-me do famoso dito, quase mantra, do prefeito Sebastião Melo: “Poder público e feijão, só na pressão”. Magnífica a Orla Moacyr Scliar.


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