Que se abram as bibliotecas

Que se abram as bibliotecas

Sofia Cavedon*

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Em tempos de Feira do Livro, perguntamo-nos: como se formam leitores, como fazemos acontecer a fome de ler, o amor pelos livros, o prazer de saborear palavras, histórias, como construímos famílias que invistam tempo e recursos no livro e na leitura?

Sim, porque nós, que passeamos pelas alamedas multicoloridas da Feira, exploramos as caixas das promoções, nos deliciamos com as entrevistas de autores, saímos maiores, plenos, instigados e realizados. Essa dimensão de valor não pode ser subtraída de nenhum ser humano, sob pena de tornarem-se “homúnculos” como nos retrata a linda prosa-poema do Patrono da Feira, Carlos Nejar, em “Carta aos Loucos”.

Nós, adultos, somos responsáveis por essa construção que precisa acontecer ao longo da vida, em especial na primeira infância e na adolescência, quando o processo de constituição da identidade e da subjetividade estão mais abertos e em transformação.

Imaginem as escolas sem bibliotecas atualizadas, sem profissional qualificado para mediar, estimular, organizar projetos de leitura, sem a acessibilidade à exploração livre e voluntária da meninada, de modo a construírem seu percurso de leitura e de aprendizagens para além da indução da sala de aula. Infelizmente, é assim que estão quase todas as mais de 2.400 bibliotecas das escolas estaduais do Rio Grande do Sul, desde 2019, quando o governador retirou da política de Recursos Humanos o espaço das bibliotecas.

Na Assembleia Legislativa, constituímos a Frente Parlamentar pelo Direito ao Livro e à Leitura. E, com o Conselho Regional de Biblioteconomia, fizemos audiências, livraços, seminários, representação no MP, caravanas pelas escolas registrando as bibliotecas e uma exposição que retrata o abandono, a degradação e perda de acervo, redução de uso e circulação dos livros e de projetos de leitura. 

Não há como reparar a enorme perda que quase um milhão de estudantes tiveram por essa decisão, mesmo que as escolas, há que se reconhecer, busquem contornar com projetos desenvolvidos por professores.

“Nós, com as palavras, criamos uma memória. E com a memória, criamos a imaginação da espécie.”, afirma Nejar, por ocasião da 68ª Feira. A educação tem a tarefa de garantir a participação de cada menina e menino na produção e fruição da imaginação humana. Que se abram, pois, as bibliotecas e façamos voar a imaginação.

*Deputada estadual PT/RS e presidenta da Frente Parlamentar pelo direito ao Livro e à Leitura da ALRS


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