A terra de Amado Fortuna

A terra de Amado Fortuna

Veste o lenço vermelho, atravessa a adaga na cintura e diz: “Acabou o luto, a vida é curta, mas é bem linda.”

Paulo Mendes

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Um ano depois da morte de Céu, Amado volta de novo do campo, num outro junho gelado, de garoas frias, quando fica mirando para os eucaliptos e cinamomos desolados, com galhos descobertos, sem o poncho das copas. As árvores se parecem com ele neste outro inverno, solitárias, tristes, mas com a seiva da vida a correr por dentro. Também não se entregam. E dá um vistaço ao redor, enxerga a terra enregelada, com o sereno da tarde moribunda. E lembra que disse certa vez a Céu que a terra era tão importante que todos os gaúchos deveriam trazer um punhado dela no bolso das bombachas. A esposa sorrira e uma tarde entregou-lhe um saquinho de estopa, atado com um tento de couro, contendo um punhado de terra da coxilha grande. Agora, apalpa o bolso direito e lá está o saquinho, com a boca meio aberta, a terra se esfarelando, mas mostrando a ele como é importante manter a São Francisco de pé, produzindo bois, ovelhas, cavalos, reativando as pastagens de inverno, recuperando as cercas da invernada do fundo, fazendo açudes e renovando o pomar. 

Ah, Céu... quanta falta ela ainda lhe faz. Ele adorava vê-la lendo em sua cadeira de rodas, aqueles olhos verdes cintilantes que ele tanto amava. Assobia para Mancha, que anda mais triste que ele. Mancha não caça mais preás no banhado e pouco sai para as campereadas, como fazia antes. Anda acabrunhado, depois que a dona se foi pro céu. De vez em quando Mancha passa dois, três dias e noites ao lado do túmulo, lá em riba do coxilhão, sem comer e beber, depois volta devagar, com o rabo entre as pernas, desolado, se deita no pátio por umas horas e depois come e bebe água. E tenta retomar a vida, como Amado. Gente e bicho é quase uma coisa só, com a pequena diferença de que bicho tem mais sentimento. 

Amado recorda como foi difícil a infância lá no Rincão do Suspiro, carreteando com o pai de criação, o finado Athos Fortuna, que teve um ataque do coração ao voltar de uma viagem de dois dias a São Gabriel, onde haviam levado a produção de mandioca, feijão, legumes, cinco galinhas vivas e um porquinho. Venderam tudo e voltavam felizes. Mas já chegando em casa, no Passo do Afogado, seu Athos deixou a rejeira cair e tombou no chão avermelhado. A mesma terra que engoliu a mãe. Ao sair pelo mundo, foi peão de tropa, de estância, deu duro como tratorista e depois teve a sorte em jogar tudo o que tinha naquela carreira do Espinilho Grande. Comprou uma chácara e, dois anos depois, a fazendola São Francisco. Quando seu João Caixeiro faleceu, comprou a terra lindeira e, então sim, se tornou fazendeiro. 

Chega ao passo do tordilho nas casas. Desencilha assobiando, atira um naco de charque para o Mancha, que já parece estar mais faceiro, e depois solta o pingo no potreiro. O cavalo se deita, vira para um lado e para o outro, levanta e se sacode. Amado o encerra no galpão, enche o cocho de milho, alfafa e água. Chega Ananias, o peão caseiro. “Deixa que termino o serviço, seu Amado”. “Não, deixa que eu faço, vá lá dentro e me traga o lenço colorado e minha adaga”. O peão olha-o desconfiado, mas traz o pedido e Amado arranca de um tirão o lenço preto. Veste o vermelho, atravessa a adaga na cintura e diz: “Acabou o luto, a vida é curta, mas é bem linda.” 


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Correio do Povo
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