Aqui estamos, senhor Setembro!
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Aqui estamos, senhor Setembro!

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Te aprochega, setembro velho, puxa um banco e te sentas. Estávamos aqui, passando graxa nas botas, alisando as cordas, limpando os pátios,  rasqueando o pelo dos pingos, botando os pelegos no sol. Só para te esperar mês de corpo delgado, que passa pelo vão das portas entreabertas. Viestes respingar asas em nossos olhos marejados? Ah, senhor setembro, se o senhor soubesse o que passamos nessas invernias, o que deixamos para trás. Foram dias e dias de chuvas guasqueadas, de frio e tristezas pelos beirais, pelos oitões, pelas várzeas encharcadas, pelas restingas onde as vacas magras sucumbiram. E o senhor aqui, agora, com essa cara de guri novo, boca aberta, sorriso largo, assobiando,  com esse pala colorido nos ombros como a dizer "te mexa!" Setembro é assim, vem nos preparar para que possamos amar em outubro. O senhor setembro pouco fala, ele ri e prepara, ele sugere e quando fala é num dialeto cigano, cheio de morisquetas e esgares.

Então é chegada a hora de se dirigir até aquele velho baú com naftalina embaixo da cama e de lá retirar a camisa branca, o lenço colorado, a bombacha de favos, guardada dobrada como nos ensinaram as velhas avós mortas. E quando saímos para o mundo, estamos sorridentes, deixando no ar um perfume de loção Coty, com o mango na mão, as botas lustrosas, o chapéu de barbichacho atirado nas costas. Setembro é o  tempo de reativar a tradição esquecida, de glorificar os heróis da história, revolver o passado com a ponta do relho, ler outra vez os livros do colégio. Em setembro, as moças buscam antigas pétalas guardadas em algum caderno do colégio, cheios de nomes e desenhos estranhos. Então têm calafrios pelos corpos franzinos e acalentam no ar aquecido as ânsias do amor. Então caminham apressadas pelos corredores das velhas casas, olham -se nas penteadeiras, soltam os cabelos e vão para as janelas.

Venha, senhor Setembro, veja lá a Pira da Pátria, a Centelha Farroupilha, veja os uniformes impecáveis, não está mesmo lindo esta festança? É tudo para o senhor, o povo se preparou, não quer que o senhor se aborreça e não venha de novo no ano que vem. O senhor virá, não virá? Olhe lá à esquerda, na praça, veja bem, um piquete farroupilha. Escute, escute, mas que linda esta cordeona oito baixos se espichando numa vaneirão bem sem dono.  Ah, está sentindo? É o cheiro da graxa de picanha e da costela nas brasas. O senhor por certo aprecia um churrasco desses bem campeiros, de espeto de pau,  fogo de chão,. Claro, me esqueci que o senhor se chama Setembro. E agora, esta ouvindo este tropel? É a cavalaria guapa de  Bento e do general Netto, está vendo, os lanceiros negros na frente, metendo medo nos imperiais. Firme bem os olhos, veja lá atrás, está vendo, são os barcos de Garibaldi, outra vez, singrando os rios e o mar, no rumo de Laguna. É de arrepiar , senhor Setembro, venha cá, dê-me um abraço, enquanto enxugo minhas lágrimas.

Não, ainda não senhor setembro, não vá embora.  Quero ficar para sempre aqui, churrasqueando, bebendo vinho, olfatando flores silvestres, mirando este entardecer sem fim  alaranjado, em que o dia finca os calcanhares na noite doce. Não fujas, porque quero vestir este pala colorido e sonhar com novas manhas de setembro, antes que seja tarde demais...