Humilde relato de um caseiro
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Humilde relato de um caseiro

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        Muitas vezes já disse aqui e repito: Aprecio o simples, aquilo que vi e vivi na minha Vila Rica. Ingenuidades úmidas de sereno. Trago um jeito de terra recém lavrada e gosto da palavra reta. Por isso, saúdo o caráter dos homens honestos que conheci naqueles anos campeiros.  Como o de seu Deoclécio, o caseiro, que um dia encontrei mateando ao lado da estrada, num fim de tarde,  e levei-o para o galpão da nossa casa, atrás do bolicho. Na época já estava velho, quase não andava. Solito, vivia das migalhas de uns e outros.  No outro dia, disse "pai, achei o seu Deoclécio na beira da estrada, fiquei com pena dele, não merece morrer desse jeito".

         Depois, com ajuda de um vizinho, conseguimos que se aposentasse pelo Funrural. Com o ordenado, comprou roupas novas, até um par de botas, chapéu, e seguiu morando conosco. Contando causos e mateando. Às vezes, nas raras vezes em que todos saíamos juntos, seu Deoclécio ficava fazendo aquilo que mais gostava, caseirear. Porém, cerca de dois anos depois, o encontramos morto numa manhã de abril, sentado sobre a velha cadeira de balanço, com assento de palha, que tínhamos dado a ele, eu e meu irmão, no dia 24 de dezembro, quando fazia aniversário. "Quase que viro tocaio de Jesus", brincava.  Morreu com a cuia na mãos, com a erva tingindo de verde sua bombacha de favos. Demos um funeral digno a ele e guardamos suas coisas num velho baú que nunca mais tocamos. Só agora, passados tantos anos, fui à Vila Rica e decidi verificar os pertences do caseiro. Então achei duas fotografias amareladas, um bomba de prata, um relógio de bolso Ômega, uma fivela de guaiaca e, entre outras coisas, um caderno com rabiscos. Uma das páginas continha um pequeno texto que reproduzo agora, com as devidas correções ortográficas e com o complemento de algumas palavras que ficaram faltando:

         "Quando eu me for, não deixarei quase nada. Só uns tarecos, uns trapos.  Ademais, nunca me importei com essas coisas, não têm valor, pelo menos para mim. A maior parte dos objetos que tive se apartaram de mim ao longo da vida, outros se perderam, pois andei por muitos pagos. Mas levo lembranças buenas que não são poucas. Se me perguntarem o que fiz, digo sem nenhuma vergonha que fui caseiro. Quando guri, sonhava ser ginete, tropeiro, mas depois a vida veio braba. Estropiei um joelho, depois um braço. Por isso, só pude trabalhar em tarefas dentro e ao redor das casas, mas fiz com compromisso. Cozinhei, varri, cuidei de hortas, de pomares, alimentei animais domésticos e os protegi. Estancieiros confiaram em mim, pois de tudo zelava como se meu fosse.  E de certa forma era. Na Páscoa, no Natal, no Ano-Novo, quando os patrões e a peonada se ausentavam, sempre estava lá, solito, caseireando. Solito não, sempre com Cristo a meu lado, que nunca me abandonou.  A vida foi curta, mas foi tão linda. Não reclamo nem contesto.  Desfrutei o que pude no meu pequeno universo. Tive olhos para ver, ouvidos para ouvir, boca para falar e comer. Duas pernas para caminhar e dois  braços para trabalhar. Fiz grandes  amigos e amei mulheres. Alguns amores até correspondidos, mas isso é coisa que um homem não deve falar.... Em resumo, fui um gaúcho feliz."