Paixão Côrtes, o tropeiro da cultura
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Paixão Côrtes, o tropeiro da cultura

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Foto: Mateus Bruxel / CP Memória


 

Quis o destino que eu tivesse a graça de conviver com Paixão Côrtes por alguns anos. No início dos anos 2000, o velho folclorista vinha regularmente à Rádio Guaíba, uma vez por semana e, após o, programa, passava na redação do Correio do Povo. Então mateávamos por algum tempo e conversávamos muito. Com aquele seu estilo bonachão característico, sempre educado, recebia a todos que iam se achegando para uma prosa com seu largo sorriso, cumprimentando, fazendo chistes e contanto causos. Gostava de lembrar o tempo de rapaz, quando passava as férias escolares nas fazendas dos irmãos Vieira, em Júlio de Castilhos. Com isso, ganhávamos a companhia da colega Ema Reginatto Belmonte, também castilhense, como eu. Foram essas tertúlias improvisadas na centenária redação do CP que me proporcionaram conhecer boa parte da vida de paixão Côrtes e admirar seu amor pelas coisas do Rio Grande. Contava suas andanças pelo Litoral em busca de material sobre Terno de Reis, pela Serra estudando os costumes dos antigos birivas, as tropeadas de mulas, porcos e até perus. Na região Central, na Campanha, na Fronteira, no Alto Uruguai, onde houvesse uma manifestação cultural interessante, lá se ia o pesquisador. E tudo ficou documentado.

Em 2011, quando lancei o primeiro livro "Campereadas", Paixão e a  esposa dona Marina, anteciparam uma viagem de retorno a Porto Alegre, desde Livramento, para me abraçar na Feira do Livro. Eu o havia convidado e ele havia garantido presença. Então chegou faceiro e disse: "Um gaúcho nunca deixa de cumprir sua palavra".  Este é um orgulho que sempre vou carregar comigo. O mesmo orgulho que ensinou a nós rio-grandenses termos de nossa terra. Num tempo pós-guerra, quando os americanos queriam transformar o globo em um apêndice de seu quintal, os guris do Julinho, liderados por Paixão Côrtes, mostraram que tínhamos nossa própria cultura, nossa música, nossa música, nossa pintura, nossas artes, e elas são tão importantes como as outras do resto do mundo.

Descanse em paz, respeitado e querido xiru da gauchada.  Tu viverás em cada bordoneio de cordeona, no crepitar das labaredas dos fogões campeiros, num passo de dança, numa trova e nos alaridos de setembro. Porque um gaúcho de verdade, como tu fostes, nunca morre, apenas vai tropear na Querência do Céu.