Vivências

Vivências

Hemingway, como correspondente de guerra e pugilista, viu cara a cara a miséria humana em sua plenitude.

Paulo Mendes

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Logo após minha palestra em Ilópolis, dia 12 de novembro, na 11<SC120,170> Turismate, sobre o regionalismo rio-grandense e a literatura gauchesca, quando ainda estávamos batendo “chapas”, como se dizia antigamente, um simpático menino pilchado se aproximou, pediu para fazer uma foto comigo e perguntou se o fato de ter sido bolicheiro influenciou “diretamente” no meu ofício de jornalista e cronista. Respondi que sem dúvida alguma, mas que não apenas essa, mas a de carroceiro, leiteiro, agricultor e tropeiro. Que toda experiência de vida influi direta ou indiretamente na produção fictícia do autor. Disse que esse povo que convivi era uma gente com muita história para contar e que gostava de ouvi-las, porque era a vida deles, o que sonhavam, as dores, as alegrias e que, de certa forma, era a vida de todas as pessoas em qualquer lugar do mundo. Que a vida dele, no Vale do Taquari, era parecida com a de outros meninos de Buenos Aires, Nova Iorque, Istambul ou Tóquio. 


Depois, na estrada, vim pensando no assunto. Realmente, nossas vivências são fundamentais para traçar o molde de escrita, desenhar a diretriz daquilo que o escritor vai engendrar dali para frente. E comecei, instintivamente, a lembrar de poetas e escritores famosos que fizeram ou desenvolveram atividades tão diversas e estranhas, mas que acabaram ajudando ou se incrustando nos textos e nos temas. Se não, vejamos: Borges, como diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, teve a oportunidade de guardar e conviver com milhares de códices que continham toda a história da humanidade. Hemingway, como correspondente de guerra e pugilista, viu cara a cara a miséria humana em sua plenitude. Bukowski, cortando as ruas como carteiro, pôde conhecer de perto o inferno da solidão e o desespero da vida norte-americana. Sem falar nos tradicionais diplomatas – e são muitos – que viveram anos em contato com novas civilizações. 


O fato de ser bolicheiro me ensinou a ouvir. Aprender a deixar que aquele ser que está a um ou dois passos de ti desembuche, ponha para fora angústias e desgraceiras que a peonada carrega na alma. Eu ficava ouvindo, prestando atenção. Todos gostavam, eram pessoas que ninguém reparava. Por vezes, apenas isso basta, ser respeitado. Chamava-os pelo nome, seu fulano e seu sicrano, “o senhor quer que lave o seu copo”? Ficavam agradecidos. O homem é assim, adora ser bem tratado, com delicadeza e sensibilidade. Dona Mirica dizia que perguntavam por mim: “Cadê o Paulinho?”, “Esse guri é um amigo que tenho”, e por aí afora. 


Ah, aquela vivência me fez ser o que sou, simples e reto. Se pudesse voltar no tempo, queria tudo de novo, sem tirar nem por. Não queria ser outra coisa, porque no convívio com aqueles tropeiros, changueiros, descobri que a vida é linda, mesmo sendo dura, e é eterna, mesmo sendo tão curta. Aprendi que deixamos para sempre nossa marca nas minúsculas coisas boas que fizemos, como escutar uma história banal de um homem comum de uma cidadezinha de interior. Ele, esse João Ninguém de fundo de corredor, se multiplica dentro de nós. Às vezes, vira personagem de livro, fica plasmado num conto, numa memória e numa fantasia. Muitos anos depois, bem além dos calendários, alguém abre o livro e o milagre acontece: começa uma nova história, uma nova vivência. 

 


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