Mulheres e adoráveis
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Mulheres e adoráveis

Refilmagem de clássico da literatura reforça o universo feminino, com talento renovado em "Adoráveis Mulheres"

Por
Marcos Santuario


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Só um espírito feminino pode entender em profundidade um universo tão rico, complexo e instigante como o apresentado em "Adoráveis Mulheres, com direção de Greta Gerwig ("Lady Bird") e baseado no  livro de Louisa May Alcott. Não necessariamente tem que ser mulher para tanto, mas o olhar do espírito feminino consegue ir mais fundo. É com ele que se consegue entender melhor as buscas das jovens moças que, ao contrário de outras adaptações, aqui são apresentadas mais distantes da infância, enquanto vivem com a mãe as agruras de uma época dificil em que saem de uma situação social confortável para uma pobreza sentida. Com as potentes presenças de Meryl Streep (vivendo a tia rica e solteirona) e Laura Dern (como a mãe cuidadosa, abnegada e exemplo de esposa), as jovens irmãs March da trama ganham força com as atuações de Saiorse Ronan, Emma Watson,  Florence Pugh e Eliza Scanlen, cercadas pelo personagem masculino mais presente na trama, o jovem Laurie, vivido por Timothé Chamalet,

Cada uma das irmãs têm seu sonho, suas qualidades e seus defeitos. Humanas, mas com algo transcendente em suas expectativas. Da afronta aos costumes de comportamento social que protagoniza Joe (Saiorse), ao sonho do casamento com casa e marido, da personagem de Emma Watson, vão se desenhando na tela as diferentes aspirações daqueles femininos da segunda metade do século 19, nos EUA. Em meio à Guerra Civil norte-americana, as jovens vivem o universo familiar e aguardam, com a paciência e perseverança da mãe, o regresso do pai, que está em combate. Mas isso é só uma parte deste universo que transcende o familiar, pois os March, mesmo em situação social mais difícil, não deixam de ajudar os necessitados. Mais do que romance típico do gênero (redução simplista), "Adoráveis Mulheres" é fiel ao contexto social, político e estético da época. Não deveria ser diferente, ao querer centrar a trama não no histórico, mas sim no humano, no feminino em questão. 

A atuação precisa e envolvente de Saiorse como a jovem Jo, intectual, a frente de seu tempo e com mais interesses do que casar e ter filhos, é uma espécie de fio condutor de desejos, sonhos e atitudes dos demais personagens do enredo. Vai contando a construindo a história.

Já na adaptação feita em 1994 para o mesmo livro, as atuações de Susan Sarandon, Winona Ryder, Kirsten Dunst e Claire Danes deixaram marcas profundas na abordagem mais feministas, como o primeiro fime dirigido por uma mulher, Gillian Amrmstrong.

Na versão atual, a diretora modificou a estrutura da narrativa, rompendo com uma linearidade ao contar a história de forma a mudar a temporalidade nas cenas. O filme vai do presente ao passado, retorna, regressa, conta algo do que aconteceu e acaba compondo uma fragmentação narrativa mais adequada à época das redes sociais e do universo líquido das audiências.

Não são mais somente mulheres sofredoras esperando as ações do destino para transformar seus dias. Elas falam, pensam, e vão à luta. Cada uma com sua própria intensidade. Permeadas pela arte (da escrita, da pintura ou da música), suas escolhas vão se fortalecendo.

Ao final se torna romântico, sem ser piegas. Delicado, sem ser fútil. Instigante, sem ser panfletário. E cumpre com a frase inicial revelada pela autora: viveu tantas tristezas que se deu o direito de contar histórias felizes. Será? Vai lá, assiste e me fala! Tchau.