Assumindo novos desafios

Assumindo novos desafios

Mauren Xavier

Leany Lemos, presidente do BRDE

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Em um ano de grandes incertezas, Leany Lemos se viu desafiada em vários momentos. Se no início do ano celebrava o êxito da Reforma Administrativa que ajudou a coordenar como secretária estadual de Planejamento, poucos meses depois esteve diante de outro desafio: coordenar o Comitê de Dados da Covid-19, que resultou na construção do Modelo de Distanciamento Controlado. Mas os desafios não pararam por aí. Em dezembro, assumiu a presidência do BRDE, que é responsável por ofertar uma carteira de crédito de R$ 3 bilhões aos estados do Sul. Se não bastassem esses desafios próprios das funções, a brasiliense que adotou o Rio Grande do Sul ainda enfrentou as resistências por ser mulher, a primeira no comando da secretaria e a primeira na presidência do banco. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Correio do Povo, na qual Leany fala de economia, metas e a vontade de ser exemplo para outras mulheres.

Como a senhora se sente sendo a primeira mulher a assumir a presidência do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), que está completando 60 anos? E, mais do que isso, qual o simbolismo e a responsabilidade de ser essa primeira mulher?

Percebi um pouco esse papel quando fui a primeira secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal (entre 2015 e 2018). Aquilo me impressionou um pouco e aqui no Rio Grande do Sul, de novo, a mesma situação. Fui a primeira mulher em 50 anos da Secretaria de Planejamento do RS. Isso só confirma o famoso “teto de vidro” que existe para as mulheres, mas já estamos em uma fase de mudança de comportamento, em que as mulheres avançaram muito. Nos anos 70, o acesso ao trabalho e uma vida competitiva profissional eram muito complicados. Avançamos muito, mas ainda existe esse “teto de vidro” que faz com que seja difícil ter mulheres em cargos de primeira liderança. Isso também representa um pouco a dificuldade de fazer essa mudança de comportamento. É importante termos consciência disso. Um ponto que eu gosto muito de falar sobre o que significa isso é que, quando a gente olha para uma sala de decisão e tem 30 homens e uma mulher a gente vê que essa distribuição externa não ocorre ali. Por que essa distribuição não está nessa sala? A minha sensação é sempre de que há uma perda para a economia, para a sociedade, quando você não pega as pessoas mais talentosas e mais talhadas para as funções. Tenho certeza que há muitas mulheres talentosas e que, talvez, não estão nesses cargos por questões sociais e comportamentais, ou por barreiras nas organizações. Então, sempre a primeira coisa que me vem à cabeça é que, além de ser uma recompensa para a minha trajetória pessoal, é uma finalização de uma mudança de tempo. É devagar, mas têm mudanças acontecendo. No segundo ponto, como modelo, acho muito importante para as gerações mais jovens, para que as meninas de 20 anos que estão na faculdade tenham um exemplo.

Ser exemplo traz um simbolismo grande e é relevante para o imaginário social, correto?

Exatamente. É como um astronauta, um bombeiro, um policial. As crianças conseguem ver e querer ou imaginar. Agora como que a gente pode ocupar um espaço se a gente não consegue se imaginar? Ocupar esse cargo me traz uma satisfação pessoal muito grande, mas uma responsabilidade também, em especial para que as mulheres mais jovens possam entender que existe uma possibilidade para elas. É real.

O governo do Estado conseguiu, mesmo que não tenha sido a proposta original enviada à Assembleia, a aprovação da manutenção da majoração das alíquotas de ICMS por mais um ano. A senhora teve atuação muito significativa na construção do pacote Reforma RS, que envolveu mudanças nas carreiras e na previdência. Como a senhora vê essa aprovação que dá continuidade ao projeto de reformas?

É muito importante para o governo do Estado ter conseguido essa aprovação, ainda que não tenha sido a proposta original. É importante manter, neste momento, o nível de receita. Fizemos uma mudança muito considerável na previdência dos servidores civis, a mais ampla reforma administrativa do país. Então, é um conjunto. Tem as privatizações que vão entrar na pauta no próximo ano. É muito importante nesse momento a manutenção das alíquotas. Vai evitar cortar onde prejudicaria muito a qualidade dos serviços públicos. Desde o governo (José Ivo) Sartori teve início um processo de gestão de muita austeridade. Ele comunicou o tamanho da dificuldade das finanças públicas. No governo Eduardo Leite vieram as mudanças administrativas e previdenciárias, e ele vai fazer as privatizações, seguir neste ritmo. É muito importante que os próximos dois governos (do Estado) mantenham a linha de gestão e que a saúde das finanças tenha destaque. No Ceará, houve uma mudança de comportamento e vários governos, independente do partido, seguiram a mesma preocupação com a gestão fiscal. É importante que esse assunto seja incorporado pela sociedade e pelo governo. Ser irresponsável com as contas públicas é ser com o Estado.

Pensando no ambiente de negócios do Estado, com os investimentos já projetados pelo banco, qual o impacto desse tipo de mudança?

Olhando para mais longo prazo é essencial para dar sustentabilidade. Quem vai investir tem que saber o ambiente que terá pela frente. Se não sabe, o empresário fica esperando definição. Isso prejudica a competitividade e o nível de investimentos. Economia não é só projeções e números. A economia se comporta de acordo com a expectativa. É essa expectativa que ajuda a atrair os investimentos.

Como tem sido essa experiência na presidência do BRDE?

É uma chegada de muito aprendizado. Fechando o exercício desse ano, que teve a sua complexidade própria, levando em consideração a pandemia, então, estou aprendendo muito e recebendo muita informação. Gosto de lidar com essas situações de muito aprendizado. Segundo ponto é que o BRDE é um banco saudável. É uma boa instituição, tem indicadores bons, como baixa inadimplência, liquidez, parcerias fortes, resultados e uma diversidade de setores e clientela de quem é atendido. Em outras palavras, é um banco que cumpre muito bem o seu papel. É o 16º banco em tamanho de carteira no país, com R$ 13,5 bilhões, sendo responsável por oferecer crédito de cerca de R$ 3 bilhões por ano aos três estados do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), além da parceria com Mato Grosso do Sul. Os valores dos ativos somam R$ 16,8 bilhões.

É possível projetar mudanças?

Ao longo de 60 anos, ele segue em um processo de mudanças. A primeira, que já avançou muito, é ter menor dependência. No passado, o banco era mais um repassador de recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e cobrava uma taxa. Isso mudou muito (neste ano, deverá ser reduzido para um índice de 55%). Além disso, houve mudança em relação à composição de recursos. O banco passou a buscar fora muitos recursos, como com o Banco Mundial e o BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento). Então há diversificação. A segunda é que o BRDE vai iniciar um piloto, a princípio no primeiro semestre de 2021, de emissão do Recibo de Depósito Bancário (RDB) (que é um investimento de baixo risco). Há ainda previsão grande de investimentos, estimada em cerca de R$ 3 bilhões para o próximo ano, em várias frentes, como saúde e inovação. A atuação do banco na pandemia (no enfrentamento) já foi importante.

Em relação aos investimentos em inovação e no agronegócio, duas áreas tão importantes para o Estado, o que há de previsão?

O BRDE tem um papel no estímulo à inovação muito relevante, por exemplo, o auxílio ao projeto de expansão do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer). Além disso, o agro é nosso grande cliente. O banco tem muitas operações na cadeia produtiva. Recentemente, o agronegócio no RS, por exemplo, foi muito afetado pela estiagem. Outra iniciativa, mais recente, foi o aporte para a primeira fase do programa que vai levar redes de distribuição trifásicas para áreas rurais. O banco está comprometido em apoiar projetos sustentáveis. Isso significa gerar energias limpas, mas também aliar impactos na economia, com maior geração de renda e empregos. Também gostaria de ressaltar a atuação do BRDE na questão de produção e consumo sustentável. O Programa BRDE PCS (Produção e Consumo Sustentáveis) atualmente é o mais demandado no banco. Os investimentos já somam mais de R$ 2,3 bilhões em operações. Representa, apenas neste ano, algo superior a R$ 480 milhões, em torno de 17% do volume de operações. É basicamente o dobro de cinco anos atrás. O banco tem um papel de incentivar essa mudança de postura.

A senhora começou o ano como secretária, coordenou a gestão de dados e agora está na presidência do BRDE. Neste contexto, qual foi o momento mais difícil em relação à pandemia da Covid-19?

Eu não tenho medo de assuntos complexos. Em 2018, tive vários convites para vários projetos, no exterior e em outros estados. Mas o Rio Grande do Sul me parecia o mais desafiador. Não conhecia o governador Eduardo Leite, mas o discurso da campanha me chamava atenção. Ele é jovem, tem a idade do meu filho mais velho, e me passa segurança, tem muita convicção do que está fazendo. Então aceitei o desafio. Neste ano, com a pandemia, havia necessidade de informações e de dados de qualidade para a tomada de decisões. Eu sempre trabalho com dados. Trabalhar na política pública com dados é muito importante. Então, tive que montar essa estrutura (Comitê de Dados do RS), com mais de 40 instituições, em um curto período de tempo. Em março fechamos (as atividades, por conta da pandemis) e em abril vimos que não era possível reabrir de qualquer jeito. Não dava. Era preciso ver o desenvolvimento econômico, o nível de risco e elaborar um modelo, que virou inclusive modelo para outros estados. Esse foi um momento tenso e de muito trabalho. Tinha dias que começava às 7h e seguia até a 1h do dia seguinte. Hoje temos um cenário diferente, a abertura está modulada, mas também tem o cansaço da população, uma certa desobediência. Mas acho que conseguimos retomar os setores e foi satisfatório. Mas esse início foi um momento muito difícil, tenso e duro.


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