Branco Mello: "Não somos uma banda datada, estamos sempre em movimento"
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Branco Mello: "Não somos uma banda datada, estamos sempre em movimento"

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"Quem for no Bourbon Country, vai ter um aperitivo da nossa ópera rock" , diz Branco Mello. Foto: Silmara Ciuffa / Divulgação / CP


Após alguns shows em teatros pelo Brasil, os Titãs perceberam que poderiam potencializar sua performance e montaram um show que valoriza o intimismo e a proximidade com seu público. Com realização da Opus Promoções, o grupo apresenta “Uma Noite no Teatro”, nesta sexta-feira, às 21h, no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80). Os ingressos estão à venda com preços entre R$ 80 e R$ 220 (inteira). Além das músicas tradicionais de seu repertório, tocadas pela banda completa e com toda a voltagem roqueira proporcionada por Beto Lee (guitarra) e Mário Fabre (bateria), o trio original remanescente, Sergio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto, criou um momento especial: eles apresentam um set acústico em que tocarão individualmente e em trio alguns clássicos titânicos há tempos fora de seu setlist como “Isso”, “Enquanto Houver Sol”, “Toda Cor”. 

Conforme Branco Mello, o grupo também apresentará algumas canções inéditas que estão sendo trabalhadas desde o ano passado – “12 Flores Amarelas”, “Me Estuprem” e “A Festa” para uma ópera rock que só estreará no ano que vem. “Titãs – Uma Noite No Teatro” marca a celebração de 35 anos de carreira de uma banda que nunca fica datada. Nesta entrevista ao Correio do Povo, Branco Mello fala sobre o show, a ópera rock e momento da banda.

Correio do Povo: Fale um pouco sobre este formato em teatro, condensando músicas que os fãs gostam com canções novas que estarão em projeto novo.
Branco Mello: Este show a gente fez para a inauguração do Teatro Opus, em São Paulo, que é a mesma turma, produtora aí do Bourbon Country. É uma apresentação que tem quatro partes, na verdade. É um show feito eminentemente para teatro. Foi projetado para assistir sentado. Uma coisa que não vínhamos fazendo há um bom tempo. A gente está gostando deste formato até porque a gente está fazendo uma ópera rock, que a gente vai lançar no ano que vem e será em teatro. A primeira parte do show são as nossas músicas com o quinteto. Na metade do show, a gente vira um trio e tocam só os remanescentes, Britto, Tony e eu.

CP: Nesta parte do trio, são as músicas dos 80 e 90, as mais clássicas?
Branco Mello: O Tony toca e canta uma música dele, das antigas, dos hits, que será “Isso”. Eu canto “Toda Cor”, uma música do nosso primeiro disco, só no violão. O Britto canta e toca piano em “Miséria”. Então a gente faz uns números individuais e depois nos juntamos os três para tocar mais umas três músicas, mais alguns clássicos como “Televisão”, “Flores”, aí entram novamente o Beto Lee e o Mário Fabre. Aí estamos no meio do show. Depois, a gente toca três músicas novas: “12 Flores Amarelas”, “Me Estuprem” e “A Festa”. Estas três fazem parte de um projeto que tem 25 músicas, que é o da ópera rock. Vamos dar uma pincelada na ideia da ópera, com as projeções dirigidas pelo Otávio Juliano, que trabalha com a gente e dirigiu o filme “Sepultura Endurance”, do Sepultura.

CP: Agora tu aguçaste a nossa curiosidade. Conte-nos mais sobre a ópera rock.
Branco Mello: Também vai trabalhar com a gente na ópera rock o Hugo Possolo, dos Parlapatões, e o Marcelo Rubens Paiva. Nós três estamos escrevendo a ópera, o libreto. Já temos estas 25 músicas e o Otávio Juliano fará a parte visual desta ópera. Já estamos fazendo algumas experiências nestes shows em formato para teatro. Este “Uma Noite no Teatro” virou um espetáculo incrível, que contém um monte de fases dos Titãs. Fizemos há uns dois meses no Guairão, em Curitiba. É um show importante, tem consistência, conta boa parte da nossa história e aponta para o futuro que é a ópera rock, ainda sem nome. Temos as músicas, estamos terminando o libreto. É um momento muito bom da banda, depois de todas as mudanças pelas quais passamos.

CP: Quero saber um pouco mais do Branco Mello, que é o cara mais cênico e audiovisual da banda?
Branco Mello: A gente está fazendo 35 anos de banda. É bastante tempo. Com esta história toda, com as mudanças, com a quantidade de pessoas que já saíram. Quando começamos, nós éramos oito. São muitas experiências. Já temos atitudes positivas em relação às mudanças. Elas nos instigam. A mudança sempre é bem-vinda. Temos que descobrir novos caminhos, fazer novas opções, aceitas novos desafios na carreira, na vida, é muito interessante. Fazemos da mudança a nossa força inovadora. Nunca se repetir, fazer projetos sempre diferentes. Esta riqueza é que faz a história dos Titãs ser tão bonita, forte e poderosa. Não somos uma banda datada, estamos sempre em movimento. Eu fiz o filme dos Titãs: “A Vida Até Parece uma Festa”. Eu tenho um pouco desta coisa de contar a história, de ter filmado na época, de ter contado os momentos da banda, de ter conseguido realizar um filme que eu vinha realizando desde que eu comprei uma câmera VHS lá atrás. Tive muitas experiências com teatro. Minha mulher é produtora, atriz. Eu fiz uma ópera rock infantil no final dos anos 1990, chamada “Eu e Meu Guarda-Chuva”. Era rock para crianças, estrelado pela Andréa Beltrão. Saiu inclusive um CD da ópera, com o Tony Garrido, Cássia Eller, Arnaldo Antunes e eu. Teve a versão livro, CD e teatro. Depois virou um longa-metragem. Eu fiz a trilha sonora, que era mais sinfônica. Além dos projetos com os Titãs, eu também faço trilhas de filmes, peças e novelas. Sempre estou nestes projetos paralelos. Há mais de 20 anos que faço trilhas. A ópera rock tem muito a ver com tudo isto. Também fiz “Jacinta”, com a Andréa Beltrão, que foi uma comédia rock. Fizemos todas as músicas. Com os Titãs, me parece que é a primeira vez que uma banda brasileira compõe uma ópera rock inédita. Quem for no Bourbon Country, vai ter um aperitivo destas músicas da ópera rock.

CP: Sobre estes 35 anos de carreira dos Titãs, você pode nos contar algo inusitado ou inesperado ocorrido com a banda em show, na estrada ou no estúdio?
Branco Mello: A gente fez uma turnê lá pela segunda metade dos anos 1980, que foi uma das primeiras grandes pelo Rio Grande do Sul. Tenho uma recordação que a gente fez uma viagem com dez shows em 12 dias excursionando em um ônibus. Era entre 1986 e 87, entre o "Televisão" e o "Cabeça Dinossauro". Teve um show que foi interrompido com a chuva. Não me lembro se era em São Leopoldo, num ginásio aberto. Nesta mesma época, tivemos um problema parecido em Salvador. Estava chovendo muito e começou a dar choque em todo mundo, no microfone, na guitarra, no baixo, porque molhou os instrumentos e a gente teve que sair do palco. Nesta época, as pessoas que acolhiam os shows de rock estavam engatinhando. A estrutura era muito mais precária, o rider técnico, a falta de cobertura. Estas coisas de começo de carreira.

CP: Atualmente quem são os parceiros musicais da banda?
Branco Mello: A gente tem esta coisa de se misturar com outras bandas com propostas afins, de geração ou parecidas com a gente. Esta parceria com o Xutos & Pontapés vem de longa data. A gente fez uma turnê grande por Portugal no final dos anos 1980. A gente fazia o nosso show e eles faziam o show deles. Nesta época, não tocávamos músicas juntos. Depois de 20 anos, nos encontramos no Rock in Rio para fazer um show no Palco Sunset e aí foi demais. Fizemos na Cidade do Rock, no Rio de Janeiro, e no ano seguinte fomos para Portugal tocar no Rock in Rio Lisboa. Ensaiamos muito neste período. Aí foi uma parceria de banda com banda, aos moldes da que nós fizemos com os Paralamas do Sucesso. Ficamos dez dias em Lisboa ensaiando no estúdio deles. Eles são os Titãs portugueses. Fazem um som muito legal. Com os Paralamas sempre tivemos uma parceria, vários shows. Agora estamos fazendo uma parceria com o Hugo Possolo, dos Parlapatões, que vai dirigir a encenação e o Marcelo Rubens Paiva, texto, para este libreto da ópera rock. Já temos a temática, a história, mas não podemos adiantar, porque ainda estamos amarrando melhor a narrativa. A prévia da ópera estará nestas três músicas do show “Uma Noite no Teatro”.

por Luiz Gonzaga Lopes