Edson Prestes: “É importante um debate público para discutir o uso da tecnologia”
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Edson Prestes: “É importante um debate público para discutir o uso da tecnologia”

Por
Tiago Medina

Prestes ressalta necessidade de atribuir responsabilidades ao uso de dados

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Foi em 2015 que o professor Edson Prestes repensou sua carreira. Engenheiro, especialista em robótica, deu-se conta que até então pouco havia debatido e discutido a ética em ações sobre a transformação digital da sociedade. Integrante do painel de alto nível do secretário geral das Nações Unidas em cooperação digital e membro do IEEE, uma organização dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade, hoje ele busca salientar a importância da avaliação de conceitos na área para evitar, em um cenário mais distópico, o que considera uma verdadeira “ditadura digital”. 

Professor da Ufrgs, ele ressalta a importância da proteção de dados em um momento anterior à chegada do 5G, que deverá acelerar o desenvolvimento de máquinas com inteligência artificial. Quem tem dados, tem informações. E quem tem informações consegue manipular diretamente a vida alheia, adverte ele. 

Correio do Povo: Onde entra a ética no processo de transformação digital da sociedade?
Edson Prestes:
Para começar, o que é transformação digital? Esse é um primeiro ponto que temos que esclarecer. E em todos os aspectos entra a ética. Discutir ética é discutir implicações. Implicações sociais do uso da tecnologia. Toda vez que tu tiveres uma tecnologia entrando em contato, interagindo com o usuário, tendo um usuário na verdade, tu vais precisar discutir qual o impacto desta tecnologia na vida das pessoas. 

CP: Não é algo que tenha sido muito discutido, na sua opinião?
Prestes:
Certamente. Na verdade, é uma área muito recente. As pessoas começaram a acordar para isso uns quatro anos atrás, encabeçadas pelo IEEE, que criou uma grande iniciativa que envolve pessoas de diferentes nacionalidades e perfis discutindo ética no sistema de inteligência artificial. 

CP: Existe uma forma eficaz e individual de proteger nossos dados hoje em dia?
Prestes:
Atualmente, a proteção em si ainda não é 100% garantida. Mesmo que tu consigas ter inúmeros mecanismos de segurança. A gente sabe que em algum momento do tempo, esses mecanismos vão ser quebrados e os dados estarão expostos. O que se tem feito bastante é, além disso, adicionar uma camada de anonimização. Ou seja, de forma que a gente não consiga acessar quem é a pessoa à qual aqueles dados se referem. Mas mesmo assim tu consegues fazer inferência e descobrir quem é o dono dos dados. 

CP: Para ti, qual o risco de uma centralização excessiva de dados? Seja por um governo ou por uma empresa.
Prestes:
Vamos supor que tu tenhas tudo centralizado. E aí um hacker acessa esses dados. Aí, ele tem toda a tua vida. Consegue extrair inúmeras informações sobre a tua vida. Não somente informações como CPF e nome. Mas também sobre hábitos, porque se teus dados estão centralizados, tu consegues pegar dados financeiros, médicos, hábitos que sejam desde que ruas tu andas, que tipo de lojas tu visitas, qual o teu perfil de comprador e uma série de outras coisas. Tendo teus dados, ele tem basicamente controle das tuas informações e consegue te manipular diretamente. Mas, em termos de serviços, se ocorre uma falha no teu sistema, o que vai acontecer? Certamente tu poderias cair fora do sistema. Ou ter o serviço negado. 

CP: A legislação sobre controle de dados, ela está defasada? Se for o caso, em que direção a legislação deve caminhar?
Prestes:
Não é que ela seja desatualizada, mas os problemas estão começando a aparecer. Quando a gente pensa em um mundo interconectado, nós pensamos em dados que estão fluindo entre países. E aí qual a legislação vigente se tu tens os dados coletados no Brasil, mas armazenados fora do Brasil? Esse dado vai estar sendo submetido à legislação do Brasil ou de fora? Isso é algo que está sendo discutido agora, essa navegação de dados além fronteiras. Em relação ao Brasil, nós estamos avançando. Temos nossa lei de proteção de dados, mas tenho algumas restrições sobre ela. A primeira é que ela é fortemente baseada na legislação europeia. Ela foi construída levando em consideração as características da comunidade europeia. É muito difícil pensar em uma solução que se adeque a toda e qualquer situação. Então, se nós pensarmos em uma legislação única, vamos encontrar uma série de problemas, especialmente socioculturais. Para mim, é muito fácil imaginar que ela não está adequada à nossa realidade. Na própria Europa, essa lei de proteção de dados é muito prejudicial para pequenas e médias empresas. E essas pequenas e médias empresas têm uma realidade muito diferente das pequenas e médias empresas daqui. Se ela já não é adequada lá, qual o impacto que ela vai ter aqui? Esse é um dos problemas. E também relacionado às bases de dados. Sei que existem algumas exceções sobre compartilhamento de dados. E dados são as coisas mais importantes que tu podes ter na tua vida. A partir dos dados, você pode extrair inúmeras informações. A questão é: como é que essas informações vão ser utilizadas. É muito fácil pintar um quadro muito bonito, dizer que o mundo é maravilhoso, que a tecnologia vai ser sempre utilizada para o bem. Porém, é importante que exista um debate público para discutir o uso desta tecnologia. Os dados podem ser utilizados para discriminar, segregar, para, por exemplo, rastrear ou supermonitorar minorias, entre outras coisas. Para mim, uma ditadura digital. A história mostra que esses casos distópicos ocorrem, e muito. 

CP: E já existe um contrapeso para tentar evitar esses problemas maiores? 
Prestes:
É necessário que exista um debate amplo, envolvendo sociedade, empresas, especialistas, governo. O que nós estamos discutindo é algo que está começando a ser discutido e tu precisas de uma visão holística. Se não, tu só vais ver parte do problema e não ele como um todo. É necessário que tu tenhas uma abordagem muito stakeholder. Por isso o IEEE é pioneiro neste assunto, ao conseguir reunir uma quantidade muito grande de especialistas para discutir inúmeros problemas, inclusive sobre proteção de dados, legislação e assim por diante. No fim das contas, tu tens dados, esses dados vão ser utilizados sabe-se lá como, e quando esses dados levam a uma consequência danosa, de quem vai ser a responsabilidade? Quem está discutindo isso? Esses dados serão entrada para o sistema de inteligência artificial. Como tu vais garantir que o sistema vai funcionar 100%? O que acontece nos casos que não funcionam? E existem inúmeros casos que não funcionam. Se não funcionam, isso acarreta diretamente a uma perda econômica, ou até uma perda física ou de vida. A pessoa pode morrer por causa dos dados, quem vai ser o responsável e prestar contas? Se não tivermos definidas regras claras, o que vai acontecer é que vamos continuar em uma terra sem lei. Como já foi dito em várias partes do mundo, empresas, em particular, estão em uma zona livre dos direitos humanos. Por isso que existem inúmeros manifestos, associadas à identidade digital. inúmeros casos que já foram datados, inúmeros grupos indo contra isso.