Glória Menezes: "Personagem preferido é o desafio do momento"

Glória Menezes: "Personagem preferido é o desafio do momento"

publicidade

"Adoro trabalhar com jovem, pois a gente fica mais jovem também" Foto: Louisiane Cardoso / Especial / CP


Glória Menezes volta a Porto Alegre nesta semana para encerrar a temporada da peça "Ensina-me a Viver", ao lado de Arlindo Lopes. Dirigido por João Falcão, o espetáculo ficará em cartaz até o dia 11 de outubro com sessões de quinta a domingo no Theatro São Pedro. A história mostra Harold (Arlindo Lopes), um jovem obcecado pela morte, e Maude (Glória Menezes), uma senhora apaixonada pela vida. Ao se encontrarem, ela cheia de alegria e positividade, ensina ao sensível  jovem, os prazeres da vida e da liberdade. 

Correio do Povo: Como é comemorar o seu aniversário com esta peça? 

Glória Menezes: Foi uma coincidência, porque eu não programei nada. Nós estamos com esta peça há oito anos, e agradeço a Deus por ter continuado fazendo e espero voltar. Vou fazer uma novela, mas eu quero voltar. A novela termina em maio, então acho que dá pra gente fazer algo em tempo. O (Marco) Nanini e o Ney (Latorraca) ficaram 12 anos com "Irma Vap", eu não quero ficar tanto tempo, mas posso ficar mais um pouquinho (risos). Então é um prazer, a Maude é tão querida e é uma satisfação tão grande poder fazer esse personagem, a direção do João (Falcão) é linda. O Arlindo (Lopes) é maravilhoso, um colega incrível. Somos uma família hoje em dia. Você acaba convivendo mais do que em casa praticamente. Sai no domingo e volta a uma hora da manhã porque janta junto. E deixa eu aproveitar. Tô com 80, sei lá quanto tempo vou durar.

CP: A personagem Maude é uma das suas preferidas? 

Glória Menezes: A preferida é a que você está fazendo, é o desafio do momento. Já tive vários outros personagens, mas eu não tenho essa preferência, vamos dizer assim. No momento que eu li a Maude, e comecei a fazer a Maude, foi um desafio. Estou há oito anos e já viajei este Brasil inteiro, fiz 200 cidades no estado de São Paulo. Tenho um público de 16 anos, 12 anos até os 80. Este é o prazer que eu tenho. Eu fiz espetáculo na periferia de São Paulo, e que é uma ma-ra-vi-lha! São teatros da periferia patrocinados pela prefeitura. De repente, entra uma senhora de 91 anos e um bebê de 4 meses no colo da mãe. Chegaram pra mim: "eu posso deixar entrar esta mãe com esta criança?" Eu falei: "deixa, são da favela, são da comunidade, da Brasilândia. Se esta criança chorar, você tira. Mas se não chorar, deixa ficar". E não chorou, ficou o espetáculo inteiro contida, tem musical e tem tudo, e ela lá quietinha. E é este é um prazer que a gente tem. De ter estas duas pessoinhas na plateia. Aquela senhorinha com cabelinho branco, indo pela primeira vez no teatro, e uma criança de 4 meses no colo da mãe. Você quer uma coisa melhor do que isso? Na nossa profissão, acredito que não. 

CP: Como surgiu o convite para esta peça? A senhora conhecia Arlindo? 

Glória Menezes: Foi Arlindo (Lopes) e Maria (produtora da peça) que me ligaram e convidaram. Eu aceitei de cara. Com a faixa de idade que eu estava (eu ainda não tinha 80), é difícil achar um personagem como a Maude, tão vibrante, tão verdadeira, tão jovem. Ela, apesar da idade, é de uma jovialidade tão grande. 

CP: A senhora trabalha com este personagem, e há intervalos entre as temporadas. 

Glória Menezes: Sim, para fazer novela, e depois volto para fazer o "Ensina-me". 

CP: Nesse meio tempo, há uma diferença entre uma temporada e outra? 

Glória Menezes: Não. Tem o normal de público. Porque em cada lugar que você vai no Brasil, dependendo da cidade, do lugar que as pessoas vivem, elas têm um tipo de comportamento.

CP: Como é adaptar um personagem que já existe? A senhora se mantém fiel ao original ou desconstrói? 

Glória Menezes: Eu não troco uma palavra. Eu sou muito chata nisso. Posso botar uma coisinha ou outra. Olha, depois de oito anos, eu coloquei uma palavrinha a mais, que deu um estouro de gargalhadas, e eu pensei: "Meu Deus! Há oito anos eu poderia ter falado isto antes". (risos) 

CP: Por que escolheram passar tanto tempo com esta peça? 

Glória Menezes: Por que não? O público pede. Enche o teatro. Por que parar? Eu tenho prazer de fazer. Fazer sucesso hoje em dia no teatro tá cada vez mais difícil. É incrível que as pessoas pedem pra gente continuar. O público vibra com esta peça. Por que deixar de fazer uma coisa que o público tá gostando de ver e renovando? Não há motivo nenhum. Eu até sou convidada para fazer outros espetáculos, mas o "Ensina-me" tá na frente, não vou largar a Maude assim. Porque eu preciso fazer a Maude. Enquanto der, eu estou aí. 

CP: Existe um motivo especial para encerrar a temporada aqui? 

Glória Menezes: Não, mas claro que fico contente em terminar na terra que eu nasci (Glória nasceu em Pelotas); Mas isto foi uma questão de encontrar teatro vago, marcar data, é uma coisa complicada. Não é assim, vamos terminar no dia tal em Porto Alegre. Coincidiu tudo. Eu não posso me queixar de absolutamente nada. Teve uma vez, uma atriz da TV Excelsior, eu tava do outro lado da rua e ela gritou: "Faz sucesso na carreira e é casada com o homem mais lindo do Brasil!", virou as costas e foi embora. E eu falei: "É verdade!"

CP: Foi uma escolha ter poucos filhos? 

Glória Menezes: Eu casei muito cedo. E não deu tempo também. Era uma época que a gente trabalhava e viajava muito. Deixei muito o Tarcisinho (Tarcísio Filho) com minha mãe naquela época. A gente saía pra fazer novela por aí. E fazia teatro também, em Manaus, Belém, Bahia, Pernambuco. Então não deu. Era uma época que a televisão estourou, e o ator não era muito conhecido. Então, quando a gente quis ter, aí não dava mais.

CP: Como a senhora enxerga a dramaturgia brasileira? Qual transformação ocorreu após tantos anos de carreira

Glória Menezes: Tem autores novos aparecendo, atores e atrizes jovens. Nosso país estaria indo pro buraco se não tivesse esta renovação. Não só na arte, mas em todos os setores. Dou a maior força pra quem começa. Adoro trabalhar com jovem hoje em dia, pois a gente fica mais jovem também. 

CP: E a senhora observa uma diferença nos personagens femininos? 

Glória Menezes: Claro, eu sou completamente diferente de ti. Nós temos temperamentos diferentes. Vivências diferentes. Criação diferente. Tudo, tudo se influencia na formação da personalidade. Nós somos mulheres, mas mulheres diferentes. Quanto mais diferente, melhor.  

CP: Nestes anos todos, ainda existe algum papel que a senhora ainda queira fazer? 

Glória Menezes: Eu nunca quero fazer nada. O que bate aqui, (aponta para o colo) a surpresa que eu leio, os convites que me fazem, eu nunca idealizei "quero fazer Joana D"arc". Eu tenho a surpresa das coisas que me aparecem. Até com a Maude, eu vi o filme na década de 70 e não tinha idade pra fazer. Gostei muito de ver a atriz, baixinha, pequenininha. "Olha que personagem legal esse. Será que vou ter idade pra fazer isso?” E tive.  

CP: A senhora ter um tempo para curtir ou passear pela cidade quando vem aqui? 

Glória Menezes: Não dá muito tempo. Eu adoro o Sul. E eu tenho uma coisa e outra pra fazer, mas eu gosto. É a minha profissão, gosto disso e estou feliz nela. Fazer sucesso nessa profissão é muito difícil, então não posso reclamar.

Por Lou Cardoso

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895