Madeleine Peyroux: "A bossa nova tem uma qualidade meditativa extremamente importante para a alma"
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Madeleine Peyroux: "A bossa nova tem uma qualidade meditativa extremamente importante para a alma"

Cantora abre turnê nacional do disco "Anthem' nesta quinta-feira, em Porto Alegre

Por
Eric Raupp

Cantora revela admiração pelo gênero brasileiro

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Apesar de ter nascido nos Estados Unidos, o amor pela música que Madeleine Peyroux carrega decorre muito de sua tutela de adolescente no Quartier Latin, de Paris. Com a separação dois pais, quando tinha 13 anos, ela deixou o estado norte-americano da Geórgia, e mudou-se com a mãe para a França. Ainda adolescente, começou a se apresentar nas ruas da Cidade Luz, mas não tinha um plano definido para vida e não se imaginava viajando o mundo performando em teatros e casas de shows lotadas.

Descoberta por um produtor local, lançou em 1996 seu primeiro disco, “Dreamland”, cuja repercussão mediana não impediu que ela continuasse a desafiar os limites do jazz e a unir suas referências de vida para formar sua própria sonoridade.

Nove álbuns e 23 anos desde a sua estreia discográfica, Madeleine ainda aventura-se pelos campos férteis da música contemporânea com uma curiosidade que a faz flertar com vários gêneros musicais de forma criativa e inspirada. Nesta quinta, ela abre turnê no Brasil com show no Auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, na qual apresenta algumas das canções mais populares de seu repertório e também divulga o seu mais recente álbum, “Anthem”, lançado no ano passado. Em conversa com o Correio do Povo, a cantora relembra sua trajetória, analisa o estado de Arte do jazz e comenta suas inspirações para o trabalho.

Correio do Povo: Você começou como uma artista de rua e hoje tem nove álbuns e performa em teatros lotados ao redor do mundo. Qual é a lição ou habilidade mais importante que você aprendeu nessa posição?

Madeleine Peyroux: Acho que aprendi tudo com minhas experiências nas ruas, aprendia algo novo o tempo todo. Conheci músicos que tocavam em Paris e os ouvi primeiro para ver como faziam. Em um verão, os acompanhei e, então, arrisquei. No começo, saí da escola e perdi um pouco da minha infância; era um pouco cedo para levar essa vida. O melhor de tudo foi que, enquanto eu estava em perigo, nunca tive problema. Uma lição de vida que aprendi desde que comecei é que eu pensava que algumas pessoas não entendiam a tragédia, mas eu não penso mais assim, sei que todo mundo tem um pouco dela dentro de si.

CP: Suas canções transparecem influências musicais diferentes. Obviamente o jazz está lá, mas também muitas outras coisas, como blues, folk, soul-funk e pop. Essa mistura sempre existiu para você?
Madeleine: 
Faz parte da cultura americana ter um pouco de todas essas coisas, mas acho que também faz parte do ambiente e do caminho nos quais fui criada. Cresci ouvindo muitos tipos diferentes de música e acho que isso manteve minha mente aberta para todos os estilo. E isso continua fazendo parte da música que eu toco. Quero dizer, você é criado para aprender músicas diferentes e para discernir por que acha que é boa ou não. Essa é uma questão complicada, porque há questões que você pode admirar mesmo que não goste ou forme uma opinião. Por exemplo, acabei de descobrir um estilo de Aruba e Curaçao, que é chamado de tumba. É um padrão rítmico muito estranho, que é tão difícil fazer. Então eu apenas ouço e admiro.

CP: Nessa mistura, onde se encaixa a bossa nova na sua vida e trajetória? Sei que você a admira e faz algumas interpretações de clássicos quando se apresenta no Brasil.
Madeleine: A música era uma atividade criativa em minha casa, então eu ouvia bossa nova alto quando criança e amava a harmonia das canções. Quanto mais eu descobri Tom Jobim, mais me fascinava pelo arranjo harmônico e o tipo de foco incrível melodia. Isso me lembrou como os Beatles haviam adaptado alguma harmonia clássica e fiquei encantada com isso. Uma das coisas que eu gosto na bossa nova é que ela é uma maneira de aprender sobre harmonia e obter um novo visual na música. Pelo que eu entendo, há algumas notas que são constantemente as mesmas durante toda a faixa, então há um aspecto de charme muito drenante. E há algo muito – não sei como os artistas fazem isso – encantador, como também na música folclórica de Leonard Cohen, que vem da antiga tradição judaica. Essa é uma das razões pelas quais a bossa nova tem uma qualidade meditativa e isso é extremamente importante para a alma.

A partir dessa formação, como você vê o jazz?
Madeleine: Não vejo o jazz como um tipo específico de som. Para mim, é uma oportunidade de me libertar, de explorar novas harmonias e ritmos. Cada trilha evoca uma longa história, essa mistura de blues, música clássica ocidental. Tento sentir a letra ou a ideia, o humor e as vibrações de uma melodia por todo o corpo.

CP: Anteriormente você falou sobre Leonard Cohen. O nome de seu mais recente álbum é também o de uma música dele. Por que esta canção em particular te inspirou?
Madeleine  
A atual situação política é muito deprimente. Debatendo com Larry Klein, um ano antes da eleição (de Donald Trump) ele apontou para a música. As estrofes de “Anthem” me obcecaram por um longo tempo, é como se me chamassem constantemente. A imensa poesia de Cohen criou um vínculo entre a íntima honestidade das pessoas e a situação política. Ele sabe que, para sobreviver, todos estão cientes de seus limites. Que não conseguimos permanecer totalmente honestos. Isso representa muito a nossa vida diária nos Estados Unidos... Por fim, o "Anthem" deu cor ao álbum inteiro.


CP: Diferentemente dos outros álbuns, “Anthem” tem essa crítica social bastante forte e traz majoritariamente letras autorais. Por que essa mudança na forma de trabalho?

Madeleine: Sempre trabalhei muito com interpretações de outras canções. Hoje dia acho um pouco mais fácil selecioná-las porque faço isso há muito tempo, mas o importante é encontrar algo pelo qual me apaixone, alguma maneira de comunicar o que a música significa para mim. Eu realmente sinto que sempre escolho músicas porque elas falam sobre questões que nos tocam pessoalmente de alguma forma. E, obviamente, questões políticas e sociais são pessoais no fim das contas. A diferença nesse disco é que essas eram coisas que eu queria dizer nas músicas, mas não consegui encontrar nenhuma outra que já havia sido escrita e falasse como estava me sentindo. Eu sempre escolhi para tocar e gravar canções que expressassem como me sinto sobre o que está acontecendo, mas cheguei ao ponto recentemente, por causa da política que o mundo estava produzindo, em que não posso falar sobre isso sem escrever uma nova música. Então, ele é mais político no sentido de que há alguns comentários diretos sobre o que está acontecendo no momento.

CP: Você morou na França por muitos anos. Como isso influenciou sua vida, a maneira como você vê o mundo, como consome música?
Madeleine: 
Minha mãe é professora de francês. Desde pequena, ela fala comigo nesse idioma. Quando eu tinha 13 anos, nos mudamos para Paris, depois que ela recebeu um emprego, e houve um grande salto para mim. Estar na França me deu uma perspectiva da América que eu nunca poderia ter sem sair dela. É realmente muito complexo ver seu próprio país de longe, de outra projeção. Isso me ensinou muito em termos de me dar uma perspectiva que permite que você seja neutro e pense, veja o que é bom. Hoje, vejo o que é ruim e não há nada que posso fazer para mudar o passado, mas estou ciente disso, sei quem somos maus em alguns aspectos. Entendo melhor a América depois de ter saído e me afastado. Voltando aos nossos tempos recentes, ainda é muito difícil ver como meu país é louco.

Falando sobre música, subitamente fui levada para longe do rádio americano, que tinha uma real falta de sensibilidade em relação à música que tocava. A tradição folclórica na França é outra camada de música para mim, porque me deu também a habilidade de falar francês, que é uma linguagem muito poética. Eu acho que ela é focada no aspecto vocal das músicas e eu amo isso. É o oposto talvez das músicas tradicionais irlandesas que eram para pessoas que moram nas montanhas e poderiam ser ouvidas de muito longe. Mas cantar é para pessoas em pequenos grupos próximos.


CP: Então isso te fez repensar sua relação com a música americana?

Madeleine: Sim. Eu acho que morar na França me deu uma perspectiva de quão incrivelmente complicada a música americana é. E também me deu a ideia de que é um mundo muito maior do que eu pensava. Quero dizer, o mundo não é apenas música americana. É por isso que estou fascinada com o porquê dela se relacionar tanto com tantas pessoas. Gostaria de pensar que há uma razão social por trás disso, que é apenas movimentos que durarão alguns anos e, às vezes, pode ser uma coisa realmente importante. Mas a música tem o poder de expressar ideias. Afinal, ela existe apenas quando soa. É assim que eu gosto de pensar, mas sei que muitos grandes músicos vão discordar completamente disso e eu respeito totalmente o pensamento de outras pessoas também.

CP: Alguns argumentam que o jazz ficou preso no tempo. Estando na Europa e nos EUA, como você percebe essa questão?
Madeleine Não quero falar do jazz como um fenômeno puramente sólido - o ponto de partida deve ser algum tipo de mensagem, como em qualquer arte. Por exemplo, não estou inclinada a considerar a escultura e outras obras como firmemente ligadas a um tempo ou outro, trancadas em suas próprias épocas. Não vejo razão para absolutizar todas essas definições. Estou mais interessada no que isso nos diz, qual o significado que investiu. Mas agora, a tecnologia mudou a maneira como as pessoas se comportam em geral, e isso também afeta o que está acontecendo na arte. Você pode conversar com qualquer pessoa onde quer que esteja, acessar qualquer música pelo YouTube e muitos outros recursos. Talvez o jazz resista em preservar sua origem.

O jazz americano já foi muito inovador. Ao mesmo tempo, estando na Europa e ouvindo o que foi produzido lá, percebi que o europeu era algo parecido com música que havia aparecido 20, 30 anos atrás, nos Estados Unidos. O jazz não é música tradicional e, se você pensar assim, perde a ironia. Então, se falarmos sobre o continente europeu, acho que no geral poderia ter sido melhor desde o início.