Os desafios do Comércio em 2021: "Empresas têm que se reorganizar e resistir, até a volta ao normal"

Os desafios do Comércio em 2021: "Empresas têm que se reorganizar e resistir, até a volta ao normal"

Especialistas analisam como superar no próximo ano as dificuldades nas áreas mais atingidas pela pandemia em 2020

Gabriel Guedes

Presidente da AGV, Sérgio Galbinski prevê um ano de recuperação para o setor

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Ao apagar das luzes deste ano atípico, é chegada a hora de pensar como superar os desafios que se desenham em 2021. Para isso, o Correio do Povo conversou com o presidente da Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo (AGV), Sérgio Galbinski, que olha para 2020 como uma oportunidade de transformação para o comércio e que 2021 consolidará estas mudanças, com novos hábitos dos consumidores, novos recursos para efetivar vendas e até mesmo um olhar mais atento à saúde dos negócios, que precisam estar cada vez mais preparados para enfrentar outras crises. 

A gente sabe que a troca de data no calendário, na prática, não muda nada. Mas com que ânimo o setor de comércio e serviços começa 2021? 

O comércio foi muito abalado, sofreu muito com esta crise, como muitos outros setores da economia. Mas o comércio, em especial de vestuário e calçados sofreu mais. O comércio é muito amplo, o setor de materiais de construção, estão vendendo muito bem. Mas como as pessoas estão ficando em casa, e gastando em material de construção, não estão comprando vestuário e calçado. Então, esta é uma gangorra, também, não tem eventos. E isso torna muito difícil administrar a loja. Vestuário tem uma coleção. Não é como piso. Piso até trocar de modelo. Mas roupa, no verão é blusinha, no inverno é blusão. No verão vende rasteirinha, no inverno vendem bota. E é difícil administrar vendendo pouco. Então o início do ano vai pegar na dificuldade. Eu falo mais do vestuário e calçado e mais da metade das lojas é de vestuário e calçado. E são lojas pequenas.
 
Acredita que uma inflexão na trajetória atual só virá com o início da vacinação contra a Covid-19? 

Sobre a vacinação foi importante ouvir o que o governador falou, que a vacinação para as pessoas em geral, vai ser só no segundo semestre do ano que vem. Pode até ser no primeiro semestre, mas primeiro vão dar pra um ou pra outro. Nem vidrinho pra botar as vacinas, têm. A gente tem que passar o recado, para os empresários, que eles têm que se reinventar para continuar existindo até que venha a vacina. Digo isso porque as empresas precisam renegociar aluguéis, comprar mercadorias suficientes para vender, mas que não sobrem para liquidar. As empresas precisam se adequar para vender menos 30%, por exemplo. Isso aí é abaixo do ponto de equilíbrio, mas as empresas continuam existindo, porque sabem que vai melhorar. As pessoas vão continuar existindo, vão continuar comprando calçados. O comércio sempre vai existir. Agora a gente está ameno, mas a gente vai voltar. Mas as empresas têm que se reorganizar para conseguir resistir até o dia em que a gente voltará ao normal. 

Vai dar uma tranquilidade, acredito, não ter que lidar com tantas mudanças e protocolos... 

Sim, com certeza, quando vier a vacina, uns dois meses depois, e aí as pessoas vão se sentir livre e o consumo vai voltar de forma normal. O que as pessoas vão consumir e como elas vão consumir e de que forma elas vão consumir, quais serão os canais, até lá vai mudar mais um pouco. Mas vai voltar. O mundo vai voltar. As pessoas precisam se vestir, tem pouco calçado. O consumo não é só de vestuário e calçado. Nós temos confiança de que vai voltar. Em casa as pessoas consomem bem menos, até comida.

Mudará o relacionamento do lojista com o consumidor? 

Nós acreditamos que o consumo vai voltar, mas ele vai voltar de outra forma. As pessoas vão consumir de uma forma diferente. Isso era uma coisa que já vinha vindo: mais compras pela internet, mais compras pelo WhatsApp. E o coronavírus, esta questão do isolamento social, foi o catalisador para que o on-line vendesse melhor que a loja física. Então, essa é outra coisa que temos que dar aos empresários: então, tem que mudar os canais de vendas, porque as pessoas podem adquirir um novo hábito. Não adianta dizer, que tudo vai voltar ao normal. O normal novo será diferente do normal antigo. 

E como será este diferente? 

Uma coisa é tu ter um site. Outra coisa é usar os canais digitais pra fazer vendas. Por exemplo, no site tem que ter estoque e se o cara comprou o algodão vermelho tamanho P, e comprou pelo quanto ela pesa, mas quando você usa os canais digitais para vender, é muito mais amplo: tu pode falar pelo WhatsApp, tu mostrar, tu pode fazer videoconferência. É muito mais amplo e mais legal do que só vender pelo site. Então, dá para o pessoal ir nesta direção, sem que os clientes venham na loja, ele faz uma entrega depois e ele já arredonda as tarifas lá atrás. As pessoas vão se acostumar com esta forma, mas elas vão te comunicar antes e ir na loja para buscar o que compraram. 

Acredita que a economia vá se recuperar naturalmente deste ano que está encerrando ou precisa de medidas adicionais por parte do governo? 

O governo já teve atitudes muito positivas. Teve a medida provisória 936, para colocar os colaboradores em seguro-desemprego. Depois o governo injetou um monte de dinheiro com o auxílio emergencial, que foram equivalentes a vários anos de bolsa família. É muito bom. Agora está diminuindo um pouco, mas é bom.  Os juros estão bem baixos agora, o que é muito bom também. Quer dizer, as torneirinhas que o governo tem para facilitar, está funcionando. Depois ele fez aquele Pronampe, que foi muito bom para os empresários. Então eles estão fazendo coisas positivas, e tem empresas que ainda só existem por causa do Pronampe e por causa da 936. 
 
Mas dá para tirar lições e aprendizados de 2020, não dá? Quais seriam estes? 

Eu acho que a gente sempre tem que manter os canais de vendas com os clientes, por que algum canal pode ser interrompido. Só a loja física não dá, só a internet não dá. Vários canais. Depois tem que ter várias formas de se manter em contato com os clientes, um canal de comunicação com os clientes. Porque alguma coisa pode acontecer. E depois, manter a esperança. O varejista é movido pela esperança. Tanto movido pela esperança dele quanto por perspectivas boas. Os clientes também têm expectativas de que vão continuar tendo emprego, recebendo salário, e as vendas vão acontecendo até por crédito, por que as pessoas acreditam que poderão pagar o crediário. Mas se as coisas começam a não estar tão otimistas, aí vira tudo um ciclo vicioso, que não funciona com o comércio. Então a gente tem sempre que manter o alto astral com os colaboradores, com os clientes, para que tudo siga bem.  

Mudou o perfil do consumidor ou adquiriu novos hábitos? 

Não é um novo perfil. São novos hábitos. Porque pessoas que não costumavam comprar pela internet ou por canais digitais, aprenderam a comprar. Tinham medo de usar o cartão de crédito pela internet. Depois que perde o medo, a coisa anda. Estão fazendo compras de supermercado, de lojas, pedindo tele-entrega e que não estavam acostumados. Mas quando o pessoal não tiver mais o receio de se contaminar, esse pessoal terá aprendido que dá para comprar. E estas vendas não vão voltar automaticamente para as vendas físicas. A gente acredita que 50% vai migrar de volta e outros 50% vão seguir pela internet. Claro, numa loja a experiência sensorial é diferente. Tu encosta a mão no tecido, na mercadoria, experimenta o vestuário, tu vê a cor bem. Às vezes as fotos na internet são tão boas. E isso aí nunca vai deixar de ser necessário, de buscar ter o conhecimento da mercadoria. Mas depois disso, o pessoal pode comprar pelo canal digital. Viu como as lojas físicas são importantes para ter contato com a mercadoria, mas a empresa precisa ter o canal digital. 

Tem alguma inovação que vai ser amplamente adotada pelo varejo em 2021? 

O PIX vai pegar. Você pode usar o PIX na loja física e na internet. Mas na loja física, o PIX ainda não está tão fluído, por que a gente tem que abrir a conta do banco - colocar a senha, botar a conta e ver o extrato -, pra ver se o dinheiro entrou. Por enquanto na loja física, o PIX ainda é um pouco complicado. Mas certamente, em pouco tempo, vai aparecer um SMS, avisando que o dinheiro entrou, igual quando se paga com o cartão. Então isso vai se tornar melhor. Do computador para a internet, via digital, isso vai facilitar a venda, porque não tem as taxas do cartão de crédito e normalmente pela internet você usa boleto. O boleto demora de um dia para o outro para compensar. Isso é um fator ruim.  E o cartão de crédito tem uma taxa que pode ir até uns 5%. Então o PIX vai ser muito mais prático, porque o dinheiro vai entrar e não tem tanta possibilidade de contestar a compra. O PIX vai tornar as vendas digitais mais seguras para as empresas e talvez até os preços possam diminuir, porque não vai ter tantos custos. O PIX vai realmente ser muito bom para aumentar a fluidez das contas.  

O ano de 2020 termina um pouco melhor para o comércio? 

As vendas até o Natal vão aumentar. Mas vai ser menos que no ano passado. Porque tem muitas restrições, de acesso, às lojas só podem receber 50% das pessoas, também de um pouquinho de horário. Nós teremos uma diminuição de 20% a 30% nos itens que estão presentes. Também temos que lembrar que temos muitas rescisões, o desemprego está alto no RS. Nós vamos ter um 13o reduzido, porque muita gente ficou na medida provisória 936. Temos um PIB bem menor, de menos 5%. Então este é um Natal totalmente diferente. Talvez o mais emotivo, porque muitas famílias perderam parentes, alguns estão doentes.  

Dá para manter o otimismo? 

Até semana passada, eu estava mais otimista. Nós pensávamos que com o calor, o contágio iria diminuir. E o que está acontecendo é o contrário. E nós temos mais gente hospitalizada hoje do que na época de inverno. Então, a gente percebe que este contágio, pela forma que apresenta, vai continuar assim até a hora de encontrarmos a vacina. 

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