Pedro Mairal: "O sucesso de um livro não se pode provocar"
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Pedro Mairal: "O sucesso de um livro não se pode provocar"

Autor escreveu "A Uruguaia", que está na 11ª edição na Espanha e continua entre os livros mais vendidos daquele país

Por
Correio do Povo

Mairal defende que sempre se deve escrever o melhor livro possível

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Muitos dizem que o argentino Pedro Mairal escreveu o melhor romance em língua espanhola dos últimos tempos. Não à toa, "A Uruguaia" já está na 11ª edição na Espanha e continua entre os livros mais vendidos daquele país. Foi um sucesso não por ter uma grande editora ou uma boa campanha publicitária, mas pelo reconhecimento dos leitores, o famoso boca a boca. Esteve na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, com o apoio do Instituto Cervantes de Porto Alegre e conversou com Ruben Daniel Castiglioni (Ufrgs), José Vicente Ballester (Instituto Cervantes) e Joise A. Corrent.

Você já conhecia Porto Alegre? 

Conheço Porto Alegre da estrada. Agora, do aeroporto ao hotel e do hotel a um shopping que desemboca na Feira do Livro. Essa é minha ideia de Porto Alegre, é como conhecer uns centímetros quadrados de um lugar, mas fiquei surpreso com a proximidade com a Argentina, com o Uruguai, por exemplo, vejo as pessoas tomando chimarrão... Também vi um homem vestido de gaúcho que era patrocinado por um banco... isso me pareceu estranho, estava de vermelho... Essa proximidade me fascina e isso quer dizer que as fronteiras não existem. O que sim existe são as regiões. As fronteiras são tentativas de impor limites. Para mim, há uma unidade de paisagens e isso se nota na linguagem, também. Além disso, Bioy Casares escreveu um livro intitulado “Memória do Pampa e dos Gaúchos”, que diz que não existe o pampa, essa ideia de "saio a galopar pelo pampa", nem existe a palavra “gaúcho”. Essa palavra se usava pouco no campo, se usa a palavra “paisano”, ninguém diz “gaucho” no interior da Argentina, no campo. Mas sim se diz “fazer uma gauchada”, que é fazer um favor, ou se usa um elogio: “É muito gauchito”.

Conheces a literatura gaúcha? 

Não. Lamentavelmente não a conheço. Do Brasil, gosto muito de Guimarães Rosa, que considero um gênio, sobretudo quando fala dos animais, do campo, das pessoas... Conheço alguns poetas e, principalmente, música. Meus pais vinham ao Brasil e levavam discos que fizeram a trilha sonora da minha infância e que me provocam uma grande saudade: Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, todos eles fazem parte da banda sonora da minha casa.

Fala um pouco das tuas influências na escritura, teus autores preferidos

Tenho raízes diferentes. Da Espanha, o uso do castelhano com Federico García Lorca, lembro de ter lido “O Romanceiro Cigano” e ter que recitá-lo porque provoca que seja falado, ouvido, não pode apenas ser lido em silêncio. Depois, descobri Francisco de Quevedo. Os porno-sonetos que eu fiz tem a raiz em Quevedo que era um grande porno-sonetista, era uma pessoa capaz de escrever a maior sem-vergonhice verbal. Era satírico, vulgar. Há alguns sonetos que, se trocarmos uma ou duas palavras, parece que foram escritos nos dias de hoje. São atuais e eu gosto muito mesmo. Outra influência que parece que estou mencionando para ficar bem com o Instituto Cervantes, mas que é verdadeira: Dom Quixote. Gosto de lê-lo e tenho uma gravação muito boa lida por atores. Gosto de ouvi-la quando estou dirigindo. Mas minha maior influência foi a poesia latino-americana, eu comecei a escrever canções, e a parte musical foi ficando de lado, e se conservaram as letras. E estas composições me levaram a escrever poesia. Comecei a ler Pablo Neruda, por exemplo, “Os Versos do Capitão”, poesia erótica em espanhol... daí passei a Cesar Vallejo, Enrique Molina... Inclusive uma vez fui visitar Molina, que tinha “o erotismo na palavra”. Foi algo paralelo ao descobrimento da sexualidade com a palavra. Enrique Molina era um grande poeta. Depois li Francisco Madariaga, outro poeta surrealista argentino. Mas um surrealismo que considero não alienado, diferente do surrealismo de André Breton, da “girafa em chamas”. Para tentar falar da realidade latino-americana é necessário ser um pouco surrealista, o mesmo para falar sobre sexualidade. Há algo que está por baixo ou por cima da realidade, que transcende a lógica, a experiência vital, essa ideia surrealista me fascina. A ideia de que a linguagem lógica e formal não alcança a descrever a existência. Disso eu gosto e isso é coisa dos poetas surrealistas.

Julio Cortázar fala a respeito da difícil relação da língua castelhana com o erótico e pornográfico para não cair apenas na pornografia...

As páginas de “Rayuela”, com palavras inventadas, eu sei de memória. Isso me influenciou enormemente. No capítulo 68 Cortázar usa palavras inventadas para falar de uma relação sexual: “Apenas él le amalaba el noema, a ella se le agolpaba el clémiso y caían en hidromurias”… eu peço nas minhas oficinas que façam a tradução desse trecho a palavras reais. Alguns alunos escrevem um texto muito pornográfico e outras um texto que parece uma partida de tênis. Mas, pela estrutura sintática ‘ele fez, ela fez’, são duas pessoas que estão fazendo alguma coisa, há uma estrutura erótica...

Ele teorizou sobre isso em algumas ocasiões e sempre gira em torno da dificuldade de escrever em castelhano literatura erótica...

Isso ele entendeu a partir de Oliverio Girondo porque o escritor, no livro “Masmédula”, inventa palavras, e essa linguagem de “Rayuela” que ele chama glíglico, tem a origem em Girondo. Tudo isso é surrealista. E esse primeiro encontro com a sonoridade do castelhano me modificou, me formatou. Eu era muito tímido, pouco articulado, esse encontro com a palavra me formou como pessoa.

Há uma grande importância do erotismo em toda a tua obra. Não só nos porno-sonetos, ou no “A Uruguaia”, em toda a tua obra...

Eu diria que me interessa o mundo da sensualidade e não o da sexualidade. Eu me preocupo muito com isso, que o corpo esteja presente e dou muita ênfase a isso nas minhas oficinas em Buenos Aires.

Morando atualmente em Buenos Aires, como explicas o surpreendente êxito do romance “A Uruguaia”, lançado por uma editora que não é das mais importantes? 

Leva 11 edições, há uma coisa certa: o boca a boca funciona, mas de repente uma atriz como Maribel Verdú o recomenda e isso faz muita onda. Também o boca a boca funciona com as redes sociais, mas eu acredito que o êxito não pode ser fabricado na Internet. Se eu me propusesse a fazer tudo de novo, acho que não conseguiria. Temos que escrever o melhor livro possível e algumas vezes teremos êxito, outras não. O certo é que o sucesso de um livro não se pode provocar.

O êxito que você teve na Espanha fará com que as pessoas leiam seus livros anteriores e que surjam novas edições.

Isso vai ser muito bom, mas complementando, eu acredito que o sucesso de um romance não pode ser provocado por robôs na Internet, por exemplo, porque as pessoas logo percebem. Tudo bem pôr a culpa nos robôs, mas, se não há pólvora, não há fogo.

Teu primeiro romance, “Uma Noite com Sabrina Love”, virou filme e foi estrelado por Cecilia Roth. Em seguida, passaste a ser considerado um dos melhores escritores da América Latina...

Sim, e o livro ganhou o Prêmio Clarín. O júri era composto por Cabrera Infante, Bioy Casares e Roa Bastos. A consequência disso foi que, mesmo me faltando três disciplinas para me formar em Letras, desisti do curso, do que me arrependo. O romance ganhou o prêmio e o grupo Clarín que é gigante, fez o filme em apenas um ano. Foi algo interessante, mas foi difícil de enfrentar. Foi como se fizessem cirurgia estética em um filho, parecia uma usurpação, mas ao mesmo tempo foi uma lição, e percebi, anos depois, que o diretor devia trair o romance, que estava autorizado a fazer isso. Tanta exposição me deixou em silêncio e passei sete anos sem publicar um novo romance. Tive que recuperar um silêncio interior, até porque eu não estava maduro, tinha 28 anos quando tudo isso aconteceu. Foi uma boa experiência e o livro alcançou um novo patamar na Espanha, na capa, a foto da Cecilia Roth...

Depois do êxito na Espanha, vais continuar morando na Argentina?

No ano que vem vou fazer uma experiência, vou apresentar um seminário em diferentes cidades da Espanha, provavelmente Barcelona, Madri, Sevilha.

Mario Vargas Llosa disse que para escrever um bom romance era necessário muito trabalho. É assim mesmo?

Em diálogo com Mario Vargas Llosa, o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti disse que a literatura era como uma amante que ele visitava quando queria. Mas que pensava que para Vargas Llosa era um trabalho, ao qual se obrigava a ir todos os dias... Concordo com Onetti. Para mim escrever é isso, visitar uma amante... mas a única!