Corpórea cabana

Corpórea cabana

Alina Souza

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A primeira rajada sempre é mais difícil, tal qual a realidade gelada que acerta a nudez depois de um banho morno. Aos poucos encontramos forças, e é preciso tê-las para enfrentar o frio que ousa entre as frestas, assovia, corta as esquinas, racha os lábios e nos encolhe. Abraçamos o corpo, tensionamos os músculos, sentimos. Uma tentativa de segurar tudo que vai ali dentro. Nessa casa revestida de pele, pelos e cabelos, moramos. Nessa estrutura feita de sangue e pulsões, protegemo-nos. O corpo: uma armadura feita sob medida para que a frieza não alcance nossos subterfúgios. Ali devem permanecer as reservas de calor. As lembranças acolhedoras depois dos rasgos de ventania. Os afetos agasalhados, o amor cobertor, as vivências e vozes aconchegantes. A saudade. Ali, entre veredas e avessos, persiste uma compacta rede de aquecimento. Por mais que as temperaturas baixem lá fora, por mais que o mundo valorize a frieza e a indiferença, abraçamos a nós mesmas e, nesse encolhimento nos expandimos, sentimos a brasa de nossas determinações.

(Aproveito para agradecer ao Matheus Piccini que produziu tão belos materiais neste espaço enquanto eu estive de licença-saúde.)


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