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Enxergar outros planos

Por
Alina Souza

Maturidade.

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Espreito a imperturbável calma do senhor que aproveita o sol da maturidade. As pessoas todas muito ocupadas, lutando contra a velocidade dos ponteiros do relógio, apegadas às mensagens de celulares. E o senhor ali, abraçando o tempo, correspondendo-se consigo mesmo. Alheio à urgência, talvez enxergando algo mais que nós, jovens, não conseguimos perceber. O semblante tranquilo, quase um sorriso de satisfação. Caminho trilhado. Dever cumprido. Eu paro e admiro. Sinto vontade de sentar ao seu lado e perguntar quais são os segredos para não arrancar os cabelos nos momentos tensos, como lidar com desentendimentos e secar as lágrimas insistentes. Até cogito em pedir emprestado umas doses de sabedoria, paciência, obstinação. Mas, pensando melhor, não levo a ideia adiante. Eu estaria interrompendo sua paz. Ele me olharia espantado e certamente diria “calma, menina, o fim do mundo não é amanhã”. Respiro fundo e, dentro da pausa, compreendo que existência ultrapassa a superfície imediata. Nem tudo se resolve hoje. O que é um dia perto de uma vida inteira? 

 

Texto e fotos: Alina Souza