Sinal vital
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Sinal vital

Por
Alina Souza

Grafite em tapumes de obra na Rua dos Andradas.

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Não dá para levar a vida tão à sério, dizem os sábios. Eu me esforço para tanto. Às vezes, caminho taciturna, mas a paisagem salva, ameniza, distrai. Todas as cores ao longo do trajeto são bem vindas para contrapor à aridez dos percalços, redesenhar a infância, abrandar o tom grave das cobranças e compromissos da vida adulta. Paredes vívidas, cítricas, deixam de ser limites, oferecem uma paleta de possibilidades, convidam a um mundo de misturas, imaginação. Interrompem pensamentos desbotados, questionam a sobriedade do preto e branco, as formalizações. O espaço urbano, mesmo erguido com estruturas de concreto, perpassado pela pressa, transborda arte. Sinal que os sentimentos sobrevivem. Um manifesto, um contra-ataque às máquinas, aos discursos repressivos. Alegro-me com as pinturas nas ruas, democráticas, intensas. Um dia desses, percebi que os cansados tapumes escuros de uma obra no centro da capital transformaram-se em lugar de expressão e criatividade. Demorei por segundos o olhar, o suficiente para alcançar a recordação da menina que se divertia com pincéis e folhas em branco. Lembrar que ela ainda está aqui, pronta para preencher de fantasia e resistência os muros cinzentos que insistem em construir. 

Texto e fotos: Alina Souza