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Encontro com Juremir

Poucos conhecem tanto a alma do futebol como Juremir. Nelson Rodrigues também conhecia.

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Encontro Juremir Machado da Silva em frente ao Correio do Povo. Ele quer saber como anda minha gota. Tratada, respondo, aproveitando para perguntar o que ele acha de Charles Bukowski. Estou relendo Misto Quente e preciso da opinião de um conhecedor. 
Juremir acha Bukowski excelente. Isto justifica a releitura de Misto Quente. Henry Chinaski, o personagem principal, escancara muito da minha infância. Bukowski não tem floreios, indiretas: é como um soco na boca do estômago.
Quero saber sobre Michel Houellebecq. Acho um tanto desbocado. Exageradamente desbocado, diria, como quem tenta provar alguma coisa. 
Juremir escreveu uma coluna nesta semana sobre o livro “O Andar do Bêbado - Como o Acaso Determina Nossas Vidas”, de Leonard Mlodino. Inteligente, como sempre, e perspicaz, ligou o livro ao futebol, de como o acaso determina as coisas nos campos de futebol.
Poucos conhecem tanto a alma do futebol como Juremir. Nelson Rodrigues também conhecia.
Em certo trecho Juremir dispara um tiro certeiro: “Brinco com os comentaristas de futebol que chamo de neotáticos: eles acreditam que tudo é calculado pelo treinador. É uma herança dos videogames. Quando, recentemente, um lateral cobrou improvisadamente o escanteio que resultou na classificação improvável do Liverpool contra o Barcelona, o comentarista brasileiro neotático enlouqueceu. Jurou que o lance só podia ter sido ensaiado pelo treinador.” 
Houve um tempo em que se dizia que o Barcelona ganhava seus jogos porque tinha mais posse de bola. Bobagem. Ganhava porque tinha mais time. Hoje, equipes como menos posse estão vencendo às pencas.
Tomando emprestado o termo os neotátiocos diria que para estes as vitórias ou derrotas estão todas vinculadas à ciência dos números e figuras geométricas. As explicações passam por 4-4-2, 3-5-2, 4-1-2-3, 4-3-3, ou por quadrado, retângulo, triângulo...Tudo esquematizado, treinado, robótico. Uma ciência.
Eram 31min do segundo tempo do dia 17 de dezembro de 2006 e eu estava no estádio de Yokohama, no Japão. Inter e Barcelona disputavam a final do Mundial. O melhor jogador do Inter, o eterno Fernandão, deixou o campo machucado para a entrada de Adriano Gabiru.
Ás 21h38min do Japão, 10h38min do Brasil, o capitão Fernandão ergueu a taça de campeão do mundo. Cinco minutos depois de ter entrado, Gabiru anotou o gol da improvável e surpreendente vitória. Tática? Esquema do treinador? Jogada ensaiada? 
O acaso, o destino, a sorte, ou seja lá aquilo que quiseram, reservou para Adriano Gabiru a marcação de um gol que o colocaria na história, junto com o Inter.
Obviamente o outro extremo, deixar tudo por conta do acaso, é impensável, outro equívoco e nem é disto que estamos falando. Juremir pega na veia: “O planejamento diminui a margem de erro. Não garante o sucesso. Os treinadores mais experientes sabem que precisam usar como argumento de venda dos seus serviços a cientificidade do que fazem.”