"Não consigo mais viver. Eu vou morrer"
capa

"Não consigo mais viver. Eu vou morrer"

Capítulo do livro Partida que tem pré-lançamento nesta quinta-feira, dia 7, no Espaço Cultural do Correio do Povo às 16h.

publicidade

Por José Facundo de Oliveira, psiquatra


"Antes de falar de Edmundo Giffoni é preciso registrar que alguns fatos não me saem da cabeça. 
Há acontecimentos que nos perseguem. Este me persegue. 
E acrescentar que talvez este capítulo devesse ter sido o de abertura. Por um motivo singelo: Giffoni é o motivo deste livro. 
Meninote ainda, com meus 14 anos, conheci Edmundo Giffoni. 
Aqui é obrigatório um pequeno parêntese. 
Fui campeão de tênis quando morava em Pelotas. Contava com um excelente parceiro, o "baixinho" Cunha. 
Ali, conheci os Giffoni. Pai e filho jogavam duplas juntos. 
Nos enfrentamos. Pouco importa para o relato que seguirá quem venceu em quadra. Sei que eu ganhei um amigo que me acompanharia por 50 anos. 
Fecho o parêntese.

O meninote deixou Pelotas, virou psiquiatra com consultório em Porto Alegre, sempre acompanhando pelo tênis. 
E por Giffoni, que mesmo veterano seguiu jogando, ora como meu parceiro, ora como meu desafiante.

As más notícias nos agridem para sempre. 
Eis aqui uma verdade irretocável e já explico. Atendo uma ligação de Giffoni. 
O veterano tenista contava com 93 anos. Disse que precisava muito falar comigo. Porém, não no meu consultório e sim em uma sala do Leopoldina Juvenil, onde ele era conhecido e querido por todos. Suspendi três horários do meu divã e fui. 
Ele havia dito que necessitava de umas duas horas de conversa. 
Cheguei no local combinado. Giffoni havia preparado duas poltronas. 
Trancou a porta à chave. As más notícias nos agridem para sempre, repito. Pressenti que estava prestes a ouvir uma.

_"Não quero que fiques chateado. Queria que entendesses que não consigo mais viver. Eu vou morrer." Lembro exatamente das palavras e do choque. Não se tratava de uma consulta. Havia ali uma sentença. Após o silêncio eterno de alguns segundos, que usei para esconder minha perplexidade e formular um retruque.

_Que houve? Perdeste a Sulamita, tua mulher, mas...

Fui interrompido com uma confissão determinada, irreversível. Ele não conseguia viver sem o olhar de aprovação da sua Sulamita.

_"Sabes que ela ficou seis meses na UTI. Sempre que fui visitá-la ela me olhava com o mesmo olhar de aprovação com o qual me sustentou toda a vida. Sempre entendeu a importância do tênis para mim e, mesmo doente, me estimulava a viajar e estar com meus amigos."

Atordoado, procurei uma derradeira forma de demovê-lo. Estabeleceu-se um curto diálogo.

_ Tens filhos, netos, amigos e segues jogando. Sabes também que tens uma família lá em casa e podes contar conosco.
_ Eu sei, mas não posso mais. Na última vez que a vi no hospital pediram-me que encerrasse a visita. Quando me despedi, ela sacudia a cabeça a pedido de que eu não fosse e tinha um olhar vazio e desesperado. Foi a primeira vez na vida que me retirou o seu olhar. Eu não consigo viver assim. Ela morreu no dia seguinte. Agora eu não tenho mais isso, não consigo mais.
_ Vamos falar mais vezes, vamos conversando. Vais te abrindo, isto ajuda.
_ Não. Só quero que entendas e aceites.
Ao final desta frase, nos abraçamos e me senti profundamente triste e impotente. Havia terminado de ouvir uma sentença. Dois meses depois, Giffoni perderia sua última partida, a da vida. Morreu no dia do aniversário de Sulamita.
Como eu carrego isto? Perdão.
A palavra carrego sugere um fardo.
Não carrego um fardo. Levo isto como algo sublime, suave, mas ao mesmo tempo doloroso. Levo com a certeza mais absoluta de que o gesto dignificou uma amizade incontestável, tocante. Elegantemente me ensinou como se perde o último brake. Lembro de uma ocasião, quando andávamos de lancha em Angra, depois de um campeonato, de ter sido recriminado por Giffoni por não tê-lo avisado da morte do meu pai. Isto o deixara magoado. Ele conseguiu o que queria: que eu não entendesse a sua morte como um abandono de um amigo. 
Encerro com a primeira estrofe da poesia Soneto do Amigo, de Vinicius de Moraes:
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado."

Conforme prometido publico um capítulo do livro Partidas, publicação da Kokhmahá. 
Tem como outres José Facundo de Oliveira, a poeta Claudia Schroeder e este que vos escreve.
O livro t
em um pré-lançamento marcado para esta quinta-feira, dia 7, no Espaço Cultural do Correio do Povo às 16h.
Entrada pela rua dos Andradas, ao lado do Estúdio Cristal. 
Estarei lá para receber e conversar com os amigos leitores.
Vendas no local. Também estarei autografando meu primeiro livro, “Quando o Corpo Grita/ Síndrome do Pânico”, um relato da doença diagnosticada há quase três décadas e que tem a participação dos psiquiatras de José Facundo Oliveira e Gildo Katz. 
O lançamento oficial de Partidas acontece no dia 21, uma quinta-feira, no Barranquinho, também com autógrafos de Facundo e Claudia Schroeder.