Astúcias de vendedor

Astúcias de vendedor

Presentes que custam caro

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      Detesto as astúcias das técnicas de venda. Mas acabo aceitando para me livrar mais rápido da compra. Depois, custo para digerir. Fui comprar óculos. O atual durou seis anos. Sou do time dos práticos. Uso um par de sapatos até acabar. Só então compro outro. Na ótica, fiquei sabendo que compraria um e ganharia outro. Achei estranho. O que farei com dois óculos? Se um não quebrar, nunca usarei o outro. Ao final do primeiro, o outro já estará desatualizado. Tentei argumentar. Desisti. Vejamos a operação. Se os óculos custam 100 (sendo esse valor caro), por que a loja me vendaria um e me daria outro? Cobraria 100 e me daria 100 (para um desconhecido)? O resultado daria zero. Estranho.

      Das duas, uma: os óculos não custam 100, mas 50, e nada ganhei, apenas comprei dois. Ou algo claudica nessa bela e curiosa história. Se custa 100, sendo esse valor alto, podendo, contudo, a loja doar um par ao cliente, por que não atender a dois clientes com óculos a 50? Fiquei com a impressão de ser induzido a crer num presente que não aconteceu. Se insistisse em só comprar um, o que aconteceria? Não poderia fazer a compra? Ou teria de não levar o “presente” para casa? Seria isso uma espécie de venda casada? Só compra se levar dois? Por que vender tão caro podendo, ao mesmo tempo, fazer uma doação onerosa? Não seria mais eficaz vender produto tão bom mais barato? Enfim.

      Ao final, recebi duas notas: cada uma, para seguir o valor fictício, de 50. É uma operação contábil curiosa:  desconta-se 50 de 100 duas vezes. Terei dois óculos. Tenho a impressão de que teria sido mais racional comprar um só pela metade do preço. Afinal, se dois valem 100, um só pode valer 50. Ou não? Eu pagaria com gosto 60, até 65. O material é bom, o atendimento agradável, mas não passa essa sensação de ter ouvido uma bela canção e dançado conforme a música.

Sou o cliente ideal para esse tipo de situação. A minha vontade de ir logo embora é tamanha que só digo sim. Como é chato fazer compras! Ainda mais de máscara, num ambiente fechado, com tantos formatos para escolher. Outro aspecto: ganha-se um par de lente. É preciso comprar mais uma armação. E se eu dissesse, quando o primeiro ficar pronto, trago a armação velha, que está ótima, para colocar as lentes ofertadas como presente. Seria possível? Rolaria? Não tentei. Não seria moderno. Essa palavra não pode ser refutada. Acatei tudo.

Fico preocupado com a loja. Pegou com uma mão e devolveu com outra? Vai quebrar? Ou elegantemente me fez pagar o dobro, embora comprando dois bons produtos, quando eu precisava de um só? Não paguei o dobro, claro. Comprei dois objetos iguais e diferentes. Que história circular. Quanto mais penso, mais ando num labirinto. Socorro, Borges. Só me resta uma coisa: usar um par de óculos de manhã e outro de tarde. Ou, quem sabe, um só para o final de semana. Bem, sou uma pessoa precavida: melhor ter tudo em dobro. Espero, contudo, que não passem a vender sapatos assim. Se bem que os meus, pelo modelo que me agrada, comprei dois pares na última vez que fui a Montevidéu. Ainda não os usei. Com a pandemia, só uso pantufas e tênis na Redenção.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895