Boate Kiss

Boate Kiss

A hora da justiça

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      Chega-se, enfim, ao julgamento dos acusados no caso da Boate Kiss. Essa tragédia que matou 242 pessoas em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Jovens foram ceifados em massa. A casa era uma arapuca. O uso de um artefato ateou fogo à espuma do teto. A história é tristemente conhecida. Quanto sofrimento de pais, avós, irmãos, amigos, namorados! De repente, o que era festa se transformou em horror, em desespero, em gente sufocada, asfixiada, pisoteada. Não havia por onde escapar. Hospitais ficaram superlotados. As funerárias não tinham caixões para todas as vítimas. A cidade universitária gaúcha viveu seus piores dias.

      Falar em fatalidade significa eliminar responsabilidades. Penso no que os familiares sentiram naqueles dias e sentem ainda hoje. Perdas irreparáveis. Meninos e meninas que morreram no auge da vida, pulsando em busca da felicidade, do amor, de instantes de alegria, de contato, de encontro, de sintonia com outros. A morte é sempre inaceitável. Ela parece ainda mais abominável quando pais enterram filhos e a suposta “ordem natural” das coisas se altera. É terrível lembrar que 242 pessoas nunca voltaram para casa e que tudo aquilo podia não ter acontecido. Quantos projetos, sonhos e ideais interrompido por um gesto!

      Ninguém deveria poder morrer antes de ter vivido. Sei que se trata de uma frase ingênua ou incongruente, anulada no momento mesmo da sua inscrição na página pela impossibilidade de alteração das regras da existência. Mas como dói, como deve doer, como deve ter doído naqueles que perderam seus entes queridos. O número 242 impacta. Há um número que impacta ainda mais, o de cada um que morreu, cuja morte afetou os que o amavam. Cada vida é sagrada, única, insubstituível, um tesouro que não pode ser dilapidado e desculpado como se fosse assim mesmo, inevitável. Oito anos de dor, de ausência e de espera. A eternidade no coração.

      Um julgamento como esse põe em foco uma profusão de aspectos. Nunca se poderá silenciar a dor sentida pelos que foram atingidos pela tragédia. Nem o tempo será capaz de curar inteiramente esse sofrimento. Ao contrário do diz o senso comum, de resto, calmante, nem sempre o tempo consegue apagar feridas. O que se espera é que haja justiça. O ser humano trata os seus males de muitas maneiras. Está provido de mecanismos para aliviar os maiores traumas. A justiça é um dos tantos remédios para a alma. Sem ela haveria somente a tristeza das perdas.

      Relembrar tudo o que aconteceu também produzirá sofrimentos. Só que a administração da justiça, no sentido de uso de um remédio, existe para funcionar como uma resposta. Numa hora dessas cada um para e questiona: como foi possível? Essa pergunta vem do fundo de nós como uma irrupção. Como não tentar imaginar por empatia, pois sentir realmente tal dor do outro é impossível, o baque que tomou uma mãe ao saber que não teria mais o filho? Uma parte de si lhe foi arrancada sem anestesia. Uma certeza escorre com uma lava vulcânica: poderia não ter sido assim. 

 


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895