Bolsonaro na ONU
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Bolsonaro na ONU

Do I love you ao discurso de campanha

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Jair Bolsonaro não perde viagem. Sempre entra para matar. Na ONU, disparou contra quase tudo que já o atormentou. Foi lá, como um fanfarrão de boteco, para dizer as suas “verdades” aos “comunistas” que costumam frequentar o local. Para júbilo de alguém como o governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, “ mirou só na cabecinha”. Disparou várias rajadas da sua metralhadora contra o socialismo. Alvejou Cuba e Venezuela de peito aberto, como se, estivesse em plena Guerra Fria combatendo o espectro do comunismo em praça pública.

                  Sugeriu que queimadas da Amazônia podem ter começado com os índios. Garantiu que tudo está bem no Brasil. As más notícias não passariam de mentiras da mídia. Afirmou que governos  brasileiros  anteriores ao seu teriam comprado parte da imprensa. Louvou ditaduras sul-americanas de direita, assegurou que o Brasil esteve à beira do comunismo. Fustigou a ONU na casa da ONU. Combateu globalismo, marxismo cultural e ideologia de gênero. O discurso parecia escrito pelo próprio guru Olavo de Carvalho, que deve ter ficado orgulhoso do pupilo. Bolsonaro foi Bolsonaro como sempre: curto, grosso e profundamente ideológico.

                  Tropeçou nalguns dados. Números nunca foram o seu forte.  Disse que, em 2013, o PT importou dez mil médicos de Cuba. Foi desmas carado pelos jornais em poucos minutos. No começo, foram apenas 391. No final daquele ano, já eram mais de cinco mil. Mas os dez mil só foram alcançados em 2014. Sustentou que os médicos cubanos entraram no Brasil sem comprovação profissional. A lei exigiu o diploma de curso superior. Chamou o Foro de São Paulo de organização criminosa. É uma aliança de partidos de esquerda. Até o PDT faz parte dela. Reclamou que o Brasil só usa 8% do seu território para a produção de alimentos. Esqueceu-se de incluir a área usada pela pecuária. O total, segunda a ONU, alcança 28,2%.

Gabou-se de que a Amazônia estaria intocada.

A afirmação é tão verdadeira quanto a maioria das promessas de campanha. Cerca de 14% da floresta já não possui a sua cobertura original.

 Como um jogador descontrolado, Bolsonaro decuplicou a aposta.  Fez do cacique Raoni um mero joguete nas mãos de interesseiros. O tiro certamente sairá pela culatra. Cresceram as chances de Raoni empalmar o Nobel da Paz. Só declarou amor a Donald Trump. Como jogou para a sua torcida ideologizada, radical e apaixonada, saiu certamente com a sensação de vitória. Diplomatas disseram ao colunista Jamil Chade, da Folha de S. Paulo, que o presidente brasileiro perdeu a última chance ser respeitado no exterior. Bolsonaro se lixa.

Ele quer ser aplaudido pelos amigos do seu condomínio na Barra da Tijuca. Caseiro, quando atua fora, ataca antes de ser atacado.

Como ele é quem conta os gols, acha que venceu de goleada.

No futuro, aos netos, Bolsonaro contará com os olhos ainda brilhando: “Teve um dia em que fui lá na ONU e enquadrei os comunistas. Não escapou ninguém, tá ok.? “ Se os netos duvidarem, ele dirá: “Vocês precisam saber isso daí para que ninguém ataque o vovô”.

Mas Bolsonaro sempre tem munição para mais. Ao enxergar Donald Trump, declarou-se: "I love you". Nunca um presidente brasileiro rastejou tanto.

Trump não correspondeu. Limitou-se a gaguejar um "bom ver você de novo".

Se deixasse, Bolsonaro saltava no seu pescoço e pedia uma selfie.

A mídia internacional não perdoou. O New York Times chamou a fala de Bolsonaro de surreal. Ah, se o presidente brasileiro tivesse a menor ideia do que isso significa.