Cálculos eleitorais

Cálculos eleitorais

O que se dizem candidatos em Porto Alegre

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      Jogadores de futebol são treinados para responder: “O importante é ajudar o time e fazer o que o professor pede”. Falam assim quando deu tudo errado e não seguiram o professor. Quando derrapam ou esquecem o roteiro, no calor da fúria, sai algo interessante. A vida é bem assim. Outro dia, um cara me pediu uma moeda. Eu não tinha. Saio para caminhar de bolso vazio. Ele foi sincero: “Então vai para a ponte que partiu”. Admirei a sua franqueza brutal. Político treina-se para só dizer o que possa dar retorno. Joga o jogo e não pode errar. Fico imaginando o que passa mesmo pela cabeça de alguns dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre.

      Olho as pesquisas. Manuela na frente, Marchezan em segundo, Melo em terceiro, Fortunati em quarto. Enfim, Melo e Fortunati bem embolados. Imagino Nelson Marchezan sorrindo e dizendo para os seus botões: “Obrigado, Fortunati. Sem a tua candidatura talvez eu não fosse ao segundo turno. Os teus votos iriam para o Melo”. A candidatura de Melo estava posta desde sempre. Fortunati surgiu de repente. Não era esperado. Imagino Sebastião Melo reclamando: “Pô, Fortunati, era a minha vez. Agora, pode ser que nenhum de nós chegue ao segundo turno”. Fortunati perdeu a vaga, uma vez, para Tarso Genro. Imagino Ricardo Gomes, candidato a vice na chapa de Melo, ex-secretário de Marchezan, um dos artífices do impeachment em curso do atual prefeito, suspirando muito preocupado: “Bah, o que vamos fazer para barrar a comunista Manuela se o Marchezan for para o segundo turno? Como vamos apoiá-lo depois que fizemos todo esse rolo?”

      Atenção, são conjecturas. Mantenham o senso de humor. Imagino Valter Nagelstein perplexo: “Por que eu me declarar fechado com Jair Bolsonaro não está me ajudando? Preciso rever o planejamento”. Imagino Manuela satisfeita: “Senhores da direita, sigam, por favor, brigando entre vocês. A gente se vê no segundo turno”. Fico imaginando Fortunati responder na imaginação à reclamação imaginária de Melo: “O cavalo passou encilhado. Montei. É cada um por si e o eleitor por todos”. Em política, o aliado de hoje pode ser adversário de amanhã. Fico imagino Montserrat Martins, candidato do PV, tentando dizer 43: “Pô, o tempo acabou antes do três”. Fico imaginando Rodrigo Maroni comentando com seu cachorro: “Pena que vocês não votam”. Júlio Flores: “Defendo os conselhos operários”. Luiz Delvair: “Vamos pedir conselhos aos operários”. Pena que não tem VAR.

      Minha imaginação não tem qualquer maldade. Gosta um pouco de todos. Ri de si mesma: “Quando eu concorrer a senador, por Palomas, salvo se antes disso eu ganhar o Nobel, farei tudo para ser um bom político, terei boas ideias, talvez me faltem os votos e disposição para ir a Brasília todas as semanas”. Não se pode ter tudo na vida. Não é mesmo? Imagino o eleitor de direita perguntando: “Quem pode bater Manuela?” E o de esquerda angustiado: “Será que Manu ganha quando todos eles se juntarem?” Ninguém dorme mais. Ainda bem que não tem voto pelo correio. É tudo na urna. Falta saber o que as urnas dirão aos candidatos.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895