Consciência negra

Consciência negra

Heróis negros da abolição

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Se Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Sousa Dantas carregaram a abolição no parlamento, os negros Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio fizeram-na acontecer com suas atuações sempre mais intensas e consistentes nos jornais e nas ruas. Para André Rebouças (1838-1898), faltavam ao Brasil moralidade, determinação, conhecimento, caridade, cientificidade, princípios civilizadores, educação, indústria, investimento, inovação e as comunicações fundamentais ao progresso. Em 1888, com uma população de cerca de 14 milhões de habitantes, a maioria continuava afundada no analfabetismo e em condições de vida precárias.

A abolição não teria acontecido sem o trabalho de parlamentares como Nabuco, Rui e Dantas. O trabalho desses políticos, porém, não teria surtido efeito sem a pressão externa articulada por homens como Gama, Patrocínio e Rebouças. A vida deles foi dedicada à abolição. Como os jornais da época retrataram esses heróis da luta pela libertação dos escravos? É preciso uma síntese destinada a roçar o brilhantismo desses revolucionários adeptos da palavra como instrumento de emancipação. O baiano André Rebouças, neto de uma escrava alforriada e de um alfaiate português, filho de um advogado sem formação acadêmica, sempre esteve à frente de seu tempo. Foi um engenheiro bem-sucedido que canalizou mananciais de fora da cidade para resolver o problema de abastecimento de água no Rio de Janeiro em crescimento acelerado. Para a Guerra do Paraguai, concebeu um torpedo eficaz. Planejou também a estrada de ferro ligando Curitiba a Antonina, que virou a ferrovia Curitiba–Paranaguá.

Teve uma vida quase improvável para um descendente de uma escrava. Estudou na Europa com uma bolsa de estudos, lutou no Paraguai como “voluntário da pátria”, tornou-se amigo do Conde d’Eu no teatro das operações bélicas, ajudou Carlos Gomes a obter recursos na Europa para continuar seu trabalho de compositor, militou na Sociedade Brasileira contra a Escravidão, na Confederação Abolicionista, na Associação Central Emancipadora e na Sociedade Central de Imigração.

Baiano como Rebouças, Castro Alves e Rui Barbosa, Luiz Gama (1830- 1882) usou a lei de 1831 para libertar escravos. Lutou nos tribunais. Em 13 de maio de 1899, praticamente na virada do século, o jornal A Redempção destacou a participação de Gama nas lutas pela abolição: “Não pode haver comemoração de 13 de maio sem o glorioso nome dos precursores e desses os que mais fizeram não foram por certo os que receberam os últimos aplausos, mas os que prepararam, por uma propaganda honesta, contínua, severa, o ânimo popular para compreender que a escravidão era a ignomínia social, o senhor de escravos, um iníquo, e o país que admitia uma instituição assim, aviltante, uma nesga de território que a civilização conspurcava, baixando-a ao nível em que domina o réprobo”.

José do Patrocínio, ex-farmacêutico convertido ao abolicionismo como causa e ao jornalismo como razão de existir, não aceitava o termo “escravo”. Para ele, só existiam escravizados. Articulado, escreveu ao escritor francês Victor Hugo, uma das maiores celebridades da época, pedindo que pressionasse dom Pedro II. Fez o mesmo com o senador francês Victor Schoelcher, herói da abolição francesa de 1848. Schoelcher foi a uma festa organizada por Patrocínio em Paris e disparou: “Exprobai o imperador, que é, dizem, um espírito liberal, a humilhação de ser o único soberano do mundo civilizado que reina sobre hilotas”. Victor Hugo não deixou por menos. Mandou carta ao imperador saudando a libertação do Ceará. Afirmou que a escravidão transformava homens em bestas e aconselhou: “O Brasil tem um imperador, mas esse imperador é mais do que isso: é um homem. Que ele continue! Nós o felicitamos, nós lhe rendemos nossas homenagens”. Para o humanista dom Pedro II esse era um desafio.

Cada um dos três tinha seus métodos e suas missões. O tentacular Patrocínio foi ao Ceará comandar a libertação dos escravos em 1883. André Rebouças teve forte participação na imaginação dessa primeira operação, mais sonhada do que concretizada, de fugas cujo ponto de partida podia ser o túmulo de Luiz Gama, falecido em 1882, em São Paulo. Incansável, Patrocínio, em maio de 1883, ajudou a fundar a Confederação Abolicionista do Rio de Janeiro, cujo primeiro manifesto, divulgado em agosto daquele ano, foi lido para duas mil pessoas no Teatro Pedro II.

André Rebouças iluminou mentes bem-posicionadas na hierarquia social com sua firmeza, seu conhecimento e suas concepções. Luiz Gama terá libertado mais de mil africanos trazidos para o Brasil depois de 1831. José do Patrocínio libertou milhares de mentes com seus artigos candentes e suas imagens incendiárias. Carregavam na pele a certeza de que a escravidão era um roubo. Sabiam por natureza que eram homens como qualquer branco. Tinham consciência do que o negro representava.

 


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Correio do Povo
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