Conto: contrabando
capa

Conto: contrabando

Por trás das aparências

publicidade

As pastas de documentos são generosas em histórias mesquinhas e tristes como certos crepúsculos na campanha. Anoitecer na querência é tema de poesia. A burocracia nunca se constrangeu com a sua única missão: registrar com letras inclinadas para a direita a banalidade de um tempo que parecia não ter fim. Letras que lembram uma chuva em diagonal – chuva “guasqueada” na linguagem da fronteira, entendendo-se por fronteira o oeste do Estado. O olhar passeia por certidões de nascimento, transferências de escravos de uma cidade para outra, relação de negros a serem libertados pelo Fundo de Emancipação, listas de escravizados e dos seus “senhores”, habilidades, profissões, preços.

      Num desses papéis pode-se ler, num formulário impresso com espaços preenchidos à mão, que em 16 de abril de 1880 nasceu o filho da escrava Josepha, solteira, matrícula número 73 do munícipio. O nome da criança tornou-se ilegível, assim como o do proprietário da escrava, que registrava o nascimento em função do decreto 4.835 de 1º de dezembro de 1871, que regulamentava a Lei do Ventre Livre. O que terá acontecido com o filho de Josepha? Terá ficado sob a guarda do senhor até o 13 de maio de 1888, pois a legislação permitia que o amo se ressarcisse dos gastos com os rebentos dos seus escravos, até que eles completassem 21 anos, cobrando-lhe em trabalho não remunerado a comida e os trapos que lhes havia fornecido? Outra folha amarelada dá conta de que um escravo campeiro se mudou em 22 de maio de 1872 de uma cidade fronteiriça para outra. Foi mudado. Terá voltado algum dia?

      Os documentos contam histórias em números, com poucas palavras, limitando-se ao que a lei exigia. Não contam, por exemplo, essa história que Marcolina, benzedeira no Beco da Ladeira, nome que se perdeu com o tempo, dando lugar ao de um general homenageado por alguma barbárie, repetia sempre que sua memória se tornava melancólica e imperativa, ordenando-lhe que deixasse sua língua falar. Então ela, encarquilhada, soltava brasas numa chaleira fervendo e entrava numa narrativa que se afundava em detalhes estranhos, em nomes impronunciáveis e em coisas que os vizinhos brancos rechaçavam:

– Tudo mentira dessa negra velha caduca.

      A história que ela contava acontecia em várias cidades, ora numa, ora noutra, sempre, claro, na fronteira. Uma história de homens que cruzavam as linhas divisórias ao amanhecer ou ao cair da noite trazendo do outro lado gado contrabandeado. Vinham em silêncio sombrio, o que só era interrompido por gritos repentinos de “êra, boi, êra, boi”. Marcolina, com voz rascante, imitava os gritos que não ouvira daqueles homens, mas herdara da sua mãe, que ouvira da mãe dela. De olhos fechados, Marcolina já não era ela mesma, mas um gaudério cruzando fronteiras, voltando ao Brasil, com gado cuja propriedade era duvidosa.

      Então, dizia ela, com voz mais circunspecta, como se fosse o próprio burocrata falando, em algum momento se resolveu fazer valer a lei. As passagens mais conhecidas passaram a ser controladas. Os governos não queriam mais saber de contrabando. Em poucos meses, boiadas foram tomadas de contrabandistas de poucas palavras e muita coragem. Eram homens marcados pela chuva, pelo sol, pela natureza. Quando lhes tomavam os bois, dez, vinte, trinta, não se insurgiam, não reclamavam, seguiam em frente com ar sorumbático. Não ficavam presos.

      Um burocrata alemão, sabe-se lá por que cargas d’água envolvido nessa fiscalização prometida ao fracasso, notou uma regularidade estranha em muitas das situações controladas: muitos homens, poucos bois. Observador de constantes, o alemão chegou a uma regra: mais homens do que bois. Os capatazes das empreitadas entregavam os bois sem protestar. Não aceitavam, porém, que lhes tirassem os cavalos. O alemão chegou a pensar que esse fosse o verdadeiro objeto do contrabando.

– É cavalo que vocês trazem do outro lado? – perguntou um dia.

– Não, senhor, são eles que nos trazem – obteve como resposta.

Riu. Uma segunda constante chamou-lhe a atenção: para cada três brancos, bem armados, havia sempre sete ou oito negros. Despojados do gado, seguiam todos como um rebanho tocado pelos brancos sisudos. Iam-se pelos campos em procissões de melancolia. Vez ou outra, assobiavam.

Naqueles tempos imemoriais – palavra que Marcolina pronunciava com muita clareza como que para destacar a atmosfera terrível daquilo que narrava – chegava o dia em que tudo se confundia em algum bolicho com muita aguardente. Foi nessa dessas ocasiões que o alemão se embebedou com um condutor de tropas. Quando já eram velhos amigos, lembrou-se de saciar a sua curiosidade de classificador de coisas:

– O que vocês contrabandeiam de fato? Gado é que não é.

– Ora, não entendeu ainda?

– Não.

– Negros.