Conto: Duas irmãs
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Conto: Duas irmãs

Quando o amor se revela

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 Naquele dia, pouco antes do jogo entre Flamengo e Corinthians na televisão, minha mãe me disse, como se me desse um conselho:

– Quando se pergunta por alguém, de repente, existe um afeto.

      Não dei bola. Minha mãe dizia coisas para preencher o vazio dos meus longos silêncios. Nessa época, eu não encontrava muito o que dizer. Tudo me parecia desnecessário. Eu me recusava a falar do tempo, de política e de notícias policiais. Não era por me achar intelectual. Nada disso. Simplesmente eu não estava a par desses assuntos. A minha bolha era outra. Eu sabia do jogo entre Flamengo e Corinthians por uma razão bem simples: a televisão ligada na sala repetia isso sem parar enquanto eu almoçava antes de pegar o trem.

      Nos meus pensamentos, burilados à exaustão, eu desenvolvia teses que se esboroavam depois da primeira frase quando eu tentava comentá-las com alguém. Então eu peguei o trem no ponto final e comecei a contar as estações encantado com cada recanto por onde passávamos. Era tudo tão simples e, ao mesmo tempo, tão viçoso. Havia muita vida naqueles bairros ensolarados, muita alegria incontida naqueles rostos que apareciam e desapareciam como moedas fulgurando quando tocadas por um derradeiro raio de sol. As imagens que se acumulavam na minha mente, como se eu as fotografasse inconscientemente, acordavam algo entranhado no meu imaginário.

      Senti as mãos úmidas. Ainda faltavam nove estações. Numa delas, entrou um garoto com a camisa do Flamengo. Era muito jovem e louro. Fiquei calculando a sua idade. Decidi que não podia ter mais de 19 anos. Era alto, magro, olhos muito azuis, vestia um jeans rasgado. Por um momento, nossos olhos se cruzaram. O dele, cristalino, parecia confessar alguma coisa que eu jamais saberia e isso me incomodou. Numa rua lateral, que se perdia em direção aos morros, crianças corriam atrás de uma bola colorida, meninos, meninas, dois cachorros, um branco, outro amarelo, todos sendo tragados pelo mesmo impulso.

      Pensei em descer numa estação para andar por aquelas ruas que se espiralavam e pareciam me atrair para algum lugar impensável. Sempre, desde criança, nas tardes que caem, eu me sinto magnetizado por essas cenas de subúrbio. Passamos por um supermercado, por uma igreja, por um estacionamento repleto de ônibus, por um ferro-velho, por um caminhão atravessado numa ruela, verde, desbotado, com uma frase no para-choque, que só li pela metade, “a cada curva...” O restante perdeu-se numa dobra da linha férrea, antes de riacho, depois de uma passarela, entre uma escola toda azul e uma casa vermelha com as vidraças quebradas e uma porta amarela impecável.

      Subiu uma mulher com um bebê. Devia ter uns 25 anos. Morena, esguia, suave, lábios vermelhos, olhos castanhos. A criança, de poucos meses, dormia, envolta em panos azuis, contra o seu peito. O garoto com a camisa do Flamengo levantou-se para ela sentar sem mesmo erguer os olhos. Postou-se do outro lado do vagão. Em pé. Ao lado da mulher, um homem, que depois percebi ser o marido dela, segurava uma bolsa com motivos infantis. O trem cortava a parte quase rural do trajeto quando o silêncio foi interrompido por uma voz juvenil:

– Você é a filha da Dona Carlinda, não?

      Era o garoto torcedor do Flamengo. Os olhos dele brilhavam.

– Sou, eu mesma, como sabe? ­– a voz dela estremecia.

– Ela foi minha professora.

      A conversa tomou logo um tom afetuoso. O garoto quis saber do bebê, da sua idade, do que como andava a antiga professora, de tudo. A jovem tirou uma fotografia do rapaz para mostrar à mãe. Foi pouco depois disso, eu me lembro como se tivesse gravado, que perguntou:

– Você tinha uma irmã, não?

– Sim, mais nova, a Sandra.

– Sim, eu me lembro dela, da Sandra. O que ela faz?

– É professora.

– E você?

– Também.

      Ele resumiu a sua vida, o seu casamento, o seu trabalho, os seus sonhos. Ela multiplicou as perguntas antecipando as que a mãe faria quando lhe contasse do encontro. Quando faltavam três estações para o final, sob um fundo de árvores agitadas por um vento de fim de inverno, o jovem torcedor do Flamengo perguntou com voz insegura:

– Então a sua irmã vai bem?

– Muito bem, a Sandra. Tem uma filhinha.

      Não deu tempo para mais nada. O garoto saltou do trem. O marido, que só então se manifestou, com voz de esposo, disse:

– Esse cara era ligado na sua irmã! Perguntou duas vezes por ela.

– Não duvido. Eram todos caidinhos pela Sandra.

      O trem continuava parado. O condutor anunciou um pequeno contratempo. Partida em cinco minutos. Olhei para a rua e me senti aspirado pelas cores do entardecer. Quando vi, estava caminhando na plataforma. Havia uma alameda arborizada do outro lado da rua. Eu precisava, esse era o meu sentimento, andar sob aquelas árvores. Na saída, estava o garoto flamenguista, com seus cabelos muito curtos, conversando com um cara que devia ter a mesma idade, embora se vestisse como um sertanejo universitário e usasse aparelho dentário.

– Sabe o que me aconteceu? – perguntou o flamenguista.

– Claro que não.

– Encontrei agora no trem a mulher que mais amei até hoje.