Coringa, herói dos desesperados
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Coringa, herói dos desesperados

Crônica sobre um filme inesperado

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 Oswald de Andrade teria dito sobre um livro de José Lins do Rego: “Não li e não gostei”. Eu não tinha visto Coringa, mas já tinha gostado. Não queria ver por uma razão cristalina: não gosto de filmes sobre pessoas que enlouquecem e se tornam assassinas. Não tenho estômago. Mesmo assim, fui ver. É uma obra-prima. Em tempos distópicos como o nosso, sem espaço para utopias positivas, o herói é o vilão. Coringa, o fracassado, arranca aplausos. Os vencedores são cínicos, oportunistas e pusilânimes.

      Li muito sobre Coringa. Quase vi o filme de tanto ler sobre ele. Coringa mostra o lado “b” do sistema. Outra noite, depois da aprovação da reforma das aposentadorias pelo Senado, o Jornal Nacional, da Rede Globo, encerrou sua cobertura com uma pessoa dizendo que sonhava com o êxito do seu filho para ele não precisar da Previdência. Como assim? O sistema público de aposentadoria por repartição é uma conquista civilizacional praticado até mesmo na meca do capitalismo, os Estados Unidos da América.

      Segundo o Índice Global de Previdência Melbourne Mercer, o Chile tem o décimo melhor sistema de aposentadoria do mundo. É a capitalização que Paulo Guedes adoraria importar para o Brasil. Um milhão de chilenos, numa população de 18 milhões, foram às ruas protestar, entre outras coisas, contra esse modelo tão bem classificado no ranking Melbourne. Será que os chilenos não foram informados dessa benesse? Não estão a par? Por que idosos, recebendo metade do salário mínimo, em torno de 30% do que recebiam na ativa, suicidam-se estando protegidos por uma previdência top?

      No Coringa, como se pode ler nas boas sínteses, a população explode quando funcionários de Wall Street são vítimas de um criminoso vestido de palhaço. Apologia da violência? Talvez não. Crônica de uma revanche contra as humilhações e privações sofridas ao longo do tempo. Vale lembrar que Coringa é uma produção da indústria cultural capitalista, que sabe perfeitamente como transformar a crítica à sociedade do espetáculo em espetáculo, as suas contradições em faturamento, os medos de cada um em terapia coletiva, o horror em catarse mediada por uma tela global.

      Não se deve confiar em quem gosta de algo que não viu. Eu não confio em mim. Por isso, vi o filme. Tenho razões de sobra para ter um pé atrás comigo. Também não confio no Índice Global de Previdência Melbourne Mercer. Tampouco na DC Comics, que produziu Coringa. Nem na Marvel. Não confio em ninguém capaz de atrair um bilhão de pessoas para o cinema com a história de um palhaço fracassado. A mensagem, contudo, parece confiável: o palhaço somos nós. Sim, nós que trabalharemos mais tempo para ganhar menos, em nome da estabilidade do país, enquanto os aquinhoados brasileiros não pagam impostos sobre lucros e dividendos distribuídos. 

      Só vejo filme açucarado. Histórias com final feliz. O Equador, a Bolívia e o Chile explodiram. A Venezuela chafurda no seu pântano. A Argentina voltou para a esquerda. O Brasil perdeu a bússola. Batman defende a ordem. Só que a ordem não dá mais conta da melancolia dos fracassados e dos infelizes. O Coringa representa os derrotados da ordem.