Crônica: memória forçada
capa

Crônica: memória forçada

Mesmo no seu final a ditadura censurava

publicidade

      Entre 26 e 29 de julho de 1979, a União Gaúcha de Estudantes (UGES) promoveu o V Festival Estudantil de Teatro, em Lajeado e Canela. Eu participava do Grupo Teresiano de Teatro, em Santana do Livramento, com meus colegas Praxedes, Vera Lia, Sílvia, Ihone, minha irmã Vera e outros. Escrevi a peça e fui ator em “Os rebeldes”. As primeiras apresentações foram no Colégio Santa Teresa de Jesus. Um momento importante foi no Teatro Municipal de Rivera, no Uruguai. O ponto mais destacado e tenso aconteceu em Lajeado. Era para muitos de nós a primeira viagem e o primeiro momento de consciência cultural.

      Sempre lembrei dessa peça, dessa aventura teatral e dessa viagem a Lajeado, onde ficamos hospedados em casas de pessoas importantes da cidade, médicos, dentistas. Recordava também do rolo acontecido com a censura. Havia, porém, esquecido dos detalhes. Agora, como estamos reunidos num grupo de WhatsApp, fui pesquisar no arquivo da Caldas Júnior. Em 3 de agosto de 1979, a Folha da Tarde publicou a íntegra da “Carta de Lajeado”, assinada pelos grupos que participaram do evento, em solidariedade à “proibição da peça pela Polícia Federal”. No texto da Folha da Tarde, Alexandre Keeling, do grupo Porão, de Santa Maria, declara que a peça, a nossa peça, “Os rebeldes”, “mostra a realidade brasileira”. A carta de protesto defendia “a total liberdade de expressão dentro dos grupos de teatro das escolas”. Eu não me lembrava que meu irmão mais velho, Laudes, havia sido o “chefe” da nossa comitiva. Era preciso que um adulto se responsabilizasse por nós.

      Estávamos todos com 17 anos de idade. O jornalista da Folha da Tarde tomou o cuidado de me proteger. Escreveu: “De acordo com o depoimento de um integrante do grupo Teresiano, de Livramento, a Carta é uma decorrência da peça Os rebeldes, montada por este grupo e vetada pela Polícia Federal”. O integrante era eu. Dias antes, a mesma Folha da Tarde anunciava para 28 de agosto, sábado, no V FET, a peça os Rebeldes, de Juremir Machado da Silva. A peça foi apresentada em Lajeado com cortes. Era assim ou nada. Mas, no palco, improvisei. Meu personagem gritou que, qualquer que fosse o fdp do presidente do país, seria sempre a mesma m. Fui chamado à Polícia Federal, em Santana do Livramento, para explicar. No Correio do Povo, um jovem jornalista escreveu sobre o Festival Estudantil de Teatro de 1979, focando-se em Canela, um certo Antonio Hohlfeldt, meu atual colega amigo na PUUCRS.

      O tempo havia apagado da minha memória detalhes da peça, a Carta de Lajeado, a pressão da polícia durante o Festival e os depoimentos que dei em Livramento. Os colegas me refrescaram a lembrança. Praxedes foi comigo à PF, que ficava junto ao Parque Internacional, na divisa com o Uruguai. “Os rebeldes” tratava da amizade entre dois rapazes, de famílias abaladas por problemas como o alcoolismo, e uma adolescente que se drogava. Era pau puro. Realismo brutal. O texto perdeu-se. Acordei no meio da noite, faz alguns dias, com esse passado brotando na minha mente. Fui três vezes à Polícia Federal. Fiquei com medo. Na primeira vez, queriam saber se eu era militante estudantil. Eu passava meus fins de tarde na sede da União Santanense de Estudantes, no porão da Prefeitura Municipal. Era tempo de transição. Mesmo assim, quiseram saber o que eu tinha contra o “regime”. Na segunda vez, o policial que me recebeu – seu rosto ressurgiu na minha cabeça – me disse para “tomar tento”. Na terceira, falou que iam “me facilitar a vida”.

      Como foi que tudo isso se apagou por tanto tempo? Por que tudo isso brotou enquanto eu dormia? Vieram também de longe as críticas que eu recebia pelo texto: realista demais, sem fantasia, cópia pura e simples de coisas que as pessoas viviam, sem poesia, recalcado. Eu vivia com ar distante e pés no chão. Queria falar do real. Lia Aloisio de Azevedo e Plínio Marcos. Odiava enfeites, frases floreadas. Queria expor no palco a brutalidade da vida. Creio que mudei pouco. Jean Baudrillard, filósofo francês com quem tive a alegria de dividir ironias enquanto ele bebia vinho, falava do crime mais-que-perfeito: um homem é perseguido. Denuncia a perseguição que o esmaga. Ouve dos seus aliados: “Para com essa mania de grandeza”. Ouve dos inimigos: “Não seja tão pequeno”. Penso na peça que escrevi quando tinha 17 anos e, de repente, me lembro: em “Os rebeldes”, queria denunciar a impotência de adolescentes diante da violência do mundo dos adultos.

      Extraviei meus textos de adolescência, um romance, escrito à mão num caderno escolar, “O vale da morte”, e a peça “Os rebeldes”, encenada várias vezes. Sobrou uma poesia publicada numa coletânea. Os meus biógrafos terão trabalho para recuperar a gênese da minha obra. Espero que façam um bom trabalho para publicar quando eu ganhar o Nobel. Sugiro já a manchete para os jornais: um rebelde em Estocolmo. Vendendo melancias junto à BR-158, eu lia “Educação Sentimental” e pretendia ser o novo Flaubert. Nunca me pareceu razoável sonhar pouco. Saí de Livramento para ser ator. Continuo atuando nos palcos da vida.