Da sopa de sonhos aos conceitos

Da sopa de sonhos aos conceitos

O peso das palavras

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Quem sabe? Lidamos como palavras que funcionam como conceitos.

São alicerces. Seguram a estrutura.

E pesam sobre o solo que as ampara.

A história do termo ideologia começa com Destutt de Tracy, que esteve preso durante a Revolução Francesa, tendo sido solto em 1794, criado o termo ideologia em 1796 para designar uma “ciência das ideias”, arranjado problemas com Napoleão, que o rotularia pejorativamente de “ideólogo”, ressurgido para o mundo dos intelectuais e publicado em 1815 o último dos quatro volumes de “Elementos de ideologia”. Ele tinha concepção original da matéria com a qual estava lidando, como se vê no prefácio da primeira edição da sua obra: “A Ideologia é uma parte da Zoologia e é sobretudo no homem que essa parte é importante e merece ser aprofundada. De tal maneira que Buffon, eloquente intérprete da natureza, acreditou que não acabaria a sua história do homem sem pelo menos tentar descrever a sua faculdade de pensar”[1]. Grande projeto.

      Não se tem notícia por enquanto de animal agindo por ideologia. Pode-se, contudo, definir o homem como um animal ideológico. Destutt de Tracy queria ser descritivo. Não era humorista nem estava antecipando as lutas animalescas em torno da palavra ideologia, que se tornaria autoelogio e insulto. Quando alguém diz “a minha ideologia”, orgulha-se do que pensa; quando se trata da ideologia do outro, tudo muda de figura. O elogio vira ataque, ofensa, desqualificação. No extremo, ideologia é o pensamento do outro, esse ignorante submetido às ideias que defende sem perceber o quanto elas o escravizam e condenam. A ideologia, como entidade dogmática e poderosa, não fala. Faz falar. Não silencia, cala. Não liberta, aprisiona. Obscurece.

A ideologia condiciona e limita, mas não condiciona nem limita a todos da mesma forma. Uns são mais vulneráveis do que outros. Ter informações não explica tudo. O filtro ideológico, a lente que a ideologia impõe, pode distorcer a visão de muitos, mas não de todos. A visão de quem não se submete a uma dessas lentes pode, no entanto, vislumbrar panoramas diferentes dentro de uma mesma classe. Fatores não racionais parecem contar nas escolhas pretensamente racionais. A falta de informação pode, sem dúvida, como se imagina, explicar grande parte da cegueira ideológica. Não tudo. Mesmo as estruturas mais rígidas sofrem infiltrações e revelam fissuras.

Em termos vulgares, ideologia, hoje, é o que impediria o outro de enxergar a realidade, a lente que cega em vez de ampliar o olhar. Ao mesmo tempo, autoideologia é a visão de mundo daquele que vê o que vê como vê e disso se orgulha. Entre categoria de acusação e profissão de fé, ideologia significa ver mal, ver pouco, não ver, deixar de ver, ou, no sentido oposto, ver com clareza tudo o que o outro não consegue ver. Em ciências humanas, mais do que nas ditas ciências duras, ainda é muito difícil dizer: não temos a menor ideia. Mais fácil é afirmar que só temos ideologia. Enxerga-se melhor a forma do que o formante, a limitação do que a liberdade, a estrutura do que a infiltração. Afinal, quem não vê é sempre esse outro que pode ser reduzido a objeto.

Quando se tudo se liquefaz, a solidez dos conceitos é tudo que temos.

 

 

 

[1]

                   Traduzido por Nuno Melim da terceira edição 1817, disponível em:http://fr.wikisource.org/wiki/%C3%89l%C3%A9ments_d%E2%80%99id%C3%A9ologie/Premi%C3%A8re_partie/Pr%C3%A9face

 

 


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