Democracia, mídia e justiça
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Democracia, mídia e justiça

Um tripé complexo

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Ao receber, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, o diploma de honra ao mérito, por iniciativa do vereador Engenheiro Comassetto, fiz uma rápida fala.

Ei-la:

Dois homens brancos, dois pensadores, dois franceses, um do século XIX (1805-1859), outro do século XX (1930-1994): Alexis de Tocqueville e Guy Debord. O primeiro visitou os Estados Unidos para conhecer o seu sistema penitenciário e escreveu um relatório que se tornou um livro clássico: “A democracia na América”. O segundo, militante assumido do marxismo cultural, publicou uma obra-prima sobre o capitalismo em sua fase de consumo, “A sociedade do espetáculo”.

      Tocqueville organizou a sua obra em tópicos como este: “Da corrupção e dos vícios dos governantes na democracia; dos efeitos que daí resultam sobre a moralidade pública”. Ponderou: “Nas aristocracias, os governantes procuram algumas vezes corromper. Muitas vezes, nas democracias, eles mesmos se revelam corruptos. Nas primeiras, os vícios atacam direta­mente a moralidade do povo. Exercem sobre ele, nas segun­das, uma influência indireta que é mais temível ainda. A aristocracia e a democracia dirigem-se mutuamente a crítica de facilitar a corrupção”.

Qual o melhor modelo? Tocqueville pesou: “Cumpre distinguir: nos governos aristocráticos, os homens que chegam aos negócios pú­blicos são gente rica, que desejam apenas o poder; nas de­mocracias, os homens de Estado são pobres e têm sua fortu­na por fazer. Daí decorre que, nos Estados aristocráticos, os gover­nantes são pouco acessíveis à corrupção e têm um gosto apenas moderado pelo dinheiro, ao passo que o contrário acontece nos povos democráticos. Mas, nas aristocracias, como os que querem chegar à direção dos negócios públicos dispõem de grandes riquezas e o número dos que podem levá-los a tanto costuma estar circunscrito em certos limites, o governo se acha de certa forma em leilão. Nas democracias, ao contrário, os que disputam o poder quase nunca são ricos e o número dos que contribuem para proporcionar o poder é enorme. Talvez nas democracias não haja menos homens a vender, mas quase não se encontram compradores - de resto, seria necessário comprar gente demais ao mesmo tempo para alcançar o objetivo”. Pessimismo?

Tocqueville criou o termo socialdemocracia. Guy Debord inventou o “situacionismo” – criar situações para arrancar a massa do torpor ideológico – e a “sociedade do espetáculo”, um sistema de relação social mediado por imagens. Organizou o seu livro em 221 fragmentos (teses). Na 66, afirma: “O espetáculo não canta os homens e suas armas, mas as mercadorias e suas paixões”. Talvez devesse ter dito que o espetáculo não canta os homens e suas paixões, mas as mercadorias e suas armas. Debord revisou Marx: “Toda a vida nas quais reinam as modernas condições de produção se anuncia como uma imensa produção de espetáculos. Tudo que era vivido diretamente, tornou-se representação”. No teatro da liberdade, delega-se a outros o papel de protagonista.

Tocqueville temia a ditadura da maioria. Debord, a força do dinheiro e da imagem: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens” (tese 4). A mídia como organizador social. Para ele, o “espetáculo não diz nada além de, o que é bom aparece, o que aparece é bom”. No imaginário de Tocqueville seria, se a maioria vota é bom, se é bom, a maioria vota. É assim?