Eduardo Moreira e a desigualdade
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Eduardo Moreira e a desigualdade

Livro desvenda os mecanismos do capitalismo financeiro

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Eduardo Moreira tem 43 anos de idade. É rico, famoso, um sucesso no youtube. Ganhou dinheiro por 20 anos como operador financeiro no Banco Pactual. Aí resolveu sair e contar como o mágico faz os seus truques, ou como os bancos ganham muito explorando a desinformação e iludindo os clientes. Formado em engenharia, estudou economia nos Estados Unidos, onde foi escolhido melhor aluno em 15 anos. A revista Investidor Institucional fez dele um dos três melhores economistas do Brasil em 2016. Para ele, não há o famoso ganha-ganha. Para que uns ganhem, outros precisam perder. A imagem que utiliza é do parque de areia. Se há montes de areia num ponto, obrigatoriamente tem buracos mais adiante. Para tapar os buracos é preciso diminuir os montes ou trazer areia de outro lugar.

      Depois de escalar as listas de mais vendido com “O que os donos do poder não querem que você saiba”, ele está de volta, para desespero dos seus ex-parceiros de ideologia, com “Desigualdade & caminhos para uma sociedade mais justa” (Civilização Brasileira”. A primeira lição é determinante: não confundir riqueza com dinheiro. Riqueza é que se produz e consome para viver. Dinheiro é apenas um meio para trocar riqueza. Uma pessoa encerrada num cofre cheio de dinheiro não é rica. É prisioneira. Moreira escreve com simplicidade. Pratica o papo reto: “O maior problema do mundo é a desigualdade. Simples assim. Todo o resto – corrupção, violência, carência de saúde e educação, e o que mais vier à mente – é apenas consequência desse problema inicial”. O sistema faz as pessoas olharem para o lado errado enquanto trata de saqueá-las com seus golpes.

      Sociedades igualitárias equilibram o jogo entre os interesses do grupo e dos indivíduos. Só tem um jeito: redistribuir riqueza. É o papel do Estado. Tapar os buracos com areia nova exigiria um crescimento mundial de 175 vezes o tamanho atual da economia. Não vai rolar. O Brasil é o pais que mais concentra riqueza: o 1% mais rico fica com 30% de tudo, 50% das terras cultiváveis, mais reservas monetárias do que 90% da população. Uma selva. Conclusão: “O grupo inteiro fica muito mais fraco quando tem uma parcela debilitada, sem condições mínimas de produzir ou reagir”. A elite burra não percebe. Acha que se garante com mais repressão. Para não perder os dedos, as elites de outros países entregaram os anéis: “A riqueza depende unicamente da quantidade de bens e serviços à disposição da comunidade”. Longe disso, grades e medo.

      Eduardo Moreira, ex-campeão da especulação financeira, sabe do que fala e alerta para os “mitos referentes aos poderes quase infinitos atribuídos ao livre mercado”. É senso comum disfarçado de bom senso.  Ele vai às raízes. O mundo divide-se em antes e depois da propriedade privada, a da terra “não deixa de ser filosoficamente curiosa, dado que nem ela nem a maior parte do que ela oferece foi criada por este ou por aquele individuo”. É uma apropriação. Os donos da terra e dos meios de produção, explica didaticamente, ocupam os postos decisórios e fazem do Estado um “verdadeiro adversário” quando contrariados. Os ex-amigos atacam: comunista! Ele é socialdemocrata. Admira os países nórdicos, que estão quase sempre entre os dez melhores em educação, saúde, segurança, IDH, honestidade, paradoxalmente sem ter os indivíduos mais ricos.

Impostos – Ricos adoram dizer que pagam impostos em demasia. Eduardo Moreira sustenta que os mais pobres pagam os seus impostos e dos ricos com o excedente de trabalho que produzem. É a “escravidão econômica”. Não funciona no mesmo grau por toda parte. Os Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, taxaram os mais ricos com alíquotas de 90%. O Brasil usa os impostos para distribuir riqueza em favor dos ricos: “O imposto sobre a terra é quase inexistente, e os impostos que incidem sobre renda e patrimônio estão entre os menores do mundo”. Dinamarca (tributação sobre renda, lucro e ganhos de capital): 29,2%; Nova Zelândia, 18,1%; EUA, 12,9%; Brasil, 5,9%. Bens e serviços: Brasil, 15,8%; EUA, 4,4%. O paraíso dos ricos é aqui. Os Estados Unidos, apesar de serem a maior potência econômica, não estão “entre os trinta lugares mais seguros para se morar, entre os trinta com melhor oferta de sistema de saúde, entre os dez com melhor educação”. O mundo de Trump é teatro.

      Já foi melhor. Aí Ronald Reagan convenceu o mundo de que se deve transferir o máximo possível de patrimônio público para o setor privado. O 1% mais rico detinha 20% da riqueza norte-americana em 1980. Hoje, está acima dos 40%. Os 90% mais pobres contentam-se com 25% do bolo. Qual é a mágica? Esta: “Privatização dos ativos do Estado”. Por meio da mídia e da política “pressionar o Estado a abrir mão de suas propriedades e transferi-las para os donos da terra e dos meios de produção” sob o argumento de “recuperar sua capacidade de investir”. Os ricos brasileiros pagam menos impostos do que os pobres e fartam-se com juros da dívida pública. De quebra, não pagam impostos sobre dividendos. Caro leitor, não hesite, de presente de aniversário a casamento, passando pelo Natal, dê “Desigualdade”, de Eduardo Moreira, um livro que nada traz de novo, mas mostra o velho de uma maneira que não deixará o mentiroso persistir.