Elogio das pequenas coisas
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Elogio das pequenas coisas

Crônica sobre um estilo de vida

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Há o tempo das grandes ambições e o tempo da sabedoria, quando passamos a fazer o elogio das pequenas coisas. A felicidade pode ser fazer uma viagem ao outro lado do mundo, mas é também caminhar no parque todo dia ou, se for o caso, uma vez por semana ou duas vezes por mês. Não importa. Há o tempo das atividades controladas, monitoradas por especialistas, voltadas para atingir metas corporais. Há também aquilo que se faz pela mente, a caminhada para espairecer, olhar a natureza, respirar ar puro, pensar na vida, passar o tempo, desligar-se do celular, deixar-se levar bifurcando ao som do vento.

      Ser feliz, quando chega o tempo da compreensão da importância das pequenas coisas, é ir ao estádio com um velho amigo, ver jogar o time do coração, com o coração menos interessado na vitória obrigatória do que no momento compartilhado, contando o percurso, a ida e a volta, o intervalo, as lembranças, os assuntos postos em dia. Há o tempo de querer descobrir novos lugares, sempre mais longes, e o tempo de curtir velhos recantos, bastante próximos. Há quem considere a valorização das pequenas coisas como acomodação. Há quem veja na obrigação de rodar o mundo uma imposição da indústria do turismo. O que importa mesmo é que cada um encontre um passatempo, uma paixão.

      Grandes filósofos disseram que ser feliz é manter-se ocupado. Outros, ao contrário, defenderam que a felicidade está em saber desocupar-se, gozar o ócio, não fazer nada, vadiar languidamente. Estou na fase de transição das metas implacáveis para as fruições em doses homeopáticas e deliciosas. Felicidade para mim é andar de mãos dadas com a Cláudia pelas ruas, ver filmes sábados à noite no Guion, almoçar aos domingos sob as árvores do Barranco, saber que os colegas de 40 anos atrás estão ao alcance de um whats, andar pelas alamedas floridas da PUCRS, dar uma aula e sentir o carinho dos estudantes, esculpir um livro pelo prazer de ver a frase nascendo, voltar à terra natal, ler textos que se perdem em imagens transbordantes, ver a chuva da janela, escrever poesia, ouvir o canto dos pássaros, cochilar no ônibus e ser acordado gentilmente por uma menina sorrindo e dizendo:

– Professor, não vá perder o ponto.

      Há o tempo dos grandes voos no escuro e o tempo dos pequenos passos no clarão da manhã. Tudo vale quando o coração se agiganta para aninhar as coisas que não têm preço e por isso não podem ser compradas. Há o tempo das vaidades incontroláveis e o tempo de estender a mão, cancelar inimizades, pedir perdão, deslumbrar-se com o sol caindo sobre o rio, fazer trilhas sob a lua cheia, voltar ansioso para o Natal em família, saudar ano novo com amigos, pertencer a alguma coisa, um clube, uma confraria, uma tradição, uma roda qualquer. Há o tempo de esquecer de mandar flores, o tempo de encomendar flores pelo telefone e o tempo de andar orgulhoso pelo bairro com flores nos braços. Há o tempo de romper com o cotidiano, de acumular milhas de avião sem tempo de usá-las e o tempo de amar a sua rua, cumprimentar os vizinhos, amar a aldeia e andar mais lentamente.