Era uma vez a normalidade
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Era uma vez a normalidade

crônica nostálgica sobre três meses atrás

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      A cidade era uma balbúrdia divertida no lusco-fusco da mutação cotidiana. Ao final das tardes, as luzes eram acesas como fogos de artifício sem explosões, salvo as de algumas rolhas de espumante em bares que antecipavam a noite. Era sexta-feira. Nalgum ponto junto ao rio brilhava uma luz verde e não era aquela da célebre passagem do livro “O grande Gatsby”, de Francis Scott Fitzgerald, que pode ser vista com prazer na adaptação mais recente para o cinema (2013), com Leonardo DiCaprio no papel principal e direção de Baz Luhrmann. Nada havia de extraordinário no que descrevo agora como memória e nostalgia.

      Viver, então, era tão perigoso quanto aparentemente simples. As pessoas saíam do trabalho e perdiam-se na imensidão urbana tagarelando ou sonhando com encontros que começariam em abraços e terminariam, quem sabe, em estreitamentos mais profundos e inesquecíveis. As ruas do centro estavam apinhadas de gente com propósitos muito diferentes. Uns tinham pressa em voltar para casa. Outros, ao contrário, só retornariam ao lar de madrugada ou mesmo ao amanhecer. Uns caminhavam com ar soturno para os ônibus cortejados por longas e desoladoras filas. Outras avançavam cheios de otimismo e alegria para as mesas espalhadas pelas calçadas onde já se acotovelavam os bebedores mais precoces.

      Havia um ritmo de frenesi e de expectativa cuja realidade jamais seria objetiva ou palpável. Todo imaginário é real, todo real é imaginário. Vivia-se, nesses momentos, numa atmosfera. Era assim, de certo modo, todo final de semana como se a repetição produzisse a sua diferença. As mentes inflamavam-se com a perspectiva do descanso, da ruptura suave ou de alguma festa que nem sempre se confirmava ou confirmava suas promessas. As conversas iam do cauteloso ao frenético em poucos segundos. Falava-se de política, de futebol e de amor. Uma pesquisa nunca feita revelaria certamente o quanto se falava de amor.

      Os espíritos mais imaginosos, quando faltava assunto, arriscavam alguma ficção sem qualquer ciência: um mundo sem futebol, com bares fechados e todos em confinamento. Antes da terceira frase, ouvia-se:

– Isso nunca vai acontecer.

      A palavra nunca dançava na boca das pessoas com a certeza errante que só se pode ter quando toda dúvida tem a espessura de um gole ou a consistência de um suspiro. Viver era tudo isso, fazer previsões, pular corda, acertar e errar sem qualquer pretensão ao pódio, correr para o abraço pelo simples desejo de comemorar ou de celebrar a existência. A luz verde que se via junto ao rio podia ser um farol, um pirilampo gigante, um disco voador ou um barco retornando lentamente ao cais. Homens escreviam crônicas pelo simples prazer de brincar com as palavras, com as sensações e com as cores cambiantes do cair da tarde.

      Nesses dias rotulados por alguns como de profundo cinismo e desencanto havia, sem que se pudesse perceber, uma espécie de inocência no ar que permitia viver intensamente sem maiores hesitações.

– Ora, isso foi na época da gripe espanhola!

Nessa época, três meses atrás, pessoas valiam mais do que CNPjs.