Erros crônicos
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Erros crônicos

Errar é o que nos faz humanos

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Sempre que a gente diz, com vigor, não cometerei mais este erro, o pior já foi feito. Então resta a ilusão de que no futuro seremos inteligentes, corajosos, firmes e convincentes. O passado nos servirá de proteção. O escritor Oscar Wilde, de vida errante para os valores da sua época, dizia que a experiência é apenas a soma dos nossos erros. Certo ou errado? Não seria também a soma dos nossos acertos? Há variações crônicas sobre as derrapagens mais agudas de nossas vidas. Uma delas: nunca mais cometerei o mesmo o erro. Frase cheia de enganos: cada erro é único. Nada nos salva dos novos erros.

      Sempre que erro, fico ensimesmado. Por que estou falando de erros? Por que não deveria falar? É uma temática crônica. Crônica de repetições anunciadas. Gabriel García Márquez detestava que parafraseassem seu famoso título, “Crônica de uma morte anunciada”. Erro seu. Nada mais podia fazer. A obra já não lhe pertencia. O sucesso coletiviza as melhores ideias individuais. Errar é humano. Mais uma definição sobre o que nos humaniza. Para alguns, a poesia. Para outros, a linguagem. Ou, ainda, a capacidade de mentir, de fingir, de jogar, de brincar, de cometer atos bárbaros, de racionalizar. A racionalização também atende pelo nome de autoengano.

      A inveja é um erro humano, demasiado humano. Será que outros animais invejam? O erro mais grave é aquele que não é percebido, aquele que permanece inadmitido, sólido, insondável, impávido. Agora estou aqui olhando os edifícios, enquanto o cinza cobre o fim do mês. Agora estou aqui no meio da tarde fazendo as contas de tudo que vivi e do que devo e meu salário não cobre. Tenho as mãos entorpecidas pelo tempo, tenho os pés congelados pelo inverno, o fogo das paixões queimando meu passado, recordações do que poderia ter sido, um buquê de rosas que não entreguei, o gol de placa que não completei, o trem que tomei e não devia, o avião que perdi e já sabia, as aulas de violão que não ousei, as melhores leituras guardadas numa gaveta, as fotos de quando éramos jovens e tristes, dessa tristeza que só os jovens sentem, saudades do futuro e do que nunca serão. Nunca mesmo.

Nunca serão donos do tempo, senhores dos sentimentos. Tenho uma caixa de charutos que não abri, ressentimentos que nunca consegui fechar, coleções de lembranças que não escolhi, arrependimentos que não se justificam, duas calças, cinco camisas, um broche, uma apólice de seguros, insegurança, aposentadoria complementar, ansiedade, alguns discos de vinil, um poema inacabado, mágoa por não ter amado quem me quis, vergonha por não ter dançado a valsa, a valsa eterna dos teus quinze anos, a valsa sincera do meu cinquentenário.
Agora estou aqui olhando as janelas, essas janelas que já se fecharam, baixando as cortinas sem reverência, fazendo exercício para o coração, preocupado em impedir um infarto, lendo jornais para ativar a memória, esquecido das glórias que sonhei e quis realizar.

Estou aqui repetindo solitário minhas frases, somente as melhores, as antológicas, que, por descuido, ninguém anotou, feliz por existir, esperando o próximo jogo na tevê, enquanto deusas desfilam no paraíso, que fica numa rua da Cidade Baixa. Onde errei?